Memórias

Acho que cansei-me, e que já isso é irremediável, de escrever neste tablet. A ideia de comprá-lo há uns três ou quatro anos atrás, para a praticidade de escrever em qualquer lugar, foi boa. Mas hoje, cada vez que o destravo, logo às primeiras letras digitadas, desanima-me lembrar de quanto tempo demoro a escrever e de quanta coisa gostaria de escrever. É até agradável imaginar que penso muito rápido e que sou criativo demais. Infelizmente, não é esse o caso, absolutamente. Sempre escrevi devagar. Mesmo à lápis, na escola, naquele papel pautado quadrado com dois furos na margem. O chamávamos “folha de linguagem”. Um nom que, pensando bem, não faz muito sentido, tirando que as professoras mais antigas chamavam as aulas de português do primário, na verdade aulas de alfabetização, “Aulas de Linguagem”. Tínhamos até cadernos etiquetados como “Caderno de Linguagem”. Eram onde escrevíamos os ditados, copiávamos os textos da cartilha e, no primeiro anos, repetíamos por linha e linhas inteiras, página e paginas inteiras, cada letra, em maiúscula e em minúscula, até lhe decorarmos o jeito para, ao escrever, não ter de pensar na mecânica do lápis e da mão.

Nesse tempo, eu já escrevia devagar. O movimento da mão sempre foi lento, com cuidado para ficar legível. Mas também, eu apertava muito o lápis de encontro ao papel e os dedos de encontro ao lápis. O pulso logo doía, a ligação entre fãs duas ultimas falanges do indicador também. Numa redação de vinte linhas para a Dona Terezinha, isso não chega a ser grande coisa. Terminada, era só chacoalhar um pouco a mão e descansa-lá por alguns minutos até o recreio. Hoje as coisa que quero escreve são mais longas e, se é verdade que a mão está mais treinada, também é que corrigi-las já torna impossível de ser feito no papel com lápis e borracha. Imagine, apagar e reescrever meia página cada vez que percebo que queria por mais um parágrafo, contar algo mais, ente isto e aquilo.

O digital foi um ganho nisso. Muito mais fácil de corrigir (e, cá entre nós, parece-me que também é mais fácil de errar). Muito menos cansativo do que o lápis e o papel. Mais rápido até, embora eu continue escrevendo muito devagar.

O problema são meus rascunhos que crescem e crescem. Multiplicação de anotações, de ideias, histórias, frases soltas e citações. Coisas sobr as quais quero escrever, mesmo que não sejam do interesse de mais ninguém. Cada vez que destravo o tablet e penso no quanto demoro a escrever cada uma delas, desanimo e pego-me pensando em algo que consiga escrever no tempo que tenho. Nada é possível de escrever no tempo que tenho. Tudo, ao final, me parece igual, repetitivo e incompleto. Não consigo imaginar o que era para Dona Terezinha ler quarenta redações seguidas entituladas “Minhas Férias”. Todas escritas sobre o mesmo mês passado em casa assistindo à programação da Globo. Sessão da Tarde. Festival Trapalhões. Salvos os dois ou três que diziam ter passado um fim de semana na praia.

Dona Therezinha tinha paciência para ler e corrigir. Era uma boa professora. Eu já não tenho a mesma para escrever as casas que invento enquanto penso em tantas outras que poderia inventar, sem ao menos saber se alguma delas prestaria.

Continuo escrevendo assim, só o que consigo, por falta de uma ordem nesta minha cabeça atormentada.

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