Nightmares & Dreamscapes

Mais de Duas da Manhã…

… e eu já não sei mais porque cismei de que tenho de postar algo hoje. Deve ter já uns dois anos que eu não termino algo de ponta a ponta para postar. Outros dois , dez, vinte anos, não farão diferença nenhuma.

Já mexi em quatro ou cinco coisas que estavam pela metade, já tentei começar algo do zero e já tenho ganas de processar a Apple pelo novo teclado do iPad, que engasga, bagunça tudo e apaga uma ou duas palavra de cada linha antes que eu perceba. Hora de comprar um notebook leve pra carregar por aí.

Cheguei em casa faz pouco mais de uma hora. Sem sono, são quase tres da manhã. Na televisão, já não há mais nada. Na mesinha de centro, que uso como pufe, há sim meu notebook, pesado demais para ser chamado de portátil, mas equipado com um teclado decente.

Na adega improvisada debaixo da pia, só tem pinga e licores. Falta vinho. Não posso me perdoar por deixar faltar vinho em casa. Se bem, que neste calor, vinho talvez não me caísse bem. A geladeira só tem água em garrafa de plástico. Eca! A água fica com aquele gosto horrível do plástico! No freezer, duas bandejas com bastante gelo. Na fruteira, laranjas que, de tão azedas, ninguém quis chupar. Deus é minha testemunha de que sou obrigado a fazer uma caipirinha.

Sentado na poltrona, copo ao lado do telefone, a televisão em algum filme ruim da madrugada a servir de abajur, o que me incomoda é o notebook quente no colo. Tenho preguiça de ligá-lo à tomada, mas parece ter uma hora e pouco de bateria ainda é isso tem de ser mais do que o suficiente para eu terminar algo antes de ter sono e cair.

O editor de textos do blog aberto. A luz da tela me incomoda um pouco. Olho o copo. Três cubos de gelo, uma rodela de laranja, bem pouca pinga. O gelo assim emerso vai demorar a derreter.  Ao tenho ideia do que escrever, a não ser aquelas usuais baboseiras da boca maldita que já me cansaram.

Fuço os rascunhos. Páginas e páginas de rascunhos que já deveriam estar viradas a muito tempo. Pouca coisa vale a pena de ser terminada. Mas essa pouca coisa também, não estou a fim de revirar.

Vêm-me à idéia sonhos e paisagens impossíveis. Borboletas que polinizam fadas. Peixes coloridos fazendo música de vanguarda no fundo de um vulcão submarino. Um casal feliz que não teme o futuro. Crianças dançam ao som de uivos de lobos. Uma mulher que morde os beiços até sangrarem e chora de emoção enquanto o namorado, que, durante o dia, trabalha como puma no zoológico, geme alto tomando-a de um jeito que nenhum dos dois ainda havia experimentado. Outro casal, nu, estreia sua nova cama de casal com um beijo demorado, rolando nela, mãos apertando as nádegas um do outro, na competição por quem será o primeiro. Um homem feio segura sozinho entre as duas mãos, para esquentá-lo, o copo de conhaque, pois o garçom não lhe trouxe uma vela, na primeira mesa ao canto da calçada, no primeiro bar da Avanhandava, rabisca desenhos e frases sem nexo no bonito caderno que tirou da mochila e, apesar dos olhos ligeiramente úmidos e de uma gota que lhes escorre pelo lado do rosto escondido pela parede, parece mais realizado e feliz que qualquer casal da rua.

Creio que todas serão boas histórias para quem souber vivê-las ao escrever. E péssimas para quem as escrever por exercício ou obrigação.

Percebo que estou ansioso e olho de novo para o copo. O gelo começou a derreter. Pinga quente é ruim. Lembro da ansiedade e de como esse copo de pinga deixaria bravo o cardiologista que disse que sou ansioso e propenso a procrastinar por conta de ataques de pânico. Eu o convidaria a beber comigo e conversar agora. Amanhã é domingo e, menos que você tenha em casa um chato que lhe infernize para acordar cedo, aos domingos, a gente pode dormir e acordar quando conseguir. Esse pensamento, e saber que a noite que ficou trancada lá fora, escondida de mim pelo teto e pelas cortinas, me acalma.

Jogo a cabeça para trás, olhando uma lâmpada apagada no teto e conto a mim mesmo uma história que já me aconteceu. Paro a certo ponto a verdade. Instintivamente, dramatizo com a sombra da luz da televisão, com o encosto da poltrona e com o vento fresco que entra pela janela, longe, do outro lado da sala, a versão correta, a que realmente aconteceu em algum sonho perdido ou num momento de razão em que deixei de raciocinar e fiz o que quis, sem medo, como se estivesse de madrugada, sozinho, na poltrona da sala.

Essas, que vêm sem querer, nas distrações em que confundimos a lembrança e o desejo, talvez não sejam as melhores histórias a se contar, carecem de trama e profundidade psicológica provavelmente, mas são as melhores de se escrever. Mais profusas que frases motivacionais em revistas femininas e fluentes como só pesadelos e pensamentos ruins podem ser. Quando uma dessas acontece, é ela a história certa a escrever. Preciso agora ter calma suficiente para pô-la fora pelos dedos no teclado sem me atrapalhar. Tentar acompanhar com os dedos o ritmo em que ela jorra sem querer de minha cachola doentia.

O grande problema em escrever é mesmo esse. Ter idéia, tenho muitas. Anoto-as e até esqueço pois não dá tempo de escrever tudo. E sentado na poltrona, conforme a cabeça viaja na imaginação, coisas que eu sei que nunca vão acontecer tomam forma ao meu redor de mim em coisas que só podem ser alucinações. O hálito de alguem que conversa comigo de perto, trazido pela quentura que meu pescoço deixou na borda do estofado. Uma voz conhecida dizendo no tom perfeito as melhores respostas para as perguntas que faço apenas com o movimento da boca. Paisagens urbanas de uma cidade serrana coloridas no escuro da
daquela parede onde a luz da televisão não chega.  Devaneios de perdição num calor que não sei de onde vem, mas que só pode ser o do corpo de alguém que ainda não conheço. Sei que quanto mais rápido imagino (e isso é inevitável quando gosto do que imagino), mais perco na limitada velocidade da escrita.

É um constante alternar da imaginação involuntária para a necessidade de descrevê-la e, vice-versa, da escrita para a fantasia. Os detalhes. Os detalhes. Quero anotar todos, todos, mas tanta água desce em enxurrada por essa ladeira que acabo consegu8ndo só os mais evidentes, que espero sejam também os mais importante.

Teclo, teclo. Choro. Passo raiva. Suo muito. Olho o copo onde, me lembro, uma pedra de gelo muito grande derretia. Ela já derreteu quase toda. A pinga amarelada agora parece pura água. Não bebi nada. Nem me da mais vontade. Teclo mais algumas frases, para depois buscar água na geladeira. Aquela água com gosto de plástico que eu não quis antes. Está muito quente aqui. Eu sou muito. Escorrem o sovaco, o pescoço, a nação, atrás dos joelhos, até as mãos.

Certas coisas são difíceis de se escrever. Tem de ir de uma vez sem parar para pensar no que vai dar. Cheiro ruim de ferro. O nariz seco incomoda. De tanto suar, a pressão me parece cair e os dedos já escorregam nas teclas. Curioso, olho para o teclado, coisa que digitador bem treinado não faz. Já não distinguo algumas letras das teclas, lambuzadas com um líquido gosmento e opaco. Não parece ser só suor. Os dedos, das duas mãos, sujos.

Pego o copo no qual ainda não pus a boca, o guardanapo que estava embaixo dele para limpar o teclado. O papelzinho absorvente rasga e quase se desmancha logo que o pego. O vermelho clássico só agora me fica evidente. Mergulho os dedos, quase todos, exceto os polegares, das duas mãos, no líquido ainda meio gelado do copo. O drink, antes cristalino e sem graça, fica imediatamente bonito, decorado pelo sangue que escorre das feridas abertas neles pela escrita.

Papo Furado, Uncategorized

handwriting

Lembro de como me doía a mão direita de segurar o lápis para escrever. Sempre segurei-o com muito mais força do que devia. Também sempre demorei muito mais do que devia para escrever. Apertava os dedos contra o lápis e ele contra o papel. Isso já acabou. O que me cansa agora são as dobra de alguns dedos, de pouco se mexerem enquanto teclo.

Dor. Dor só de coisas lembradas ou imaginadas, que não consigo terminar de escrever para postar.

Queria escrever mais rápido. Mais rápido para logo desembuchá-las no teclado e postar. Postar para longe. Para algum lugar do mundo onde sumam.

Não consigo, e essa lentidão em redigir me aflige.

Ficam essas histórias inacabadas me atormentando. Pior do que se não existissem, rascunhadas.

Memórias

está difícil

Acho que cansei-me, e que já isso é irremediável, de escrever neste tablet. A ideia de comprá-lo há uns três ou quatro anos atrás, para a praticidade de escrever em qualquer lugar, foi boa. Mas hoje, cada vez que o destravo, logo às primeiras letras digitadas, desanima-me lembrar de quanto tempo demoro a escrever e de quanta coisa gostaria de escrever. É até agradável imaginar que penso muito rápido e que sou criativo demais. Infelizmente, não é esse o caso, absolutamente. Sempre escrevi devagar. Mesmo à lápis, na escola, naquele papel pautado quadrado com dois furos na margem. O chamávamos “folha de linguagem”. Um nom que, pensando bem, não faz muito sentido, tirando que as professoras mais antigas chamavam as aulas de português do primário, na verdade aulas de alfabetização, “Aulas de Linguagem”. Tínhamos até cadernos etiquetados como “Caderno de Linguagem”. Eram onde escrevíamos os ditados, copiávamos os textos da cartilha e, no primeiro anos, repetíamos por linha e linhas inteiras, página e paginas inteiras, cada letra, em maiúscula e em minúscula, até lhe decorarmos o jeito para, ao escrever, não ter de pensar na mecânica do lápis e da mão.

Nesse tempo, eu já escrevia devagar. O movimento da mão sempre foi lento, com cuidado para ficar legível. Mas também, eu apertava muito o lápis de encontro ao papel e os dedos de encontro ao lápis. O pulso logo doía, a ligação entre fãs duas ultimas falanges do indicador também. Numa redação de vinte linhas para a Dona Terezinha, isso não chega a ser grande coisa. Terminada, era só chacoalhar um pouco a mão e descansa-lá por alguns minutos até o recreio. Hoje as coisa que quero escreve são mais longas e, se é verdade que a mão está mais treinada, também é que corrigi-las já torna impossível de ser feito no papel com lápis e borracha. Imagine, apagar e reescrever meia página cada vez que percebo que queria por mais um parágrafo, contar algo mais, ente isto e aquilo.

O digital foi um ganho nisso. Muito mais fácil de corrigir (e, cá entre nós, parece-me que também é mais fácil de errar). Muito menos cansativo do que o lápis e o papel. Mais rápido até, embora eu continue escrevendo muito devagar.

O problema são meus rascunhos que crescem e crescem. Multiplicação de anotações, de ideias, histórias, frases soltas e citações. Coisas sobr as quais quero escrever, mesmo que não sejam do interesse de mais ninguém. Cada vez que destravo o tablet e penso no quanto demoro a escrever cada uma delas, desanimo e pego-me pensando em algo que consiga escrever no tempo que tenho. Nada é possível de escrever no tempo que tenho. Tudo, ao final, me parece igual, repetitivo e incompleto. Não consigo imaginar o que era para Dona Terezinha ler quarenta redações seguidas entituladas “Minhas Férias”. Todas escritas sobre o mesmo mês passado em casa assistindo à programação da Globo. Sessão da Tarde. Festival Trapalhões. Salvos os dois ou três que diziam ter passado um fim de semana na praia.

Dona Therezinha tinha paciência para ler e corrigir. Era uma boa professora. Eu já não tenho a mesma para escrever as casas que invento enquanto penso em tantas outras que poderia inventar, sem ao menos saber se alguma delas prestaria.

Continuo escrevendo assim, só o que consigo, por falta de uma ordem nesta minha cabeça atormentada.

Nightmares & Dreamscapes

Romeo y Julieta

Romeo y Julieta não estavam juntos, eram na verdade um só. Entremeados e enlaçados um no outro (como se poderia dizer que fazem as lombrigas, se fosse romântico falar em lombrigas), trocavam juras de eternos amor e fidelidade.

Os já mais experientes da vida podem jugar-lhes ingênuos e até deles rir. Afinal de contas, é a reação que todos temos frente às paixões dos jovens. E estes, em particular, são muito jovens.

Ainda assim, seria-nos de admirar, a nós e a ela, a dimensão que essa eternidade, esses “para sempre” e “até a morte”, toma no caso desses dois Julieta e Romeo. Nem Shakespeare, narrador de tragédias e comédias, lhes adivinharia ou fazia tal futuro.

Nem nós, que sabemos da fugacidade do amor e de suas juras, poderíamos conceber que o destino ironizasse essa promessa assim, sem pudor de demonstrar poder. Tampouco eles, apaixonados, envolvidos pelos encanto que os prazeres sempre hão-de ter aos jovens imaturos, e mesmo aos adultos, adivinhariam que um promessa se cumpriria tão fácil e quase involuntariamente.

Pegá-lhes entre os dedos médio e indicador o Termo. O Termo, feio, velho (muito mais velho que eles), mal-humoradp, barbudo e baforento, fedido a álcool que (não importa o preço ou a marca) é sempre álcool, é sempre barato.

Ele leva-os à boca e toca-lhes fogo. Aspira. Tenta tragar-lhes o que têm. Traga duas, três, quatro vezes e se admira (sem emoção) de ainda estarem unidos numa estátua que já é quase metade carvão.
Entre uma tragada e outra, tenta se distrair soprando no ar, como fuligem, a fumaça grossa que deles tira. Imagina o que seja. Imagina pelas formas que lhe percebe. Nuvem. Fantasma. Chifre. Carrossel. Loucura.

Mais duas tragadas, e a estátua se quebra. As cinzas caem na terra, na grama, e se esfarelam. Já eles não têm metade do peso original.

Duas ou três depois e o que deles resta lhe esquenta o dedo, ameaça queimar. Ele joga então esse toco, ainda queimando, no arbusto, ao pé de uma árvore. Nesse toco, estão enroscados, ainda firmes. Realmente até o fim.

Papo Furado

Post sem Moral da História

O sujeito chega em casa, tarde da noite. Perdeu o jornal, perdeu a novela. Seu time também está perdendo. Durante o dia, no trabalho, uma treta atrás da outra. Já lhe apelidaram de varal, por causa da piada corporativa do varal com caralhos pendurados. A esposa o abraça e enquanto o beija, beijo de três segundos, alcança sua carteira e pergunta pelo pagamentos dos boletos e as coisas que devia trazer, mas não trouxe, do mercado. As crianças o chamam para brincar, cada uma por um braço, e brigam entre si, posto que cada uma quer uma brincadeira diferente. O cachorro, para também entrar na disputa, puxa-lhe a barra da calça com os dentes e acaba por rasgá-la. Toma banho e vai para a cama danado com o chuveiro que estava muito quente e com o choque que tomou tentando mexer.

De manhã, é o primeiro a acordar. Antes mesmo do telefone que só iria tocar às seis. Vai à cozinha, faz um café, amaldiçoando a ramela que incomoda o olho. Senta-se na poltrona da sala pensando no dia maldito que começa. Liga a televisão. Jornal já começou. Segura a caneca do café com as duas mãos e a leva à boca. A alguns dedos de distância, sente-lhe o cheiro. “Ah! Ainda bem que existe café!”

Papo Furado, Uncategorized

acabou 2017

O último post do ano. Este ano foi fraco. Este post demorou mais de seis meses para ser acabado. E ainda acho que o publiquei com alguns erros, ou vários, por preguiça de revisar. Sentado aqui no quintal, aproveitando o fresco da noite deste verão maldito, tablet no colo, um belo charuto cubano na mão direita. À esquerda, uma cerveja, a mochila do trabalho. Espero uma ligação para trabalhar numa manutenção que já rendeu discussão entre os colegas e os gerentes. Debaixo da copa das árvores que são plantadas na calçada da rua do lado. Já ouvindo os fogos, cinco para a meia noite, quando o publiquei. 

Agora, poucos minutos depois, já é 2017 e os fogos estão a toda.

Meu apartamento é virado para a paulista. E ela fica aqui perto mesmo. O quintal é na beirada do Espigão, do outro lado. Primeiro ano novo que passo aqui, procurando paz para trabalhar. Nunca tinha percebido como daqui dá para ver tantos fogos também. Não da Paulista ou do Anhangabaú (será que ainda comemoram Réveillon lá?). Lapa, Pinheiros, Butantã, Osasco, Tamboré. Acho que a vista chega quase a Pirapora.

Fica sendo este o primeiro post do ano. Ano estoque começo sem música minha, mas com a da festa dos vizinhos barulhentos.

Memórias

XXX

A professora de redação pediu-nos uma descrição. Eu não entendo o sentido de se redigir uma descrição. Ela ensinou já, e ensinar é muita pretenção, pois qualquer um que para para pensar nisso logo percebe e, se não percebesse, também não lhe faz falta não saber, que há três tipos de redação: a narração, a dissertação e a descrição. A coisa é muito simples de se explicar. Narração é a redação de verdade, você conta uma história. Dissertação é aquela chatice de quando você tem de explicar algo. É chato, mas eu entendo, a gente sempre tem de fazer. Então precisa praticar. É para isso que o cursinho tem aula de redação. Dissertação são quarenta ou cinquenta linhas enrolando sobre uma coisa. Ficar procurando o que falar sobre ela para os outros saberem como é.

Descrever o que é descrição, dá para fazer em uma única linha: “é chato é inútil”. Ninguém gosta de ler, não cai no vestibular, dá trabalho para fazer e… Meu Deus! Por que ela inventou isso? Não podia pedir outra coisa? Não fosse lá tão bonita, eu já teria saído da sala, procurar o que fazer no jardim, trocar ideia com alguém eu estivesse fumando ou agitando rolê na portaria. Como é, não posso decepcionar, estou condenado a perder tempo com isso nas duas horas semanais que tenho para vê-la. Não posso decepcionar.

Ela sempre elogia minhas redações, acho que mesmo quando são um lixo. Quantas eu já fiz este ano? Duas por semana. Isso deve dar quase vinte. Acho que só duas me devolveu sem algum recado à margem. Logo na segunda aula já foi assim. Entreguei duas redações. A da primeira aula, que ela mandou fazer em casa porque demorou muito se apresentando e explicando as noções preliminares, e a da segunda que fizemos na classe depois de falar sobe vícios de linguagem e enquanto ela lia um livro pequeno de capa dura marrom encardida, desses que avó tem na estante. Que avós tinham na estante porque, hoje em dia, nem as avós tem estante. Coisa de sebo. Era um desses livros de capa-dura marrom que encalham, a coleção inteira, se empoeirando e encardindo na estante do sebo.

A primeira, que fiz em casa, sobre como odeio redações de início de curso, as famosas “Minhas Férias”, voltou só com as usuais anotações de copydesk: evite isso, pontue equi, não ali. A segunda, sobre eu só usar roupa cinza, tinha uma recado em caneta verde  ocupava toda a metade direita da margem superior: “Adorei. Espero ler mais assim ao longo do ano e, principalmente, que a do vestibular seja tão boa. XXX.” No XXX, não havia de verdade XXX, mas o seu nome. Tudo em caligrafia de professora primária. Na semana seguinte, a coisa se repetiu e eu me entusiasmei a ponto de ter medo de decepcioná-la.

Descrição. Agora ela me põe à prova. É um desafio. Pede-me algo inusitado para ver se desta vez eu perco o rebolado. Estava a pouco de desistir, mas vou tentar. Nem que seja para ela escrever que não foi bem isso que esperava.

Está lá na porta agora, enquanto eu olho o papel branco, começando a me desesperar, sem ideia do que escrever. Passa a mão pelos bolsos, pelo lado de fora deles, só apalpa. Eu sei o que é. Demorou para ela resolver fumar. Normalmente chega à porta já com o isqueiro e o maço à mão e acende o fogo enquanto ainda procura o cigarro. Pressa de viciada que, parece, se fosse possível, acenderia o maço ainda fechado e já o poria na boca.

Ela corre na mesa, enfia a mão na bolsa e já volta para a porta com o isqueiro e o maço. É tão rápida que, contrariando todas as teorias sobre bolsas de mulher (de terem tudo e nunca as donas acharem nada nelas), pode-se apostar que a bolsa está cheia só de maços de cigarros e isqueiros já arrumados para essas emergências.

De volta à porta, seus movimentos de repente ficaram lentos. Cruzou os braços quase virada para fora, fazia frio mas não era essa a cruzada de braços do frio. Era aquela da criança contrariada quando prepara a birra. Nessa cruzada, os braços apoiaram por baixo e apertaram dos lados, juntando, os peitos não muito grandes, guardados sob a camiseta branca e aquecidos pelo casaco fino de lã bege, desabotoado. A camiseta branca básica foi uma das maiores invenções da moda. Mulher com camiseta branca só não fica mais bonita do que com roupa de frio. Dá para imaginar então como ela estava bonita com a camiseta branca aparecendo pela abertura do casaco de lã que chegava aos joelhos. Jeans, todo mundo usava os mesmos jeans. De uma marca que hoje é cara, importada, mas que antes era fabricada em Osasco e podia ser comprada barata em qualquer loja do calçadão ou mesmo na feira. E botas de um couro caramelo escuro que chegavam à metade da perna. Botas não eram coisa comum. Só eram usadas, e por pouquíssimas mulheres, no frio. Causavam estranheza. “Coisa de caipira e de quartel”, diziam as despeitadas. Cabelos loiros, bem claros, quase brancos, lisos, compridos, corte clássico. Tinham aquele jeito de bagunça do fim do dia. Bagunça pouca, alguns fios por cima dos outros, uma mecha de atravessado, cruzando o cucoruto. Não suporto as garotas que passam o dia todo com a escova na mão a pentear. Maquiagem pouca, acho que só batom e esmalte, vermelho – escuros ambos, talvez cor-de-vinho. Homem não entende direito dessas coisas de cor. Dizem que sonhamos, nós homens, em preto-e-branco e elas em cores. Imagino que não faça diferença então qual o nome desse vermelho. No meu sonho ele é só um cinza escuro. No dela sim, se é que professoras sonham com seus alunos, a classe é um mar de camisetas e agasalhos coloridos de alunos, feito um punhado de balas sortidas derramadas à mesa.

Por um tempo chegou a quase fazer pose à porta. A mão esquerda sob o sovaco contrário, corpo reto voltado diretamente para fora, de costas para mim, olhou para a direita e para a esquerda, parecia procurar já correndo longe uma criança lhe lhe tivesse tocado a campainha por zoeira. Olhou então para a frente, como se percebesse que uma criança que toca campainha e foge também pode fugir para a frente, para o outro lado da rua, embora o outro lado da rua fosse, na verdade, a classe do outro lado do andar e entre as duas classes houvesse o vão livre sob o jardim do térreo. É claro que uma criança não fugiria levitando pelo vão. Mas também é lógico que crianças tocam campainhas de casas de vizinhos chatos e não de salas de aula.

Logo deve ter percebido que não havia criança nenhuma, ou que a posição ali não era tão confortável. Escorou-se no batente. A mão esquerda ainda sob o sovaco do bravo que segurava o cigarro. Olhava novamente longe. Ou talvez nem olhasse. Apenas teria os olhos virados para longe. Para depois da parede, da esquina do andar, da serra, quilômetros longe.

Lembrou-se do cigarro, de levá-lo à boca. Levou-o rápido, mas sem tropeço. Ainda assim, por pressa, esticou os lábios para alcançá-lo mais rápido. Não fez força para puxar o ar. Talvez nem tenha puxado mesmo. Acho que é esse o vício do fumante, não importa tragar ou não, a fumaça, nem o cheiro. O que ela queria, ao lembrar-se dele, era senti-lo tocar seus lábios, pousar ali e ficar.

O olhar aos poucos foi perdendo a firmeza com que se dirigia ao longe. As idéias deviam pesar e cansar o pescoço. Ele foi relaxando e já  a cabeça desceu alguns graus. O bastante para, em vez do horizonte, ela agora olhar em direção a um chão distante. E pouco depois a outro chão já não tão distante.

O cigarro ia e vinha. Dá altura da coxa para a boca. La embaixo, ficava quieto, a um palmo do corpo, para não lhe queimar. Em cima, era cada vez mais lento e cuidadoso o carinho dos labios dela com ele. Não tragava fundo. Pegava-o com a ponta dos labios, cada vez mais devagar, e deixava que a mão o levasse embora de novo.

Quando percebeu que os olhos não viam mais o longe, nem o chão, nem nada, tomou ar bem fundo. Fez com os olhos foco em algo do jardim, depois nos pés, cabeça baixa. Jogou a bituca no cinzeiro ao lado da porta e se apressou para a mesa, para pegar o relógio na bolsa e anunciar que a aula estava para acabar.

Corri escrever umas linhas a mais. Não deu tempo de passá-la para frente de mão em mão como acontecia no final da aula sempre. Tive de levar até sua mesa, à pilha que esperava pelos atrasados. Tive o cuidado de sincronizar o movimento de colocá-la com o de outro aluno para que a dele cobrisse a minha e professora não visse meu nome nela. Aquela sala grande, mais de duzentos alunos, era meu anonimato.

Essa redação, ela me devolveu sem correções, com o desenho de uma bonequinha que sorria, de sua boca um balão, desses de história em quadrinhos: “Posso ficar com esta?”. Devolvi-lhe ao fim da aula, com outro recado curto: “Claro, fiz pra ti.”

Ela não me viu pegá-la nem devolvê-la. Eram muitos alunos para ela fazer isso pessoalmente. Passávamos tudo de aluno para aluno, para retirar, e púnhamos sobre sua mesa para entregar. Nunca tive curiosidade de ver o que ela escrevia nas redações dos outros. Quebrar o encanto de saber se ela deixava recados amais alguém. Achava fascinante ela não saber qual de nós, éramos muitos para ela conhecer pelo nome, era, de certa forma, seu correspondente.

Logo após as férias, fiquei muito doente. Culpa da correria irresponsável de quem tenta abraçar o mundo sem tempo a perder, do inverno mais rigoroso que já peguei nesta cidade e de alguém que me passou uma pneumonia. Afastei-me do cursinho por mais de um mês, voltei num sábado, para uma aula de redação de despedida. Essa aula não valeu, foi com a professora da outra classe, elas revezavam os sábados. Não escrevi nada e acabei deixando o curso de uma forma que, se me pareceu mau educada na época, covarde parece-me hoje.

Tive uma pneumonia, resultado da correria e de tanto tomar chuva no inverno de 93. Assustado com o diagnóstico, e também acomodado, hoje confesso, pensei em largar a faculdade em que tinha entrado havia poucas semanas, no vestibular de julho. À época, cursava ao mesmo tempo, a faculdade pela manhã, o quarto ano do colégio à tarde e o cursinho à noite. Dormia menos de quatro horas por dia, durante a semana. Desempregado, por conta do alistamento militar iminente, achava que tomar todo o meu tempo estudando não fosse mais que obrigação. Aquele inverno, o mais gelado apesar de um dos últimos chuvosos de que me lembro em São Paulo,  ao colaborou. O médico me assustou e o cansaço venceu. Mas não tive coragem de me despedir dos amigos que fiz naqueles primeiros dias de faculdade e mudei de ideia. Foi o cursinho que deixei. Dei dois ou três abraços e sumi.

As outras redações, quando mudei-me para São Paulo, fechei-as em um desses envelopes grandes de papel pardo, bem colado para que ninguém as lesse por curiosidade. Deixei-o numa das duas caixas de papelão com outras coisas que disse para a mãe guardar até que eu me mudasse para um apartamento maior. Quando procurei-as, dois ou três anos depois, já tinham sido jogadas no lixo: “Só tinha papel, caderno, livro…”, disse a mãe. Dizem que não se pode ter raiva de mãe.

Da professora de redação, que fumava na porta da sala com os olhos perdidos na mesmice do teto e para quem eu escrevia duas vezes por semana, não sei mais o nome. Só me lembro de que era algo que não combinava com ela. Na memória, guardei-a por como a vi e pelo qu fazia. Como nome, deixei um XXX, parece carta anônima. Fica bem assim. Combina com um film noir, em preto e branco, com a protagonista fumando, pensativa, a olhar o céu.