Memórias

Acho que cansei-me, e que já isso é irremediável, de escrever neste tablet. A ideia de comprá-lo há uns três ou quatro anos atrás, para a praticidade de escrever em qualquer lugar, foi boa. Mas hoje, cada vez que o destravo, logo às primeiras letras digitadas, desanima-me lembrar de quanto tempo demoro a escrever e de quanta coisa gostaria de escrever. É até agradável imaginar que penso muito rápido e que sou criativo demais. Infelizmente, não é esse o caso, absolutamente. Sempre escrevi devagar. Mesmo à lápis, na escola, naquele papel pautado quadrado com dois furos na margem. O chamávamos “folha de linguagem”. Um nom que, pensando bem, não faz muito sentido, tirando que as professoras mais antigas chamavam as aulas de português do primário, na verdade aulas de alfabetização, “Aulas de Linguagem”. Tínhamos até cadernos etiquetados como “Caderno de Linguagem”. Eram onde escrevíamos os ditados, copiávamos os textos da cartilha e, no primeiro anos, repetíamos por linha e linhas inteiras, página e paginas inteiras, cada letra, em maiúscula e em minúscula, até lhe decorarmos o jeito para, ao escrever, não ter de pensar na mecânica do lápis e da mão.

Nesse tempo, eu já escrevia devagar. O movimento da mão sempre foi lento, com cuidado para ficar legível. Mas também, eu apertava muito o lápis de encontro ao papel e os dedos de encontro ao lápis. O pulso logo doía, a ligação entre fãs duas ultimas falanges do indicador também. Numa redação de vinte linhas para a Dona Terezinha, isso não chega a ser grande coisa. Terminada, era só chacoalhar um pouco a mão e descansa-lá por alguns minutos até o recreio. Hoje as coisa que quero escreve são mais longas e, se é verdade que a mão está mais treinada, também é que corrigi-las já torna impossível de ser feito no papel com lápis e borracha. Imagine, apagar e reescrever meia página cada vez que percebo que queria por mais um parágrafo, contar algo mais, ente isto e aquilo.

O digital foi um ganho nisso. Muito mais fácil de corrigir (e, cá entre nós, parece-me que também é mais fácil de errar). Muito menos cansativo do que o lápis e o papel. Mais rápido até, embora eu continue escrevendo muito devagar.

O problema são meus rascunhos que crescem e crescem. Multiplicação de anotações, de ideias, histórias, frases soltas e citações. Coisas sobr as quais quero escrever, mesmo que não sejam do interesse de mais ninguém. Cada vez que destravo o tablet e penso no quanto demoro a escrever cada uma delas, desanimo e pego-me pensando em algo que consiga escrever no tempo que tenho. Nada é possível de escrever no tempo que tenho. Tudo, ao final, me parece igual, repetitivo e incompleto. Não consigo imaginar o que era para Dona Terezinha ler quarenta redações seguidas entituladas “Minhas Férias”. Todas escritas sobre o mesmo mês passado em casa assistindo à programação da Globo. Sessão da Tarde. Festival Trapalhões. Salvos os dois ou três que diziam ter passado um fim de semana na praia.

Dona Therezinha tinha paciência para ler e corrigir. Era uma boa professora. Eu já não tenho a mesma para escrever as casas que invento enquanto penso em tantas outras que poderia inventar, sem ao menos saber se alguma delas prestaria.

Continuo escrevendo assim, só o que consigo, por falta de uma ordem nesta minha cabeça atormentada.

Memórias

Funas

Contava-me histórias do Funas minha avó. Não o confundam com Funes, el memorioso Funes, do conto do Borges. Funas era um senhor de sua terra, já de idade. Havia estudado. Diferente dos outros que se acabavam aos poucos na roça, onde ele pouco tempo passou, conseguiu chegar à idade de a pele enrugar feito bulldog, os cabelos amarelarem (próximo estágio depois de ficarem brancos e resistirem à queda) e a memória pregar-lhe peças. Nunca precisou pegar em ferramentas mais do que para cuidar do jardim, da pequena horta, ou para os consertos da própria casa. Viúvo havia muitos anos. Perdeu a mulher ainda jovem e não se casou mais. Trabalhou como professor, tutor, secretário, arauto. Coisas que, numa aldeia pequena, não deixam ninguém rico, mas que renderam-lhe alguns escudos de economias, que lhe prouveram com folga a aposentadoria quando já não conseguia mais enxergar o suficiente para viver do papel e da tinta. Até porque, em boa parte de sua vida, seus gastos foram poucos. Era comum pagarem-lhe com pão e vinho por ler e responder cartas. Não que cobrasse. É parte da etiqueta pagar por orgulho e aceitar por humildade. Definitivamente pão e vinho são tudo de que uma pessoa precisa para viver. Os mais agradecidos, por trabalhos importantes, de documentos, passaportes, contratos, o convidavam para as festas e lhe enviavam ovos e caça.

Conheceu dois reis, ou melhor, viu dois reis, o morto e seu pai, em aparições públicas destes quando ele tratava de assuntos à cidade. O menino, o que fugiu, ele não teve oportunidade. O avô e a bisavó, foi contemporâneo deles na juventude e na infância, respectivamente, mas não tinha, à época, motivos para descer o rio à cidade, ao litoral. Não lhe faziam diferença El-Rei, o senhor presidente, um ministro ou quem fosse a aparecer na coroa da moeda. Ali, na província, a única mudança dos tempos foi passarem a chamar a d’El-Rei de Guarda. Mudança meramente vocabular, pois os guardas eram os mesmos, apenas passaram a se ofender em serem ditos do rei.

Já com idade, passeava pela aldeia de manhãzinha e, depois, ao fim da tarde, quando o sol era pouco. Não gostava do calor. Do frio sim. Se nevava, acordava mais cedo e já saía. Os jornaleiros (que é como chamavam os que trabalhavam por diária nas fazendas) o encontravam de boca aberta, cabeça erguida, olhando para o céu, os flocos caírem. Era um sorriso de alegria de criança. Se distraía com isso que era capaz de erguer as mãos, braços abertos, como se esperasse ser erguido aos céus. Esquecia-se de se apoiar à bengala feia, lascada a canivete por ele mesmo de um galho grosso.

Carregava sempre o farnel de pedaços de pão e um pouco de vinho. Não podia ver uma criança sem lhe oferecer pão. Às vezes, tinha rebuçados, de folha de figo. Açúcar, então, era difícil é caro de chegar por ali e rebuçados não eram coisas que as crianças pudessem se dar ao luxo de recusar.

Depois do almoço, meio-dia, sentava-se, no morro atrás da casa, debaixo de um olmo, uma castanheira, uma oliveira, que a sombra lhe protegesse todo, e fumava o caximbo. Nessas horas não queria crianças por perto. Tinha medo de que a fumaça as adoecesse os pulmões. Também não queria adultos, mas aí os motivos já deviam ser outros. Era seu horário de ficar sozinho longe de tudo, inclusive do próprio teto. No resto do tempo não. Mesmo aos domingos, quando se sentava no chão encostado ao muro que ribanceia a estrada, se alguém lhe desse bom dia, boa tarde ou mesmo olá, já era um convite para puxar conversa.

Minha avó, num desses domingos, passando pela estrada atrás de algo com que brincar, uma borboleta ou besouro, cumprimentou-lhe e ganhou, em resposta um convite para sentar-se também ao muro. Sentou-se e o velho perguntou-lhe então se sabia o nome da cor do vestido que usava. Ela não sabia. Era um vestido de tecido cru. Não tinha cor. Nem alvejado era. Foi feito de pano grosso usado de saco de cereal. Compravam esses sacos usados na feira, eram os melhores tecidos para roupas do dia-a-dia. Grossos, resistentes, custavam a puir e, para rasgarem, havia a criança de fazer arte da grande. “Carnação.” Carnação é o nome da cor. É a cor da pele. Almas famílias ricas, algumas vilas e cidades, até a têm em seus escudos, mas, por praticidade, na hora de pintá-los, acabam por usar marrom ou bege que, pela lei, são equivalentes para isso.

Lembrou-se de contar à menina de quando foi convidado a copiar, para o registo da paróquia, os documentos de nomeação nobiliar de uma família da cidade que tinha procedência da aldeia. Havia controvérsia sobe a origem do nome e a legitimidade do título. Algumas inconsistências. O escudo, por exemplo, às vezes aparecia como carnação, às vezes como amarelo, ou vermelho, ele não se lembrava direito. As divergências não eram problema seu. Compilou os documentos e deixou a cargo do cónego que encomendou o serviço julgar a causa. Não se lembrava também que fim levou ou qual era o título defendido. O tempo, quando passa, apaga esses detalhes e, os que deixa, quando ainda existe, difíceis de buscar e confiar.

De uma coisa pensava se lembrar, contudo sem muita convicção. De, por ficar até tarde na sacristia à procura de documentos e neles trabalhar, não lhe deixar o padre voltar para casa no frio que fazia, nevava e ele não tinha um casaco que não encharcasse da neve. Convidado a cear com o padre, e com a freira que lhe cuidava dos afazeres domésticos, aceitou e passou a noite na igreja. Tomaram os três uma açorda com bastante pão e um ovo mole por cima de cada tigela.

Por falta de mais um quarto e de cobertores grossos que bastassem a todos, o padre puxou-lhe um colchão de campanha para junto do fogão a lenha. Ao calor do fogão, acesso dia e noite, e com os cobertores que conseguiram, passaria a noite bem aquecido. Serviram-se ainda de uma caneca bem grande de vinho quente cada um, com cravo e canela. Soube-lhe diferente esse vinho quente. O vinho do padre é muito mais doce e forte do que o normal. Forte de sabor e de álcool. Parece não deixar gosto na boca, nem amarga, nem seca a língua.  Antes de terminar a caneca, já estava caindo de sono.

Recolhem-se, padre e freira a seus quartos, ele à cama de campanha junto ao fogão. Só uma vela acesa, na prateleira da quina da parede, para iluminar a imagem de Santo Antão. Não podia, contudo, reclamar do escuro, pois havia alguma claridade ainda saindo das frestas da porta do forno de lenha. Naqueles tempos, isso era muito mais luz do que as pessoas estavam acostumadas. Podia até incomodar o sono.

O Funas contava isso para minha avó, indo e vindo, contava, corrigia, voltava atrás, arrependia-se, rendia-se e, por fim, deixava estar como havia contado mesmo. Fazia tempo já e a memória não lhe ajudava. A cabeça, embora, até seus últimos dias, sempre tenha parecido lúcido, talvez também não ajudasse mais.

Por alguns segundos, quieto, olhando para o mato do outro lado da estrada, pareceu decepcionado de a história não lhe estar fresca como gostaria na lembrança. Decerto o vinho sabia mesmo delicioso e o calor da cama improvisada devia ser aconchegante no inverno das montanhas. Ele pegou um caderno, grosso, capa de couro, páginas de papel mal cortado, do bolso interno do paletó e voltou a contar enquanto procurava algo mais.

Noite alta ainda, escura, quieta, nenhum som de galos ou pássaros, acordou todo suado. Resultado do vinho ou do calor do fogão. A princípio o que estranhou, antes mesmo de abrir os olhos, foi estar deitado baixo, junto ao chão. Depois foi ver os móveis da cozinha dessa posição, assim por baixo, que lhe deu impressão de vertigem. É curioso como os olhos reagem ao que não estão acostumados.

Esfregou o canto dos olhos e olhou minha avó. Ela pensou que ele ia corrigir tudo dede o princípio agora. Não foi o caso. Ele encontrou nos bolsos tinta e a caneta e terminou de contar enquanto folheava o caderno.

A vertigem de não reconhecer o lugar o assustou e ele despertou. De pronto seus olhos desembaçaram e ele se lembrou de onde estava e porquê. O alívio foi uma sensação estranha. Sentiu o suor que lhe umedecia a camisa ficar fresco de repente.

Olhou em torno e o que melhor via era o canto iluminado pela vela. A imagem de Santo Antão, que viu inclinando a cabeça bem para trás. Foi então que a imagem cresceu à sua frente, achava que ela tinha se debruçado, gigante, sobre ele, estendeu a mão e tocou-lhe a testa. Logo voltou a como estava antes.

“Podia ter sido o vinho, ou o sono, mas eu fiquei um bom tempo com a sensação da mão dele na minha cabeça.”

O Funas não tentou explicar a moral da história. Correu escrever na página que encontrou.

“O que o senhor escreve?”

“São as minhas memórias. Para não as esquecer quando ficar velho.”

“Mas o senhor não se lembra direito da história. Não tem certeza. Devia ter escrito na época.”

O Funas sorriu-lhe da ingenuidade de criança.

“A criança faz diário?”

Não minha avó não fazia. Era muito criança. Não sabia escrever. Nunca soube. Morreu sem deixar um diário. Mesmo assim, ele lhe ensinou:

“Um dia fará e te digo, não vai escrever a verdade, quase nunca. Vai escrever o que gostaria que ela fosse. Porque todos nós mentimos para a memória. As memórias são isso, são mentiras das quais gostamos de nos lembrar.”

Cinema, Memórias

Mamma Gógó

2015 - Mamma GogoSessão da Tarde islandesa. Coisa inusitada. Ainda assim é só Sessão da Tarde. E eu nem preciso falar islandês pra não ter gostado dos atores: modo estranho, mecânico de falar. Pareciam estar lendo o texto enquanto atuavam.

No começo, até achei que ia gostar. O primeiro episódio, quando ela enche a cara e, distraída, deixa a garrafa ao alcance do neto e, no caminho ao hospital, é parada pela polícia, é muito bom. Depois, é uma repetição de vários outros que eu já vi.

Me lembrou de minha avó que, nos últimos meses, perdeu de repente sua memória dos últimos setenta ou oitenta anos. Pensava que ainda era adolescente e que nós a estávamos mantendo presa. Chamava por seu pai e, embora parecesse conformar-se e aceitar o que lhe dizíamos, bolava escondido fugas de casa para voltar a Olmos, em Trás-os-Montes, atrás de encontrar o pai.

O problema da avó não era Alzheimer. Aos noventa e quantro anos, ela teve três derrames praticamente seguidos. Trabalhou no quintal com as plantas e a criação e na cozinha todos os dias. Cozinhou para a família toda no Natal e no Ano-Novo. Na Páscoa já não reconhecia mais ninguém.

Tinha dificuldade para andar da cama ao banheiro e para se vestir. Mas, se não prestássemos atenção, em poucos minutos, empurrava a mesa da cozinha para junto do armário, subia nela para pegar as chaves que escondíamos no alto dele. Dava a volta pelos fundos da casa, eram três portas para abrir: a da copa, a da área de serviço, a que separava o quintal do jardim (para não deixar a criação fuçar nas flores). Ainda a escada e o portão da rua.

Umas três ou quatro vezes, achei que ela estava dormindo e, no tempo de eu ir ao banheiro, ela já estava na calçada. Da primeira vez, conversando com policiais de uma viatura, tentando convencer-lhes a levarem-na de volta para a aldeia.

Deu-nos trabalho, Dona Maria Socas.

Mamma Gógó (2015) – trailer

Memórias

floripa, noite de inverno, côtes du rhône, com uma pausa para um charuto e outra para quase tirar uma pestana

Meu irmão mais velho, o Zezinho, era muito estudioso. Seu nome, na verdade, era José, igual ao pai e ao avô e avô do pai e a todos os pais e avôs dos quais a família se lembrava. Coisa de português, o filho mais velho ter o mesmo nome do pai ou do avô. Coisa de família da Ilha da Madeira, quando se precisa de nome para um filho, o primeiro que se pensa é José, de São José, o padroeiro da ilha. Acho que é por isso que, até pouco tempo atrás, o nome mais comum aqui em São Paulo era José. A maioria dos portuguesas daqui me parece ter vindo da Madeira. Em Portugal mesmo, embora os brasileiros pensem ser Manuel, parece-me que o nome mais comum entre homens é Rodrigo. Aqui , hoje em dia, acho que é Tiago. Ou Thiago. Mania de brasileiro escrever como se fosse outra língua. Podem os Tiagos me xingarem, mas esse é um nome com o qual eu não me conformo. É uma invenção totalmente descabida da nossa ignorância. Os italianos chamam Jacó, o profeta de Iago. Por ser um homem santo, virou Santo Iago. Santiago (Sant’Iago) na escrita dos italianos. A igreja católica apostólica comum aqui do Brasil é a Romana. A deles, dos italianos. O Santiago dos italianos deu até nome à capital do Chile, país onde a língua só tem San, não Santo. Acho que, por isso mesmo, as pessoas assumiram que Santiago fosse São Tiago e começassem a batizar seus filhos com esse nome inventado. Meu amigo Tiago me perdoe essa falta de reverência por seu nome. Ele devia se chamar Iago ou Jacó, já lhe disse isso.

Sempre tive inveja de meu irmão herdar o José tradicional da família e eu não. Ele mereceu isso por ser o filho mais velho. Mesmo assim, eu poderia ser um José Alexandre ou qualquer outra coisa. Mas, pensando bem, hoje estaria reclamando de ter nome composto, como ator de novela mexicana ou personagem de comercial de cerveja. Hoje estou bem com meu nome, mas sempre tive inveja do José dele.

Tive inveja também de outras etárias dele por ser o mais velho: ser o escolhido pelo pai para ajudar nas reformas e consertos da casa, nas coisas perigosas como subir no telhado, mexer nos fios e nas ferramentas. Disso não posso me queixar porque, embora, preterido, o pai sempre ficou feliz de eu procurar me meter nessas coisas para as quais ele não me chamava mas arrumava um jeito de me deixar ajudar.

O Zezinho também podia uma gaveta maior na escrivaninha onde fazíamos a lição em casa. Quando o pai a comprou, éramos três, cada um tinha sua gaveta, pequena, à esquerda. A gaveta maior à direita, sobre o colo de quem se sentava na cadeira. Tinha bugigangas de uso coletivo. Quando o caçula nasceu, Zezinho passou sua gaveta para ele e pegou a maior para si. Ninguém reclamou. Parcia natural que ele, mais velho, decidisse o que fazer.

Essa gaveta maior tinha também outra regalia: tinha fechadura. Ele podia guardar lá o que quisesse e trancar para garantir sua privacidade. E, direito supremo de filho mais velho, a mãe nunca questionava o que estava trancado ali. Meu pai nunca nos deixou trancar, ou mesmo fechar, nenhuma porta dentro de casa. Mas a fechadura da gaveta do Zezinho era diferente. Acho que nem o pai podia imaginar algum mal lá.

Mas eu, quando tinha meus treze ou quatorze (quando aprendi a escrever era quatorze, hoje, vejo a maioria das pessoas escrever catorze), ele tinha dezessete ou dezoito, achei muito óbvio o que ele via guardar lá. Meu irmão mesmo surpreendeu-me por ser tão inocente em guardar esse tipo de coisa num lugar tão óbvio, a única fechadura trancada dentro de casa, e, mais que isso, um lugar onde, quando éramos pequenos, ele mesmo me ensinou como fuçar. Um vez, querendo me mostrar como era esperto, ele me mostrou que bastava entrar em baixo da escrivaninha, ela era larga o suficiente para mesmo um adulto sentar-se à vontade embaixo, passar a mão por trás da gaveta e alcançar as coisas que estivessem guardadas mais no fundo. Foi assim que tive acesso às suas três coleções de revistas. Podia até haver mais lá, mas eram essas três que eu alcançava.

A Playboy, várias vezes peguei a da Luma de Oliveira e a da Luciana Vendramini. Cheguei a emprestá-las a um colega da escola para tirar xerox no trabalho. Foi embaraçosa a saia justa quando a mãe as encontrou nas minhas coisas, ou melhor, nas coisas da avó. Eu as estava olhando no meu quarto quando ouvi barulho de fora e as enfiei num baú de coisas da avó que ficava ao lado do meu guarda-roupas. Não sei como foi, mas acabei as esquecendo lá. Daí a um ou dois dias, a mãe foi mexer no baú para procurar cobertores e as encontrou. Tive de mentir que um amigo me pediu para guardá-las. Foram confiscadas e, daí uma semana, quando meu irmão descobriu, tivemos uma conversa séria.

Eu fico imaginando a cara que minha mãe faria se tivesse encontrado as revistas de meu avô, que eu encontrei uns cinco anos depois de ele morrer. Revistas dos anos sessenta que, quando eu era pequeno, não serviriam mais nem para propaganda de lingerie. Meu avô era muito alto, um metro e noventa e quatro. Aliás, a mesma altura do Zezinho. Talvez essa altura fosse outro privilégio que acompanhasse o nome de José, comum aos dois. Minha avó tinha na copa duas cristaleiras, uma sobre a outra. Eu não sei como podia, até porque uma era escura e a outra mais clara e avermelhada, os desenhos e feitios não tinham nada a ver um com o outro. Mas as duas juntas, uma sobre a outra, se passavam por um móvel só, desenhado para ser daquele jeito mesmo. Mas era um móvel muito alto, que quase batia no teto. Uma vez fui tentar resgatar uma bolinha de ping-pongue que foi parar lá e descobri o esconderijo da pornografia de meu avô. Lugar alto, não tinha como outra pessoa, sem escada, alcançar lá. Eu procurei se havia mais, eram poucas, pulei o muro do quintal e joguei no lixo da vizinha para que minh avó não soubesse. Era uma última reverência, póstuma já, de ética masculina que eu poderia ter com meu avô.

A segunda coleção de meu irmão que eu conseguia alcançar era a da Ele & Ela. No começo não dei muita bola, porque confundi com a Ela, revista de costura e coisas de mulher que minha madrinha às vezes lia para manter-se atualizada em sua profissão. A revista era quase um lixo. Acho que, por isso mesmo, mais interessante que a Playboy. Mulheres desconhecidas, sem PhotoShop, ou seja-lá-o-que-a-Playboy-usasse-naquele-tempo, arreganhadas sem arte nenhuma, mostrando tudo. Essa revista tinha também um encarte chamado Fórum, onde eram publicados “relatos” enviados por leitores de suas aventuras eróticas. Para um adolescente CDF como eu, que lia mais ou menos um livro por dia, esse encarte era o máximo. Hoje, vinte e cinco anos depois, tenho certeza de que os relatos, ao menos as versões publicadas, não eram dos leitores. Eram todos coisas muito bem escritas. Por causa deles, fui procurar os “contos” publicados também na Playboy. Lá era publicado um por edição. Os autores usavam pseudônimos. Um dos que publicava lá era o Marcos Rey, autor dos livros políciais que eu adorava.

Mas a terceira coleção de revistas de meu irmão era a que eu mais gostava: a de quadrinhos. Havia Chiclete com Banana (chiclete com banana é de comer?  chiclete com banana cola na sola do sapato? chiclete com banana pega fogo?), Circo, Mad e algumas outras. Da Mad, eu só gostava da dobradinha. O resto da revista era um lixo. E ainda é. Circo misturava coisas muito boas com outras muito ruins. Foi nela que li algumas das coisas que mais me marcaram, como a história do cara que chega em casa e descob que toda sua vida era um teatro, O Show de Trumann em uma HQ do ponto de vista do ratinho de laboratório. Essa foi, até hoje, a minha HQ preferida. A cada dois ou três meses me acontece algo que me lembra ela. As máscaras caindo, o mundo, o chão, se desfazendo. Mas revista mesmo, a preferida foi a Chiclete com Banana. Quase tudo nela era bom. E o que não eraera uma bobagem engraçada. Ela tinha minhas personagens preferidas, Los Três Amigos (Angel Villa, Laertón e Glauquito… e Miguelito, per supuesto), com meus cartunistas preferidos, Angeli, Laerte e Glauco. E havia outros e havia a tia do Angeli e só faltava o papel feder a uísque e maconha.

Depois que meu irmão morreu, eu não tive mais sua coleção para fuçar. Essas revistas também não duraram muito mais do que isso. A Editora Circo deve ter durado uns dois ou três anos. A Chiclete com Banana deve ter durado umas dez ou doze edições. Eu comecei a procurar os quadrinhos dessa turma nos jornais, na Folha ou no Estado, não me lembro bem. A mãe e a madrinha compravam jornal velho por quilo para forrar as gaiolas dos passarinhos. Eu corria nas páginas de quadrinhos. Os próprios Angeli, Larte e Glauco tinham suas tirinhas, muito boas, misturadas às de outros cartunistas, embora eu sentisse falta deles juntos em Los Três Amigos. Separados, eles perdiam sinergia. rs Me sinto um gerente enrolando com uma buzzword quando digo isso. Mas separados eles realmente perdiam sinergia. Talvez pela falta de um zoando com o outro enquanto faziam as tiras. Isso para mim era muito claro durante uma fase do Angeli em que ele publicava tirinhas intituladas Angeli em Crise. Ele, quando não tinha ideia do que fazer, fazia um quadrinho extremamente vago do que tinha na cabeça. Na maioria das vezes sem texto, sem nexo, aparentemente sem propósito. Era objeto dele lidar com a falta de idaias quando precisava ter uma ideia para publicar na próxima edição do jornal. Todos têm seus dias sem ideias. Dias sem ideia nenhuma.

Eu não tenho contrato com nenhum jornal para escrever. Quando acho que tenho de escrever, e acho que tenho de escrever todos os dias, e não tenho ideia, me sento na frente do tablet com cara de bobo. Acabo só fuçando na internet por musicas novas, por informação inútil sobre assuntos que me interessam, e disperso.

Mas quando quero mesmo escrever, e não tenho ideia, deixo o tablet no braço da poltrona e abro uma garrafa de vinho. E fico pensando num monte de coisas que não quero escrever e em desculpas para não escrevê-las.

Memórias

Cemitérios

Eu fui criado morando junto de cemitérios.

Quando criança, morávamos num sobrado numa estrada de periferia. Do outro lado, o cemitério. Do terraço tínhamos visão panorâmica de tudo ali. Era, de longe, o maior terreno da cidade. De se perder de vista o final mesmo. Hoje está bonito, bem arborizado, florido. Naquela época era só um capão esburacado com os  túmulos dos primeiros defuntos enterrados ali. Todos pobres que não tiveram dinheiro para pagar um cemitério particular. O muro é, na verdade, os ossários para onde são levados os restos dos túmulos desocupados. Cemitério de pobre é assim. A cada dois ou três anos, tem de pegar uma caixa de sapatos e ir à exumação do parente para ver se o corpo já está bastante comido para ser passado à caixa de sapatos e guardado numa gaveta do muro. Se não fôr, o coveiro despe o defunto, joga o corpo direto na terra, cobre-o só um pouco e já reaproveitam a cova para o próximo enterro.

Quando cresci, fui morar com minha avó, na cidade. Há dois quarteirões da casa dela, atrás da catedral, ao lado da minha escola, o Cemitério da Saudade. Toda cidade tem um cemitério chamado “da Saudade”, na rua “da Saudade”, junto à igreja matriz. É lá onde estão enterrados os primeiros defuntos, os mais antigos, dos primeiros moradores da cidade. É lá que as famílias mais antigas da cidades têm sua campas. São casinhas, dois metros abaixo da terra, um acima, você entra por uma porta e uma escada, prateleiras dos dois lados, os caixões são colocados nas prateleiras sem terra por cima. Conforme lotam, as famílias pagam para os coveiros sumirem com os caixões mais antigos, dos parentes já esquecidos, para dar lugar aos novos. Desses caixões, desses corpos, não sei o que é feito. Creio que sejam enterrados no chão também.

Me lembro, sempre que vinha visita de fora, o pessoal comentando o horror que era nossa proximidade com o cemitério. Para mim, sempre foi algo natural. Igreja, escola, hospital, cemitério. Tudo parte normal da vida, não há porque negá-lo.

É engraçado como as pessoas passam todos os dias pela calçada do cemitério, esperam o ônibus encostadas ao muro dos ossários, as crianças brincam de empinar pipas sobre os túmulos e, até mesmo, os adolescentes descobrem o sexo escondidos nos corredores entre as campas, sem pensar em porquê ter medo. No entanto, quem vem de outro bairro se apavora com a possibilidade de enxergar do quintal ou da janela da escola a copa de uma árvore que nasce no cemitério, ou apenas de saber que dali se ouve, duas ou três vezes por dia, a sirene do rabecão lento, chegando ao velório.

Por ali, para quem mora ali, a coisa é diferente. Não que todos achem tudo normal. Cada um tem seu limite. Há, por exemplo, o terreno baldio em torno do velório. Ninguém se atreve a construir ali por não querer dividir o muro com as constantes macumbas. Há também as duas ruas sem saída que ladeiam o cemitério. O bairro não é de gente rica, mas essas duas ruas, estreitas, sem asfalto, casas bem pobres, conseguem constrastar com as outras, de aposentados e operários. Essas duas ruas foram, na verdade, deixadas durante o loteamento, meio que abandonadas. As pessoas não queriam morar ali. Não queriam dividir os muros de seus quintais com os dos fundos do cemitério. Temor muito mais dos vivos que podiam lhes invadir os quintais à noite do que dos mortos, agora todos honestos. Essas ruas foram depois ocupadas por pessoal mais pobre que, ainda assim, preferiu não ter quintal e deixar uma espécie de passagem de servidão entre as frentes das casas e o muro do cemitério.

A gente passava ali no fim da tarde, comecinho da noite, e via as crianças brincando sem medo naquela rua-corredor sem saída. Logo pequenas aprendem que não o devem ter.

Eu, quando era adolescente, às vezes jogava bola no campo atrás da igreja. Na volta, contornava ao contrário o quarteirão para alongar a conversa com o amigo que morava na rua do velório. Quando ele entrava, eu continuava para casa, pela calçada do cemitério, que era mais iluminada do que a do posto de saúde. Passava na boca de uma dessas ruas sem saída e sempre olhava, de relance, medo de violar a privacidade de alguém, as crianças brincando.

Um dia, voltando assim, uma menininha dobra a esquina correndo, vindo da rua sem saída para a avenida, e tropeça. Estava enrolada num lençol branco. Assustaria quem procurasse por fantasma ali. Dois ou três adultos, para dentro da rua, encostados às paredes das casas, fumando e conversando, ignoraram totalmente seu tombo. Eu me abaixei para perguntar se ela se havia machucado. Com receio de ser mal entendido. As pessoas por aqui gostam de pensar que homem feio, quando fala com criança, tem más intenções. A menina se apoiou com as mãos chão e começou a se levantar, cara suja da poeira da calçada, sem me olhar. Só chacoalhou a cabeça que não, que não se machucou, como se estivesse encabulada de cair feito criança que era. Um dos pés pisava bem para dentro da borda do lençol. Foi nele que ela havia tropeçado. Antes que caísse de novo, segurei o lençol, firmei para que o pé não escorregasse e disse-lhe que o puxasse mais para cima, para não tropeçar de novo. Perguntei se não tinha se machucado mesmo. Ela agora disse que não. Perguntei se não ia voltar para casa para olhar direito e apontei com o rosto para a rua de onde ela vinha. Ela apontou com a mão por cima do cemitério, talvez em direção à outra rua sem saída: “Eu moro lá.” E saiu correndo de novo pela calçada.

Bestiário, Memórias

Histórias de Trás-os-Montes

Eu sempre me lembro com muito carinho das histórias que minha avó contava de sua terra, Trás-os-Montes, “as montanhas do fundo”, diriam os brasileiros. Histórias do folclore português e também do dia-a-dia. Com minha avó aprendi que esses são coisas que se misturam. Sempre fui curioso por como as pessoas, ao contarem as histórias que lhes aconteceram, adaptam-nas aos preconceitos e morais-da-história que aprenderam.

Gostava de me lembrar de todas as lendas que ela me contou. Aliás, lendas não, ela tinha certeza de todas terem acontecido de verdade, daquele jeito mesmo, embora cada um as conte de um jeito.

Estou tentando recordá-las, em sua versão, e escrevê-las na minha. Escrevi sobre uma, há uns dias atrás e, está semana toda, tenho trabalhado em outra que, tento caprichar, está me levando tempo a publicar.

Dessas, e das próximas, espero que vocês gostem.

Memórias

Coelhos e Hortas

Tínhamos duas coelheiras em casa. Uma grande, do tamanho de uma geladeira deitada, onde ficavam os coelhos de criação, entre meia é uma dúzia, que a avó fazia para o almoço do sábado, coelho cozido com batatas, e aproveitava as peles para fazer tapetes super macios. Na outra, menor, metade do tamanho, moravam Escovão e Fofura. Esses eram de estimação, os únicos mansos. Os outros se pudessem nos arrancavam os dedos. Escovão e Fofura não. Com eles, podíamos brincar.

Brincar com coelho é basicamente alimentá-los e fazer carinho nas costas. São bichos muito frágeis. Por qualquer coisa, uma cabeçada um no outro, uma patada da cadela, tombam. Gostávamos de dar-lhes verdura no colo.

Coelho não come cenoura. Rói para gastar os dentes, mas come só a rama. Gosta da rama da cenoura, de salsão, funcho. Comem outras verduras também, alface, couve-flor, repolho. Não bebem água. Não sei como, tiram da verdura a água que precisam. Se lha damos num potinho para que bebam, morrem com diarreia. Eram assim os coelhos de casa. Já me disseram que “meu coelho não é assim”. Eu não sei a diferença dos nossos para os dos outros, mas me lembro de que com os nossos era assim.

O pai só não nos deixava chegar perto da coelheira quando havia algum coelho doente. Além do perigo da raiva — mamíferos sempre correm esse risco, de pegar raiva por uma mordida de morcego, rato, ou desses gatos vagabundos que vivem de telhado em telhado, de quintal em quintal, — havia também uma doença específica de coelhos, que fazia nascer uma espécie de chifre entre a boca e o nariz. A gente não sabia explicar o que era. O pai só sabia que o coelho que pegasse isso morria e que, se demorasse pra separá-lo, outros pegavam. Foi dessa doença que o Escovão morreu, tinha já mais de dez anos, isso é bastante para um coelho. Quando ficou doente, o pai o separou numa coelheira menor, improvisada, deu os remédios que indicaram na avícola — as lojas que vendiam aves para abate eram o que existia na época, em vez de pet shops. Num domingo, acordamos para o café e a mãe disse que o escovão tinha morrido e o pai o tinha enterrado no quintal.

A coelheira tinha o chão com muitos vãos, parecido com um mata-burro fino e embaixo ficava uma caixa com terra. Era o jeito de colher o esterco dos coelhos, ele caía na caixa pelos vãos do piso, para usar na horta e nas roseiras da mãe, as da mãe eram rosas e vermelhas, diferentes das da avó que eram quase todas brancas ou amarelas. Quando o pai achava que devia, ele cobria um uma camada de restos de verduras e legumes e outra de terra. Ia formando assim uma espécie de lasanha de esterco que, quando precisava, passávamos com a pá para a horta e o jardim.

Do jardim, quem cuidava era a mãe. Tinha rosas e umas plantas com nomes que eu não sabia diferenciar. Algumas, de folhas vermelhas, eram venenosas. As outras, samambaia, rendas, comigo-ninguém-pode, eram só folhas verdes. Naquela época, eu não entendia como alguém podia gostar de uma planta que não tenha flores, que não tenha perfume nem colorido. Hoje entendo isso, às vezes. Me lembro de poucas vezes em que a vi mexendo nas plantas do jardim. Ela fazia isso só durante a semana, depois dos que iam pra escola saírem pra escola e antes dos outros acordarem para ver televisão.

A horta era das crianças. Na verdade, era como se fosse de meu irmão. Ele que escolhia o que plantar, as sementes, as mudas. Ele que procurava com o pai e os avós o jeito de fazer com cada planta. Gostava de plantar funcho, salsinha, cebolinha, cenoura, salsão, espinafre e coisas para chá, erva-doce, melissa, camomila, angélica, erva-cidreira, hortelã. O avô nos deu algumas ferramentas básicas, cavoca, tesoura, pá, enxada. O irmão orquestrava. Fazíamos os canteiros, semeávamos ou plantávamos, cobríamos, regávamos, depois fazíamos uma treliça de linha por cima, para as galinhas e pombas não ciscarem ali e, por fim, a parte que eu mais gostava, púnhamos na cabeceira uma plaquinha com o nome do que estava plantado ali.

A horta começou com um pedaço do quintal de mais ou menos um metro por um e meio. Eram três ou quatro canteiros compridos. Não me lembro o que tinha no começo, exceto pelo espinafre. Queríamos espinafre para comer igual ao Popeye. E comemos. Pegamos o espinafre que a mãe refogou igual couve, — ela nunca tinha feito espinafre, achou que fosse igual à couve — colocamos no copo e fingimos que era a lata de espinafre do Popeye. A brincadeira perdeu a graça logo que percebemos o gosto de verdura amarga. A mãe gostou, mas que comêssemos nos pratos e com talheres, chegava de copos.

Com o tempo, fomos aumentando o número de fileiras, uma ao lado da outra. Depois pegamos mais um pedaço para encompridá-las. Mas já nas continuações, plantamos coisas diferentes.

No domingo, quando a mãe disse que o Escovão havia morrido e o pai o tinha enterrado, pudemos de novo brincar no quintal perto das coelheiras. O pai vinha regando nossa horta, mas tínhamos mais umas mudas e sementes que queríamos plantar. Isso o pai deixava para nós, o negócio dele eram as criações, coelhos, galinhas, pombas e carpas.

Os nossos canteiros já estavam todos lotados. Precisávamos abrir um espaço novo. Não para o fundo do quintal, que lá ficavam as coisas do pai, era muita bagunça pra mexer. Tinha um pouco de espaço junto ente a horta e as roseiras. Dava para abrir um canteiro ali, mas precisava de um pouco de terra para subir o terreno, senão, a chuva ia estragar tudo.

Nós gostávamos de pegar terra dentro do galinheiro. Ela já vinha meio adubada e, no buraco que deixávamos, as galinhas depois se divertiam ciscando. Abrimos um dos galinheiros de baixo, os que tinham chão de terra, deixamos as galinhas fugirem e entramos para pegar areia. Elas correram fuzarqueiras, ciscar fora do galinheiro atrás de minhocas e porcarias diferentes. Pegamos a terra e voltamos.

Antes de plantar, a pior parte: conseguir tocar as galinhas pra dentro de novo. Elas ao menos estavam amontoadas no canto. O irmão foi buscar uns papelões de caixa para ajudar a cerca-lãs para dentro do galinheiro e eu, curioso, fui olhar o que faziam. Galinha é bicho nojento, adora atacar rato, barata, lagartixa. Mas elas então atacavam outra coisa. Encontraram terra remexida e ciscaram até fazer um buraco e encontrar o Escovão, que o pai tinha enterrado ali de manhã.

Eu tomei um susto com o coelho rígido, de olhos abertos, parecia de pelúcia. Com raiva das galinhas, corri no meio delas, chutando-as. Atropelei o irmão que chegava com o papelão e subi a escada pra casa, chorando.

Ele deve ter percebido o que aconteceu. Guardou as galinhas, plantou a horta, subiu pro banho e não me zoou, nem nunca comentou aquilo comigo.