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Post sem Moral da História

O sujeito chega em casa, tarde da noite. Perdeu o jornal, perdeu a novela. Seu time também está perdendo. Durante o dia, no trabalho, uma treta atrás da outra. Já lhe apelidaram de varal, por causa da piada corporativa do varal com caralhos pendurados. A esposa o abraça e enquanto o beija, beijo de três segundos, alcança sua carteira e pergunta pelo pagamentos dos boletos e as coisas que devia trazer, mas não trouxe, do mercado. As crianças o chamam para brincar, cada uma por um braço, e brigam entre si, posto que cada uma quer uma brincadeira diferente. O cachorro, para também entrar na disputa, puxa-lhe a barra da calça com os dentes e acaba por rasgá-la. Toma banho e vai para a cama danado com o chuveiro que estava muito quente e com o choque que tomou tentando mexer.

De manhã, é o primeiro a acordar. Antes mesmo do telefone que só iria tocar às seis. Vai à cozinha, faz um café, amaldiçoando a ramela que incomoda o olho. Senta-se na poltrona da sala pensando no dia maldito que começa. Liga a televisão. Jornal já começou. Segura a caneca do café com as duas mãos e a leva à boca. A alguns dedos de distância, sente-lhe o cheiro. “Ah! Ainda bem que existe café!”

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O último post do ano, este ano foi fraco, demorou mais de seis meses para ser acabado. E ainda acho que o publiquei com alguns erros, ou vários, por preguiça de revisar. Sentado aqui no quintal, aproveitando o fresco da noite deste verão maldito, tablet no colo, um belo charuto cubano na mão direita. À esquerda, uma cerveja, a mochila do trabalho. Espero uma ligação para trabalhar numa manutenção que já rendeu discussão entre os colegas e os gerentes. Debaixo da copa das árvores que são plantadas na calçada da rua do lado. Já ouvindo os fogos, cinco para a meia noite, quando o publiquei. 

Agora, poucos minutos depois, já é 2017 e os fogos estão a toda.

Meu apartamento é virado para a paulista, aqui perto. O quintal é na beirada do Espigao, do outro lado. Primeiro ano novo que passo aqui, procurando paz para trabalhar. Nunca tinha percebido como daqui da para ver tantos fogos também. Lapa, Pinheiros, Butantã, Osasco, Tamboré. Acho que a vista chega quase a Pirapora.

Fica sendo este o primeiro post do ano. Ano estoque começo sem música minha, mas com a da festa dos vizinhos barulhentos.

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XXX

A professora de redação pediu-nos uma descrição. Eu não entendo o sentido de se redigir uma descrição. Ela ensinou já, e ensinar é muita pretenção, pois qualquer um que para para pensar nisso logo percebe e, se não percebesse, também não lhe faz falta não saber, que há três tipos de redação: a narração, a dissertação e a descrição. A coisa é muito simples de se explicar. Narração é a redação de verdade, você conta uma história. Dissertação é aquela chatice de quando você tem de explicar algo. É chato, mas eu entendo, a gente sempre tem de fazer. Então precisa praticar. É para isso que o cursinho tem aula de redação. Dissertação são quarenta ou cinquenta linhas enrolando sobre uma coisa. Ficar procurando o que falar sobre ela para os outros saberem como é.

Descrever o que é descrição, dá para fazer em uma única linha: “é chato é inútil”. Ninguém gosta de ler, não cai no vestibular, dá trabalho para fazer e… Meu Deus! Por que ela inventou isso? Não podia pedir outra coisa? Não fosse lá tão bonita, eu já teria saído da sala, procurar o que fazer no jardim, trocar ideia com alguém eu estivesse fumando ou agitando rolê na portaria. Como é, não posso decepcionar, estou condenado a perder tempo com isso nas duas horas semanais que tenho para vê-la. Não posso decepcionar.

Ela sempre elogia minhas redações, acho que mesmo quando são um lixo. Quantas eu já fiz este ano? Duas por semana. Isso deve dar quase vinte. Acho que só duas me devolveu sem algum recado à margem. Logo na segunda aula já foi assim. Entreguei duas redações. A da primeira aula, que ela mandou fazer em casa porque demorou muito se apresentando e explicando as noções preliminares, e a da segunda que fizemos na classe depois de falar sobe vícios de linguagem e enquanto ela lia um livro pequeno de capa dura marrom encardida, desses que avó tem na estante. Que avós tinham na estante porque, hoje em dia, nem as avós tem estante. Coisa de sebo. Era um desses livros de capa-dura marrom que encalham, a coleção inteira, se empoeirando e encardindo na estante do sebo.

A primeira, que fiz em casa, sobre como odeio redações de início de curso, as famosas “Minhas Férias”, voltou só com as usuais anotações de copydesk: evite isso, pontue equi, não ali. A segunda, sobre eu só usar roupa cinza, tinha uma recado em caneta verde  ocupava toda a metade direita da margem superior: “Adorei. Espero ler mais assim ao longo do ano e, principalmente, que a do vestibular seja tão boa. XXX.” No XXX, não havia de verdade XXX, mas o seu nome. Tudo em caligrafia de professora primária. Na semana seguinte, a coisa se repetiu e eu me entusiasmei a ponto de ter medo de decepcioná-la.

Descrição. Agora ela me põe à prova. É um desafio. Pede-me algo inusitado para ver se desta vez eu perco o rebolado. Estava a pouco de desistir, mas vou tentar. Nem que seja para ela escrever que não foi bem isso que esperava.

Está lá na porta agora, enquanto eu olho o papel branco, começando a me desesperar, sem ideia do que escrever. Passa a mão pelos bolsos, pelo lado de fora deles, só apalpa. Eu sei o que é. Demorou para ela resolver fumar. Normalmente chega à porta já com o isqueiro e o maço à mão e acende o fogo enquanto ainda procura o cigarro. Pressa de viciada que, parece, se fosse possível, acenderia o maço ainda fechado e já o poria na boca.

Ela corre na mesa, enfia a mão na bolsa e já volta para a porta com o isqueiro e o maço. É tão rápida que, contrariando todas as teorias sobre bolsas de mulher (de terem tudo e nunca as donas acharem nada nelas), pode-se apostar que a bolsa está cheia só de maços de cigarros e isqueiros já arrumados para essas emergências.

De volta à porta, seus movimentos de repente ficaram lentos. Cruzou os braços quase virada para fora, fazia frio mas não era essa a cruzada de braços do frio. Era aquela da criança contrariada quando prepara a birra. Nessa cruzada, os braços apoiaram por baixo e apertaram dos lados, juntando, os peitos não muito grandes, guardados sob a camiseta branca e aquecidos pelo casaco fino de lã bege, desabotoado. A camiseta branca básica foi uma das maiores invenções da moda. Mulher com camiseta branca só não fica mais bonita do que com roupa de frio. Dá para imaginar então como ela estava bonita com a camiseta branca aparecendo pela abertura do casaco de lã que chegava aos joelhos. Jeans, todo mundo usava os mesmos jeans. De uma marca que hoje é cara, importada, mas que antes era fabricada em Osasco e podia ser comprada barata em qualquer loja do calçadão ou mesmo na feira. E botas de um couro caramelo escuro que chegavam à metade da perna. Botas não eram coisa comum. Só eram usadas, e por pouquíssimas mulheres, no frio. Causavam estranheza. “Coisa de caipira e de quartel”, diziam as despeitadas. Cabelos loiros, bem claros, quase brancos, lisos, compridos, corte clássico. Tinham aquele jeito de bagunça do fim do dia. Bagunça pouca, alguns fios por cima dos outros, uma mecha de atravessado, cruzando o cucoruto. Não suporto as garotas que passam o dia todo com a escova na mão a pentear. Maquiagem pouca, acho que só batom e esmalte, vermelho – escuros ambos, talvez cor-de-vinho. Homem não entende direito dessas coisas de cor. Dizem que sonhamos, nós homens, em preto-e-branco e elas em cores. Imagino que não faça diferença então qual o nome desse vermelho. No meu sonho ele é só um cinza escuro. No dela sim, se é que professoras sonham com seus alunos, a classe é um mar de camisetas e agasalhos coloridos de alunos, feito um punhado de balas sortidas derramadas à mesa.

Por um tempo chegou a quase fazer pose à porta. A mão esquerda sob o sovaco contrário, corpo reto voltado diretamente para fora, de costas para mim, olhou para a direita e para a esquerda, parecia procurar já correndo longe uma criança lhe lhe tivesse tocado a campainha por zoeira. Olhou então para a frente, como se percebesse que uma criança que toca campainha e foge também pode fugir para a frente, para o outro lado da rua, embora o outro lado da rua fosse, na verdade, a classe do outro lado do andar e entre as duas classes houvesse o vão livre sob o jardim do térreo. É claro que uma criança não fugiria levitando pelo vão. Mas também é lógico que crianças tocam campainhas de casas de vizinhos chatos e não de salas de aula.

Logo deve ter percebido que não havia criança nenhuma, ou que a posição ali não era tão confortável. Escorou-se no batente. A mão esquerda ainda sob o sovaco do bravo que segurava o cigarro. Olhava novamente longe. Ou talvez nem olhasse. Apenas teria os olhos virados para longe. Para depois da parede, da esquina do andar, da serra, quilômetros longe.

Lembrou-se do cigarro, de levá-lo à boca. Levou-o rápido, mas sem tropeço. Ainda assim, por pressa, esticou os lábios para alcançá-lo mais rápido. Não fez força para puxar o ar. Talvez nem tenha puxado mesmo. Acho que é esse o vício do fumante, não importa tragar ou não, a fumaça, nem o cheiro. O que ela queria, ao lembrar-se dele, era senti-lo tocar seus lábios, pousar ali e ficar.

O olhar aos poucos foi perdendo a firmeza com que se dirigia ao longe. As idéias deviam pesar e cansar o pescoço. Ele foi relaxando e já  a cabeça desceu alguns graus. O bastante para, em vez do horizonte, ela agora olhar em direção a um chão distante. E pouco depois a outro chão já não tão distante.

O cigarro ia e vinha. Dá altura da coxa para a boca. La embaixo, ficava quieto, a um palmo do corpo, para não lhe queimar. Em cima, era cada vez mais lento e cuidadoso o carinho dos labios dela com ele. Não tragava fundo. Pegava-o com a ponta dos labios, cada vez mais devagar, e deixava que a mão o levasse embora de novo.

Quando percebeu que os olhos não viam mais o longe, nem o chão, nem nada, tomou ar bem fundo. Fez com os olhos foco em algo do jardim, depois nos pés, cabeça baixa. Jogou a bituca no cinzeiro ao lado da porta e se apressou para a mesa, para pegar o relógio na bolsa e anunciar que a aula estava para acabar.

Corri escrever umas linhas a mais. Não deu tempo de passá-la para frente de mão em mão como acontecia no final da aula sempre. Tive de levar até sua mesa, à pilha que esperava pelos atrasados. Tive o cuidado de sincronizar o movimento de colocá-la com o de outro aluno para que a dele cobrisse a minha e professora não visse meu nome nela. Aquela sala grande, mais de duzentos alunos, era meu anonimato.

Essa redação, ela me devolveu sem correções, com o desenho de uma bonequinha que sorria, de sua boca um balão, desses de história em quadrinhos: “Posso ficar com esta?”. Devolvi-lhe ao fim da aula, com outro recado curto: “Claro, fiz pra ti.”

Ela não me viu pegá-la nem devolvê-la. Eram muitos alunos para ela fazer isso pessoalmente. Passávamos tudo de aluno para aluno, para retirar, e púnhamos sobre sua mesa para entregar. Nunca tive curiosidade de ver o que ela escrevia nas redações dos outros. Quebrar o encanto de saber se ela deixava recados amais alguém. Achava fascinante ela não saber qual de nós, éramos muitos para ela conhecer pelo nome, era, de certa forma, seu correspondente.

Logo após as férias, fiquei muito doente. Culpa da correria irresponsável de quem tenta abraçar o mundo sem tempo a perder, do inverno mais rigoroso que já peguei nesta cidade e de alguém que me passou uma pneumonia. Afastei-me do cursinho por mais de um mês, voltei num sábado, para uma aula de redação de despedida. Essa aula não valeu, foi com a professora da outra classe, elas revezavam os sábados. Não escrevi nada e acabei deixando o curso de uma forma que, se me pareceu mau educada na época, covarde parece-me hoje.

Tive uma pneumonia, resultado da correria e de tanto tomar chuva no inverno de 93. Assustado com o diagnóstico, e também acomodado, hoje confesso, pensei em largar a faculdade em que tinha entrado havia poucas semanas, no vestibular de julho. À época, cursava ao mesmo tempo, a faculdade pela manhã, o quarto ano do colégio à tarde e o cursinho à noite. Dormia menos de quatro horas por dia, durante a semana. Desempregado, por conta do alistamento militar iminente, achava que tomar todo o meu tempo estudando não fosse mais que obrigação. Aquele inverno, o mais gelado apesar de um dos últimos chuvosos de que me lembro em São Paulo,  ao colaborou. O médico me assustou e o cansaço venceu. Mas não tive coragem de me despedir dos amigos que fiz naqueles primeiros dias de faculdade e mudei de ideia. Foi o cursinho que deixei. Dei dois ou três abraços e sumi.

As outras redações, quando mudei-me para São Paulo, fechei-as em um desses envelopes grandes de papel pardo, bem colado para que ninguém as lesse por curiosidade. Deixei-o numa das duas caixas de papelão com outras coisas que disse para a mãe guardar até que eu me mudasse para um apartamento maior. Quando procurei-as, dois ou três anos depois, já tinham sido jogadas no lixo: “Só tinha papel, caderno, livro…”, disse a mãe. Dizem que não se pode ter raiva de mãe.

Da professora de redação, que fumava na porta da sala com os olhos perdidos na mesmice do teto e para quem eu escrevia duas vezes por semana, não sei mais o nome. Só me lembro de que era algo que não combinava com ela. Na memória, guardei-a por como a vi e pelo qu fazia. Como nome, deixei um XXX, parece carta anônima. Fica bem assim. Combina com um film noir, em preto e branco, com a mocinha fumando, pensativa, a olhar o céu.

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Artur

Artur não tinha amigos nem irmãos.

Artur também não tinha aqueles primos chatos e tios interesseiros que só aparecem nos feriados para ver se a avó ainda dura e discutir sobre quanto tempo ela leva e que deviam vender isso e aquilo. Bom, tampouco tinha avó. Ou melhor, sabia ter, mas nunca a viu. Ficaram na Armênia, avó e tios. O avô morreu já havia morrido, na invasão turca, quando o pai, caçula de três, oito anos de idade na epoca, fugiu de casa de tanto a mãe brigar com os irmãos que diziam que ele era um peso morto. O pai passou pela Turquia, pela Ucrânia, pelo Líbano, ganhando a vida como podia (garçom, ajudante de loja, leiteiro). Até juntar dinheiro para embarcar para Salvador. Lá, fez amigos no comércio e pegou estrada para Aracaju, ser mascate. Tinha orgulho de seu sotaque e de como era respeitado na cidade que crescia. Tinha raiva de, ao preencher os documentos, lhe mandarem escrever Turquia em vez de Armênia, por causa do passaporte, e mais ainda de ser chamado de turco narigudo por quem lhe reparava o nariz, do qual também tinha muito orgulho.

Artur ouviu-lhe essa história quando já era ele grande o suficiente para passar o começo de noite no bar tomando cerveja com o pai, e também para trabalhar e o pai não ter de trabalhar até tão tarde, a lhe pagar sozinho todas as contas.

Artur da mãe não se lembrava. O pai só sabia dizer que não sabia dela. Os amigos dele não queriam saber do assunto. Um vizinho descarado por duas vezes, brigando com o pai, se referiu a ela como aquela que te… e não conseguiu terminar a frase pois a briga chegou às vias de fato.

Artur cedo aprendeu a se virar sozinho. O pai sempre na rua trabalhando, acordava cedo e pegava a carona que podia a seu destino do dia, fosse um dos bairros ou Estância, Itabaiana, Propriá, Lagarto… rodava o interior do jeito que podia. As amizades que tinha no Mercado lhe ajudavam a se organizar. O menino cozia o pão e o guisado diários. O café, o pai deixava pronto. A casa simples não precisava de muito esforço para a limpeza, que tocavam juntos depois da missa e o almoço do domingo. Missa perto de casa, na igreja da Santo Antônio mesmo pois, segundo o pai, Deus é o mesmo, fale o padre português ou armênio. 

Artur, tirando os domingos, não era incomum ver o pai só tarde da noite,  em tarde mesmo, quando chegava das andanças do trabalho. O velho, provavelmente sentindo-se culpado da ausência, sentava-se na cama do filho, entre ele e a parede, e dormia ali, encolhido, guardando o garoto que nunca o censurou nem agradeceu.

Artur hoje de manhã enterrou o pai. Já velho. Mas não o suficiente para te-se aposentado. Enterrou-o em cova simples no cemitério municipal. Cova que será reaproveitada daqui a alguns anos quando seus ossos forem exumados e levados para uma gaveta. Depois foi a missa e terminou o dia olhando o mar na areia da praia pensando em como é a vida, como é o mundo e como são as pessoas. Foi para a casa já na hora de tomar banho e se deitar.

Artur pegou seus documentos e leu seu próprio nome Aratum, não Artur, como ficou o conhecido no bairro, lembrou-se do pai e, de repente, sentiu uma tristeza que lhe pareceu ser todas as tristezas que o pai sentiu na vida juntas. Teve saudade dele e se encolheu com vontade de chorar.

Artur procurou na cômoda, e achou, uma caixa velha de giz de cera, já antigos, bem gastos.  Desenhou, na parede, da melhor forma que pôde, a silhueta do pai, sentado a seu lado, como tantas vezes o percebera em seu sono. Ficou quieto sem entender. Dormiu.

Artur acordou no dia seguinte, de manhã cedo, hora do trabalho. Olhou o desenho na parede. Foi quando começou a entender o que é a vida. E resolveu que queria viver como seu pai.

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|| Pausa

Está difícil de conseguir acabar os textos que tenho no forno. Quando tento, alguém abre a porta do forno e eles solam. Dá a maior preguiça depois, para consertar a porcaria. Porcaria mesmo, sem tamanho.

Agora, por exemplo, tenho de novo um café na mão (na mesa a meu lado, é verdade), o tablet, corpo dolorido de quem dirigiu e andou bastante no fim-de-semana (estou todo suado, os casais que namoram nas outras poltronas deve ter reparado), o tempinho do final de domingo, antes do jantar e ninguém conhecido por perto para me encher o saco. Ainda assim, abri a lista dos rascunhos, alguns precisando só serem (muito) corrigidos e pensei “ó pai, que trabalheira que qualquer um desses vai dar!”

Ontem à noite já tentei. Se bem que a oportunidade não era tão boa. No hotel, onze e tanto, quase meia-noite, dei uma escapulida, caixa de charutos num bolso, cantil com um resto de brandy noutro (precisa, para quando o charuto seca a boca), tablet na mão, ou mais provavelmente embaixo do sovaco, como costumo carregá-lo. Minha ideia primeira foi descer à praça e sentar-me num daqueles bancos de granito com propaganda de comércio. Aqueles bancos tradicionais de praça de cidadezinha e que existiam também na minha cidade quando ela era pouco mais do que uma cidadezinha.

A praça é grande bem arborizada. Do elevador panorâmico do hotel deu para ver uma espécie de praça de alimentação perto dos bancos onde pensei em me sentar, bem em frente à entrada do hotel. São umas barracas de lanche dispostas em círculo com mesas no centro. Muita batata frita, pães recheadíssimos com enlatados e hambúrguer industrializado, latinhas de cerveja dessas marcas adoçadas, jovens, pareceu-me que fossem todos homens, de agasalhos de moletom de marcas de surf e bonés de skatista (aqueles que chamávamos de bombeta, quando eu era adolescente) e música alta de festa na laje. Não me pareceu o lugar onde eu teria sossego.

Imediatamente, me lembrei da piscina do hotel, que eu só experimentei com a mão, já esperando a água gelada de inverno na serra, e onde, embora estivesse apenas fria, não entrei porque achei a superfície da água muito empoeirada. Coisa de piscina no inverno, que, mesmo quando não está gelada, ninguém pensa em usar. A piscina fica na cobertura, cercada por cadeiras de sol e um jardim que faz toda a volta do andar.

Dei meia-volta no elevador e subi para lá. Pousei o cantil na beirada do jardim e puxei uma das cadeiras para junto. Peguei um charuto e o acendi. Foi fácil, não havia vento, nem o frio da sexta-feira.  Na sexta-feira, eu logo de cara abortei a missão descer para a praça, por causa do frio. Ontem não. Apesar do inverno, da serra, o frio era gostoso, não tinha vento e, logo que olhei para cima vi, não tinha nuvens também.

Na segunda vez que puxei do charuto, reparei que ele queimava rápido demais. Devia estar bem seco. Olhei para cima para baforar vendo a fumaça subir, se espalhar e desaparecer. Ainda acho graça nisso, quase como criança. Acho bonito a fumaça cobrir grossa o céu e desaparecer sem que se perceba como. Igual ao ponteiro dos minutos do relógio, que a gente olha andar sem ver andar. Depois da fumaça, continuei olhando para o céu. Muitas estrelas. Vê-se-as bem daqui. Inclusive, há um observatório grande não muito longe.

Quando se olha para o céu, a princípio, as estrelas não são muito nítidas. Têm-se de manter a vista por um tempo para se acostumar e focar direito. Aí elas vão aparecendo. O brilho ressalta, ganham nitidez, enquanto o céu ao fundo parece ficar cada vez mais escuro. No céu claro, as estrelas são como incrustações, como aquelas pedrinhas que, há algum tempo atrás, as mulheres usavam muito nas roupas. Strass. É strass o nome daquilo. Lembrei da primeira vez em que ouvi uma amiga usar essa palavra. E me lembrei que um dos textos quase acabados era sobre ele, ou tinha ela, ou era para ela. Ou provavelmente tudo isso. E era um dos que eu nunca terminava de escrever, já ia há uns dois anos eles. Terminei o charuto olhando para o céu, sem prestar mais muita atenção a ele nem às estrelas, pensado em como lhe enviaria o texto acabado. Esse tinha de ser enviado, não era coisa de se deixar perdido na internet esperando que a pessoa procure: “coisas escritas comigo ou para mim ou sobre mim”. E-mail, correio, visita. Todos os meios têm seus prós e contras. Não sei qual a praxe, não entendo disso… de praxe nenhuma.

O charuto acabou e eu desmanchei o toco de folhas queimadas para espalhar na terra do jardim como bom adubo que ele se tornou. Bochechei um gole pequeno de brandy para umedecer a boca e, por fim o engoli. Parece nojeira, mas maior seria se eu cuspisse numa planta ou na piscina. Engolir foi, então, um heroico sacrifício pelo qual meu fígado merece uma medalha.

Olhei por cima do jardim para a praça lá embaixo, do outro lado da rua. Uma borboleta grande pareceu passar voando junto à borda dos galhos. Ali é alto para borboletas, ainda mais àquela hora. Curioso, fiquei prestando atenção. A luz das barracas de comida não muito atrapalhava a vista. Ela passou de novo. Grande, bem grande. Rápida. Borboleta rápida é difícil. Marrom ou bege. Ou no máximo aquele burro-quando-foge que muitos chamam de pardo. Será que à noite todas as borboletas são pardas? Na quinta ou na sexta passagem, consegui segui-la com os olhos. Agarrou-se num galho que chacoalhou e logo foi embora zanzar de novo. Decepção. Acabou o mistério. Não era borboleta. Era um morcego.

Decepcionado por ter-me enganado. Não por não ser uma borboleta, eu gosto de morcegos, mas por ser um bicho que não causa estranheza estar ali àquela hora. Decepcionado também por, distraído pensando no que fazer com aquela história, não ter escrito nada. Resolvi acender mais um charuto. Coisas rara, fumar mais de um na mesma semana. Tentei algo que já vi fazerem, molhar a ponta no brandy. Uma besteira. Custou a acender. Ficou difícil de puxar o ar para que queimasse. Gastei bastante do gás do isqueiro até que o fogo ficou já fraco. Mas aí já tinha conseguido chegar à parte seca e o fogo pegou.

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Paredes

Paredes, paredes altas. Os cômodos já não são muito grandes (exceto pela cozinha, que dá o tamanho de dois quartos), mas a altura do teto de estuque é que lhes dá a aparência claustrofóbica. A proporção inusitada realça a estreiteza da sala principalmente. As portas também, estreitas e altas, que dão para os quartos, parecem fendas. Mesmo abertas, não deixam ver muito mais espaço. Da da cozinha, vem luz, o resto da casa é escura. A janela da sala é um vitrô grande que passa o dia todo coberto pela cortina grossa que parece toalha de mesa.

A porta que dá para a rua não dá para a rua. Primeiro há a sacada, depois a escada que desce, pelo pequeno jardim de roseiras brancas e amarelas, até o portão para a calçada. O terreno é alto, aterrado por causa da enchentes que, antigamente, quando aqui era zona rural, alagavam tudo, do córrego lá embaixo, até quase a Matriz.

Puxando uma fresta à janela, dava para ver as roseiras, o muro verde, não muito alto, do vizinho da direita e as três casas logo em frente. Não dava mais que isso. Mesmo a esquina da avenida, só uns vinte metros mais adiante, ficava encoberta pelo muro, pelas rosas, pela coluna do teto da sacada.

A segunda tentativa é a janelinha da porta. Aberta nem chega à largura da cabeça de uma criança. Nem precisa. Tem uma grade que a impediria de por a cabeça para fora. E fica muito alta, que o pequeno tem de ficar erguido quase na ponta do pé para que os olhos a alcancem.

Da janela, dá para ver a esquina, pessoas atravessando a rua, vindo pela avenida, voltando do trabalho ou da escola. Ou da missa da tarde. Ou do passeia de desocupados pela cidade. Não há como saber sem ir atrás lhes perguntar.

Também dá para ver o vão entre duas das casas em frente. Pelo vão, um morro muito baixo, a uns quinhentos metros dali talvez . À esquerda dele, um ou dois barracos da beirada da favela que há depois do córrego. Favela das antigas, pequena e estreita, dava para ver no caminho para cá. Ladeia uma avenida e os barracos são espaçados, de modo que não é um bom lugar para bandido se esconder. Numa beira, parecida com laje, do morro, há um campo de futebol. Dá para ver a trave que dá costas para o córrego. Deve ser ruim terem de buscar lá embaixo as bolas que são chutadas para fora. Queria ver o cemitério, mas é do outro lado. À esquerda de casa, uns duzentos metros mais para cima. O morro em si ainda era baldio. Tinha mato, alguns arbustos, uma ou outra árvore.

Isso é tudo o que dava para ver. Cinco e pouco da tarde, depois do chá. O calor já passou. Daqui a pouco é tomar banho e ficar de bobeira na frente da televisão até dar sono. Melhor aproveitar enquanto há sol e dá para ver isto.

O sol desce. Desce direitinho pelo vão entre as casas da frente, para trás do morro. Demorou uns quinze minutos. O céu foi amarelando, alaranjando. Depois, escureceu de cima da casa também em direção ao morro, enquanto ele era contornado pela claridade do sol que estava lá atrás mas não queria se apagar. Sem perceber quando, o céu já estava azul marinho e o contorno do morro pelo sol já era uma luz fraca que vinha da lua.

Talvez amanhã eu perceba como os dois fazem isso.