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Eu queria mesmo ter algo de novo para dizer, mas tudo já foi dito várias vezes. Não há novidade nenhuma da primeira linha já escrita até a última que ainda vou escrever. Eu procuro, penso, imagino, mas a vida continua este lenga-lenga repetitivo e sem sentido.

E se tudo já foi dito, talvez o que falte seja ouvir…

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E então…

Você acorda no meio da madrugada, se é que por pouco tempo que fosse tenha conseguido pegar no sono, pisca os olhos arregalados, presta atenção na luz de faróis que entra pelas frestas da persiana e corre pelas paredes, pelo armário e pelo teto, preocupado em não perder a hora de sair para o trabalho hoje e inquieto, sem saber, se terá de se preocupar em não perder a hora nos próximos dias. Se já fosse de manhã, esquentaria água para passar um café e se sentar com o copo de massa de tomate cheio dele, bem adoçado e quente, na soleira da porta, olhando as crianças passarem no caminho para a escola. Como ainda não é, senta na cama mesmo, pega o telefone e procura na internet vídeos usando palavras usando palavras que não tem coragem de deixar sua família ou amigos saberem que lhe excitam.

Fica no trabalho na segunda-feira à noite sozinho, sem coragem de procurar se há mais alguém como você que não tenha um compromisso ou um motivo para voltar para casa no dia mais odiado da semana. Repassa o status de tudo o que os colegas tem atrasado ou pendente e também de tudo com que deviam se preocupar. Em ter para quem comentar, esbraveja para si mesmos que são um bando de vagabundos e incompetentes e envia vários e-mails cobrando e chamando a atenção de todos para coisas que você finge serem da sua conta. O chefe já está em casa, mas daí a alguns meses o elogiará pela compromisso com a empresa.

Mas, ainda no dia seguinte, frustrado com mal-humor desse mesmo chefe e com os colegas que, em vez de trabalhar, falam de futebol, sai para fumar cinco ou seis vezes. Olha os carros passarem na rua pensando em como esse pessoal pode estar passeando em pleno horário comercial. Olha também todas as mulheres que passam e não sejam feias, surpreso com o pensamento de que é possível que todas tenham vida sexual. Não consegue imaginar que sejam todas elas capazes de fazer o que, sabe-se, todo adulto é capaz. Surpreende-s ainda ao pensar que o mais provável é que a maioria realmente faça e que muitas delas façam inclusive as coisas que ele nunca fez. Bafora a fumaça como se ela fosse vapor de panela de pressão que foge pela válvula da tampa enquanto o feijão cozinha. Olha a fumaça se dispersar pensando se quem o vê ali consegue também imaginar o que ou deixa de fazer e acreditar ou duvidar disso também.

Na sexta-feira, depois do chope com os colegas que xingou na segunda, quando todos se dispersam para cuidar das próprias vidas, vai dali para outro bar, perto da zona esse. Pede algo que lhe parece forte e distinto. Senta-se ao balcão e não para de olhar para os lados, para as mesas, para o pessoal que fuma na calçada. Procura mais alguém que também não tenha nada para fazer. Não encontra. Dois bêbados noutros bancos ao balcão e uma meia dúzia que fuma na calçada gritando e já sem coordenação para encher o próprio copo lhe incomodam e dão pena. Pede mais uma dose, mais outra. Fala consigo mesmo sobre o que pensa de todo mundo e, por fim, já chutando o balde, de saco cheio de tudo, o que pensa de si. Percebe que é mais um dos bêbados do balcão e imagina que, patético, apenas incomode e lhe tenham pena. Levanta o copo para matá-lo, mas bebe devagar olhando o círculo molhado que ele deixa no balcão.

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Pêlo de Gato

“Pêlo de gato!”

Eu estava distraído com a cabeça deitada sobre meu braço, tentando fugir do tédio da aula repetida de química (o professor repetia as aulas até achar que os alunos haviam aprendido a lição). O professor disse disse alto a frase, passando a mão por boa parte do comprimento do cabelo da galega, para chamar a atenção geral da classe para ela que, provavelmente, estava de novo dormindo ou distraída desenhando. Filho da mãe!

Nessa época, eu costumava me sentar atrás dela e, embora passasse a aula inteira olhando a garota, sempre me contive de tocar-lá, fazer carinho ou coisa que pudesse ser tomada como ousadia ridícula. Parece estranho, mas ser um garoto feio era assim. A gente se acostumava a saber que não devia tomar liberdade com as garotas bonitas. E a galega era uma. Portuguesa, baixinha, loira (e ser loira na periferia chamava muito a atenção), branquela, quadril largo. Não se levava a sério mulher que não tivesse o quadril largo. Foi a primeira garota que eu conheci que malhava em academia. Não para ter o corpo bombado como é moda agora. O seu corpo era bonito mas normal. Sem secura, sem aqueles músculos artificialmente grandes e rígidos. Tinha suas poucas gordurinhas no lugar certo. Principalmente nas bochechas.

Sentava-se à minha frente e eu passava boa parte da aula tentando olhar-lhe o pescoço e os ombros por baixo de tanto cabelo. O cabelo grande e volumoso chegava ao meio da bunda. Nos dias mais ousados, quando ela se debruçava na mesa e a camiseta subia, espiava espiava sua cintura entre a barra da camiseta e o começo da saia. Mas para isso, eu tinha de esticar muito os olhos e me debruçar um pouco. Era arriscado, ficava numa posição meio ridícula que denunciava aos outros a minha curiosidade. Ela me flagrou umas duas vezes e reagiu rindo encabulada como se fosse ela a fazer alguma besteira.

A provocação dele tinha motivo (outro além de se engraçar com a aluna bonita). Elastava realmente dormindo, cabeça baixa, olhos nos rabiscos da mesa. Acordou quando percebeu que riam todos do inesperado do professor abusado. Encabulada, sentou-se de lado espalhando a cara de sono e virou-se para mim com o sorriso de quem sabe que está com a cara amassada e tenta ver graça em si mesma para dissimular a vergonha. Esse sorriso pareceu-me alegre. Normalmente seu sorriso parecia triste, melancólico, desanimado, eu nunca entendi porquê. Era como se, enquanto o abria, percebesse que os outros não entendiam seu motivo para sorrir e se envergonhasse dele. Era comum seus sorrisos durarem muito pouco e logo terminarem numa expressão vazia, lábios abertos, olhos enxergando bem longe, fora da sala. Então ela esquecia do assunto da conversa e, às vezes, parecia se esquecer até de onde estava, como sonâmbulo que acorda fora da cama.

“Preciso cortar meu cabelo. E muito comprido.” Enrolando-o e esticando como se fosse um rabo de cavalo. E depois, batendo as mãos nas pernas e bufando com expressão de saco cheio: “Chama a atenção.” Chamava mesmo, acho que não por ser comprido, mas pelo volume. Denso e muito cacheado. 

Eu não soube o que dizer. Nunca soube o que dizer. Até hoje nunca sei. Se digo que não precisa cortar, estou errado porque discordo dela. Se digo que precisa, estou errado porque ela vai assumir que não gosto de seu cabelo. Não falei nada e, depois, me pareceu ser o mais errado. Podia ter-lhe dito que se o cortasse, eu conseguiria ver seus ombros, talvez também visse melhor suas bochechas. Será que ela estava de brincos? Podia pedir para vê-los. Ela fez cara de brava por eu me abster de descobrir a resposta que ela queria. Aproveitou a caneta que tinha na mão e escreveu no canto de meu caderno, meio de lado, a primeira sílaba de seu nome. Enfeitou com um coração sobre a segunda letra, que ficou parecida com uma vela acessa.

Seu braço deitado na minha mesa para escrever. Se, ao invés do cabelo, ela tivesse falado do braço, eu talvez soubesse o que dizer. Que não mexesse nele, que parecia quente e macio, e que, quando ela se virava assim, me dava vontade de usá-lo de travesseiro para sentar a cabeça e pensar direito em algo para dizer sobre seus cabelos.

Sorriu de novo, feliz por eu não brigar por sua arte. Minha reação foi só olhá-la e ela escondeu, de novo, o sorriso. Percebeu que eu estava triste por algo que me disse antes da aula e ficou também.

“Se você quer cortar o cabelo, corta.” Isso foi o máximo de interação verbal que eu consegui. Podia ter elogiado, mas não, só concordei com que mexesse no que lhe incomodava, como se me incomodasse também.

“Meu pai não deixa. Na minha igreja, mulher não pode cortar o cabelo.” Ela tinha se convertido pouco antes de trocar de escola e nos conhecermos. Imposição da pai que achou conveniente culpar sua antiga religião por seus próprios defeitos. A irmã pouco mais velha que ela não se converteu e o pai a convidou a se casar logo para não morar mais com eles. A galega criou medo de contrariá-lo também.

Além do cabelão que nunca cortava, usava sempre a mesma saia (ou será que tinha varias iguais?) de jeans azul, igual às outras garotas de sua igreja. Nós as dintingüiamos assim. Mas diferente das outras, que ficaram bravas, quando a escola adotou calças (do mesmo jeans) no uniforme obrigatório de todos os alunos, meninas ou meninas, ela ficou feliz como criança que ganha brinquedo.

“Você gosta desse…?” Fingi não me lembrar do nome. Ela completou a frase, talvez para me lembrar, talvez para me mostrar que era infantil fingir. “Meu pai disse que não posso namorar ninguém de fora da igreja. Ela é pequena, não dá pra escolher muito. Melhor ficar logo mesmo com ele que ao menos ele é bonito.”

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Quarto Dela

In your eyes, the light the heat, I am complete.
I see the doorway to a thousand churches […]
I want to touch the light, the heat, I see in your eyes
— In Your Eyes, Peter Gabriel, 1986

Era diferente o quarto dela. Grande, uns cinquenta metros quadrados, até porque era o único cômodo da casa, um quarto e cozinha nos fundos do terreno, banheiro do lado de fora. Paredes azuis de um tom que a gente costuma encontrar em jeans antigos, não em paredes. O teto então, aquele azul marinho que se confunde com preto. Estrelinhas, dessas de adesivos de criança, formavam desenhos que lhe pareciam os das constelações que aparem nos livros de quinta ou sexta série. A porta e a grande janela, que ainda estavam abertas, pareciam grafite escuro de lápis de escola. Fora da janela, havia um roseiral bem fechado, rosas brancas e amarelas que, se você não prestasse atenção, não veria o muro onde acaba. O vento forte do anoitecer trazia um pouco de seu perfume. Móveis eram só o guarda-roupas embutido, quatro portas que se abrem duas a duas, a mesa com banqueta em frente à janela, com o notebook fechado em cima, e a cama muito baixa, quase encostada no chão. Tudo isso, mais o chão e os rodapés, em madeira lisa pintada de preto. Os lençóis e as fronhas eram comuns, brancos. Apareciam pelas beiradas do edredom que tinha estampa imitando colcha de retalhos, todos os quadradinhos com cores escuras também. Iluminação era só a de um abajur no canto. Também de madeira e copa pretas.

Ela fechou a porta (besteira, estavam sozinhos) colocou uma música no celular, parecia fusion ou funk, algo assim instrumental dos anos setenta, e o deixou na mesinha. Acendeu o abajur e fechou janela, só a veneziana. O vento forte e quase gelado continuou entrando, agora com barulho, ainda perfumado.

Ele se abaixou para pousar a mochila no canto, encostada na parede e, enquanto se levantava, percebeu a mistura do cheiro de suor das roupas dela com o do perfume do braço que ela esticou para lhe tocar os ombros e chegar-se mais perto. É um cheiro delicioso de proximidade que o excita como se fosse a própria sensação de lhe encostar o corpo, pele a pele. É engraçado como os poetas desprezam essas sensações íntimas e aparentemente inusitadas. Mas poetas entendem de palavras, não de ações, e suspeito não escreverem sobre isso porque nunca experimentaram. Igual aos moletons velhos que todo mundo usa de pijama no frio. O cinema e a literatura consagraram a sede e as rendas, mas é muito mais romântica a intimidade do abraço de pijama.

Esse cheiro de proximidade o obrigou a procurar tocá-la imediatamente. E foi com a parte do corpo que estava mais próxima. Encostou-lhe o rosto ao braço como se fosse um travesseiro para então abraçá-la pela cintura e apertar-lhe a barriga de encontro ao outro lado de seu rosto. O abraço foi um alívio da ansiedade que guardava de ficarem juntos. Quis ver seu rosto e, apoiando-se em sua cintura com as duas mãos, se levantou e então percebeu que era alguns centímetros mais alto que ela.

Só conseguiu ver o rosto diretamente por uns segundos. Ela, que pensava ser feia, muito envergonhada, abaixou um pouco a cabeça e o escondeu de encontro a seu peito, apertando um abraço. Ele, que sabia que o mais bonito naquele quarto, e noutros lugares onde estiveram antes noutras cerimônias que não esta do sexo, ficou incomodado e com medo de ficarem tristes, já estavam. Sem afrouxar o abraço, pôs-lhe a mão no ombro, por dentro do colarinho da camisa que estava torto já. Afagou-lhe com firmeza o pescoço, um afago quente que a excitou e fez suspirar, sentindo-se desejada e fantasiando sobre o que fariam já sem roupas daí a alguns minutos. No mesmo movimento do afago, que não aceitava ser contrariado, ele guiou seu rosto para cima, obrigando-a a olhá-lo diretamente. Ela tinha um receio que ele não conseguia admitir. Continuou com a mão até proteger-lhe todo um lado do rosto e, sem planejar, acariciou com a ponta de um dos dedos uma pequena marca que encontrou. Algo nela mudou, um alívio nos músculos do rosto, um brilho nos olhos, algo que ele entendeu como tê-la agradado e ela ficar à vontade. Também sem planejar, ele sorriu, sentindo-se aceito e retribuído e ela, em resposta, sorriu também, com a cara que os ditos bobos fazem ao chorar de alegria, sentindo a mesma coisa.

Levaram mais de uma hora entre beijos. Ele a beijou com vontade como há muito não beijava alguém. Ela o beijou sem pressa de acabar, como há muito também. Essa uma hora de beijos foi também o tempo que levaram para tirar a camisa um ao outro. E as tiraram quase sem querer, pois o plano das mãos não era despir, mas sim tocar e, a cada beijo, elas entravam mais por dentro das camisas, procurando ombros, braços, costas, o veio entre os peitos, a barriga. Nos acostumamos a pensar, preconceituoso que somos, que esse passar mãos cada vez mais atrevido seja o ritual da busca lasciva das zonas erógenas. No entanto, é só a gostosa perda da timidez e do receio bobo de infringirem os limites do abraço. A cada pequeno movimento das mãos, desabotoar um botão ou soltar o pano um pouco mais para o lado era conseqüência e não parte do plano para os finalmentes.

Quando as camisas caíram na cama, onde já haviam se sentado e estavam já debruçados, lado a lado, grudados, cada um com o corpo apoiado num cotovelo que lhe sustentava para não dizerem que estavam deitados, acharam por bem cada um tirar os próprios sapatos, meias e calças. Fizeram isso rápido e meio sem jeito, mas ela, que acabou primeiro, deu um sorriso sapeca, girou rápido para ficar de bruços e conseguir alcançar o interruptor do abajur para apagá-lo.

Ele teve medo de se atrapalhar no escuro. Não enxergava nada. Não enxergava onde jogar as calças, mas, sentindo suas mãos em seus ombros, sua cabeça seu rosto em seu pescoço e seus peitos, ainda com o sutiã branco de algodão sem renda, em suas costas, apenas largou-as e virou-se para se orientar tateando no corpo dela. Foi surpreendentemente fácil achar-lhe a cintura, com uma mão de cada lado e o rosto, com a boca, guiado por seu calor.

Beijou-lhe toda a frente e os lados do corpo devagar, como se lhe beijasse a boca, tirando do caminho a roupa de baixo, conforme a boca a encontrava. Quando se viu com a calcinha dela amassada na mão, feito uma bolinha de papel, deitou-se de bruços com a cabeça entre suas pernas abraçando-a. Ela, num primeiro momento, sentiu-se nervosa, constrangida até, mas logo, os beijos sinceros dele, escondidos entre suas pernas, a relaxaram. Apertou os olhos fechados, mordeu o lábio e, com uma mão, segurou-o de encontro a si para que soubesse que podia continuar o quanto quisesse. Com a outra, sem perceber, fazia cafuné. Ele não queria parar.

Uns vinte minutos passaram até lhe cansarem as pálpebras que forçava bem fechadas. Sentia-se toda babada dele que lhe apertava mais forte o quadril e chafurdava com gosto a cada vez que a percebia contrair com força um músculo diferente.

Ela então parou o cafuné para segurar-lhe a cabeça com as duas mão sobrepostas na sua nuca e jogou-se para trás usando o peso do corpo bonito para puxá-lo mais para si. Só aí abriu um pouco os olhos, tinha o rosto voltado para cima, para o teto e o escuro do próprio quarto a surpreendeu. A príncipio não viu nada. Conforme se acostumou, conseguiu focalizar algumas estrelinhas fluorescentes do teto e foi como se elas fossem de verdade e estivessem sozinhos ao relento sob elas. Até sentiu diferente o ar gelado que entrou pelas frestas da janela. Não quis mais olhar para baixo com medo da realidade do mundo, mas voltou a fazer cafuné, agora com as duas mãos, e abriu um sorriso feliz, de lábio mordido, porque daí a pouco gostará de deitarem-se a descansar olhando juntos as estrelas.

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sol

Juro que parei de tentar entender a lógica do mundo, o como e essa história de se há um porquê das coisas acontecerem ou um plano divino para tudo. Não sei quantos mundos existem por aí, nem quero saber, mas ao menos este em que vivemos é caótico, definitivamente.

Imagine este sujeito. Ele passou as últimas duas, ou mesmo três, semanas pensando em quanta asneira faz, e aliás em como só faz asneira. Não conseguiu prender a atenção a nada que precisasse, distraído com problemas que nem devia ter.

Frustrado, resolve ir para casa mais cedo na sexta-feira. Antes de chegar à calçada, desiste desalentado, acha melhor tentar se distrair com o trabalho. Não consegue, claro que não. Quando percebe isso, passa raiva com o trânsito e o metrô lotação no caminho de volta. Parece-lhe ser a única pessoa da rua a voltar para casa quando todos os outros emendam ou saem para a noite. Tenta aproveitar a sexta-feira parando para beber algo, mas desiste e só compra uma garrafa de vinho para beber em casa em, sozinho à noite. Se calhar escreve algo para se distrair.

Desanimado, arrependido e frustrado, chega em casa, toma banho e se deita antes mesmo de escurecer. Maldito horário de verão! A idéia não era dormir, mas foi o melhor que lhe podia acontecer. Acorda perto da meia-noite, sem nada para fazer, procura um filme na televisão, no qual não presta atenção nenhuma, e bebe o vinho devagar amaldiçoando a vida quase tanto quanto a si. Depois da garrafa toda, do filme e de mais alguma besteira dessas que passam de madrugada, volta para a cama a revirar-se abraçado ao travesseiro até conseguir pegar no sono, já amanhecendo. Isso parece se repetir até acabar o fim-de-semana.

Chega no trabalho na segunda-feira e, primeira coisa, vai tomar um café (segunda e terceira também). Distrai-se com o telefone, alguma besteira sem importância, nem se lembra. Parecem-lhe poucos segundos isso. Mas é engraçado, e você já deve ter reparado nisso, como em poucos segundos de distração, minutos podem se passar e perdermos coisas importantes. Quem já deixou o leite ferver e derramar sabe disso.

Mesmo que tenham sido só segundos, foram o bastante para alguém, por trás, lhe cobrir os olhos com as mãos. Essa é uma brincadeira que se costuma fazer com criança, fingindo ser difícil para ela descobrir quem chegou. Mas os colegas falavam alto sobre futebol no café e ele não conseguiu ouvir a voz que provavelmente lhe disse o consagrado “Adivinha quem é.” Não ouvindo, não pode reconhece-la.

Gesto involuntário, que acho que ele faria mesmo se tivesse ouvido, pôs suas mãos sobre as que lhe cobriam os olhos e, ao tocá-las, soube de quem queria que fossem. Teve medo de falar e de se entregar. Falou alguma asneira, sempre fala uma, afinal de contas tudo começou com ele pensando em quanta asneira faz, não seria agora a se redimir. Ela riu de papel de bobo enquanto afrouxava as mãos para ele se virar e ver.

Antes de se virar, ele identificou ao mesmo tempo o perfume e a risada e, com essa pistas, a textura das mãos que não quis deixá-la tirar, mas deixou. Seu coração de pronto se alegrou da surpresa da brincadeira e da coincidência de ser mesmo quem ele imaginou.

Virou-se para a abraçar e viu o sorriso lindo que iluminou sua semana como o sol aparecendo do meio das nuvens.

 

Papo Furado, Uncategorized

handwriting

Lembro de como me doía a mão direita de segurar o lápis para escrever. Sempre segurei-o com muito mais força do que devia. Também sempre demorei muito mais do que devia para escrever. Apertava os dedos contra o lápis e ele contra o papel. Isso já acabou. O que me cansa agora são as dobra de alguns dedos, de pouco se mexerem enquanto teclo.

Dor. Dor só de coisas lembradas ou imaginadas, que não consigo terminar de escrever para postar.

Queria escrever mais rápido. Mais rápido para logo desembuchá-las no teclado e postar. Postar para longe. Para algum lugar do mundo onde sumam.

Não consigo, e essa lentidão em redigir me aflige.

Ficam essas histórias inacabadas me atormentando. Pior do que se não existissem, rascunhadas.

Papo Furado, Uncategorized

acabou 2017

O último post do ano. Este ano foi fraco. Este post demorou mais de seis meses para ser acabado. E ainda acho que o publiquei com alguns erros, ou vários, por preguiça de revisar. Sentado aqui no quintal, aproveitando o fresco da noite deste verão maldito, tablet no colo, um belo charuto cubano na mão direita. À esquerda, uma cerveja, a mochila do trabalho. Espero uma ligação para trabalhar numa manutenção que já rendeu discussão entre os colegas e os gerentes. Debaixo da copa das árvores que são plantadas na calçada da rua do lado. Já ouvindo os fogos, cinco para a meia noite, quando o publiquei. 

Agora, poucos minutos depois, já é 2017 e os fogos estão a toda.

Meu apartamento é virado para a paulista. E ela fica aqui perto mesmo. O quintal é na beirada do Espigão, do outro lado. Primeiro ano novo que passo aqui, procurando paz para trabalhar. Nunca tinha percebido como daqui dá para ver tantos fogos também. Não da Paulista ou do Anhangabaú (será que ainda comemoram Réveillon lá?). Lapa, Pinheiros, Butantã, Osasco, Tamboré. Acho que a vista chega quase a Pirapora.

Fica sendo este o primeiro post do ano. Ano estoque começo sem música minha, mas com a da festa dos vizinhos barulhentos.