Memórias

Funas

Contava-me histórias do Funas minha avó. Não o confundam com Funes, el memorioso Funes, do conto do Borges. Funas era um senhor de sua terra, já de idade. Havia estudado. Diferente dos outros que se acabavam aos poucos na roça, onde ele pouco tempo passou, conseguiu chegar à idade de a pele enrugar feito bulldog, os cabelos amarelarem (próximo estágio depois de ficarem brancos e resistirem à queda) e a memória pregar-lhe peças. Nunca precisou pegar em ferramentas mais do que para cuidar do jardim, da pequena horta, ou para os consertos da própria casa. Viúvo havia muitos anos. Perdeu a mulher ainda jovem e não se casou mais. Trabalhou como professor, tutor, secretário, arauto. Coisas que, numa aldeia pequena, não deixam ninguém rico, mas que renderam-lhe alguns escudos de economias, que lhe prouveram com folga a aposentadoria quando já não conseguia mais enxergar o suficiente para viver do papel e da tinta. Até porque, em boa parte de sua vida, seus gastos foram poucos. Era comum pagarem-lhe com pão e vinho por ler e responder cartas. Não que cobrasse. É parte da etiqueta pagar por orgulho e aceitar por humildade. Definitivamente pão e vinho são tudo de que uma pessoa precisa para viver. Os mais agradecidos, por trabalhos importantes, de documentos, passaportes, contratos, o convidavam para as festas e lhe enviavam ovos e caça.

Conheceu dois reis, ou melhor, viu dois reis, o morto e seu pai, em aparições públicas destes quando ele tratava de assuntos à cidade. O menino, o que fugiu, ele não teve oportunidade. O avô e a bisavó, foi contemporâneo deles na juventude e na infância, respectivamente, mas não tinha, à época, motivos para descer o rio à cidade, ao litoral. Não lhe faziam diferença El-Rei, o senhor presidente, um ministro ou quem fosse a aparecer na coroa da moeda. Ali, na província, a única mudança dos tempos foi passarem a chamar a d’El-Rei de Guarda. Mudança meramente vocabular, pois os guardas eram os mesmos, apenas passaram a se ofender em serem ditos do rei.

Já com idade, passeava pela aldeia de manhãzinha e, depois, ao fim da tarde, quando o sol era pouco. Não gostava do calor. Do frio sim. Se nevava, acordava mais cedo e já saía. Os jornaleiros (que é como chamavam os que trabalhavam por diária nas fazendas) o encontravam de boca aberta, cabeça erguida, olhando para o céu, os flocos caírem. Era um sorriso de alegria de criança. Se distraía com isso que era capaz de erguer as mãos, braços abertos, como se esperasse ser erguido aos céus. Esquecia-se de se apoiar à bengala feia, lascada a canivete por ele mesmo de um galho grosso.

Carregava sempre o farnel de pedaços de pão e um pouco de vinho. Não podia ver uma criança sem lhe oferecer pão. Às vezes, tinha rebuçados, de folha de figo. Açúcar, então, era difícil é caro de chegar por ali e rebuçados não eram coisas que as crianças pudessem se dar ao luxo de recusar.

Depois do almoço, meio-dia, sentava-se, no morro atrás da casa, debaixo de um olmo, uma castanheira, uma oliveira, que a sombra lhe protegesse todo, e fumava o caximbo. Nessas horas não queria crianças por perto. Tinha medo de que a fumaça as adoecesse os pulmões. Também não queria adultos, mas aí os motivos já deviam ser outros. Era seu horário de ficar sozinho longe de tudo, inclusive do próprio teto. No resto do tempo não. Mesmo aos domingos, quando se sentava no chão encostado ao muro que ribanceia a estrada, se alguém lhe desse bom dia, boa tarde ou mesmo olá, já era um convite para puxar conversa.

Minha avó, num desses domingos, passando pela estrada atrás de algo com que brincar, uma borboleta ou besouro, cumprimentou-lhe e ganhou, em resposta um convite para sentar-se também ao muro. Sentou-se e o velho perguntou-lhe então se sabia o nome da cor do vestido que usava. Ela não sabia. Era um vestido de tecido cru. Não tinha cor. Nem alvejado era. Foi feito de pano grosso usado de saco de cereal. Compravam esses sacos usados na feira, eram os melhores tecidos para roupas do dia-a-dia. Grossos, resistentes, custavam a puir e, para rasgarem, havia a criança de fazer arte da grande. “Carnação.” Carnação é o nome da cor. É a cor da pele. Almas famílias ricas, algumas vilas e cidades, até a têm em seus escudos, mas, por praticidade, na hora de pintá-los, acabam por usar marrom ou bege que, pela lei, são equivalentes para isso.

Lembrou-se de contar à menina de quando foi convidado a copiar, para o registo da paróquia, os documentos de nomeação nobiliar de uma família da cidade que tinha procedência da aldeia. Havia controvérsia sobe a origem do nome e a legitimidade do título. Algumas inconsistências. O escudo, por exemplo, às vezes aparecia como carnação, às vezes como amarelo, ou vermelho, ele não se lembrava direito. As divergências não eram problema seu. Compilou os documentos e deixou a cargo do cónego que encomendou o serviço julgar a causa. Não se lembrava também que fim levou ou qual era o título defendido. O tempo, quando passa, apaga esses detalhes e, os que deixa, quando ainda existe, difíceis de buscar e confiar.

De uma coisa pensava se lembrar, contudo sem muita convicção. De, por ficar até tarde na sacristia à procura de documentos e neles trabalhar, não lhe deixar o padre voltar para casa no frio que fazia, nevava e ele não tinha um casaco que não encharcasse da neve. Convidado a cear com o padre, e com a freira que lhe cuidava dos afazeres domésticos, aceitou e passou a noite na igreja. Tomaram os três uma açorda com bastante pão e um ovo mole por cima de cada tigela.

Por falta de mais um quarto e de cobertores grossos que bastassem a todos, o padre puxou-lhe um colchão de campanha para junto do fogão a lenha. Ao calor do fogão, acesso dia e noite, e com os cobertores que conseguiram, passaria a noite bem aquecido. Serviram-se ainda de uma caneca bem grande de vinho quente cada um, com cravo e canela. Soube-lhe diferente esse vinho quente. O vinho do padre é muito mais doce e forte do que o normal. Forte de sabor e de álcool. Parece não deixar gosto na boca, nem amarga, nem seca a língua.  Antes de terminar a caneca, já estava caindo de sono.

Recolhem-se, padre e freira a seus quartos, ele à cama de campanha junto ao fogão. Só uma vela acesa, na prateleira da quina da parede, para iluminar a imagem de Santo Antão. Não podia, contudo, reclamar do escuro, pois havia alguma claridade ainda saindo das frestas da porta do forno de lenha. Naqueles tempos, isso era muito mais luz do que as pessoas estavam acostumadas. Podia até incomodar o sono.

O Funas contava isso para minha avó, indo e vindo, contava, corrigia, voltava atrás, arrependia-se, rendia-se e, por fim, deixava estar como havia contado mesmo. Fazia tempo já e a memória não lhe ajudava. A cabeça, embora, até seus últimos dias, sempre tenha parecido lúcido, talvez também não ajudasse mais.

Por alguns segundos, quieto, olhando para o mato do outro lado da estrada, pareceu decepcionado de a história não lhe estar fresca como gostaria na lembrança. Decerto o vinho sabia mesmo delicioso e o calor da cama improvisada devia ser aconchegante no inverno das montanhas. Ele pegou um caderno, grosso, capa de couro, páginas de papel mal cortado, do bolso interno do paletó e voltou a contar enquanto procurava algo mais.

Noite alta ainda, escura, quieta, nenhum som de galos ou pássaros, acordou todo suado. Resultado do vinho ou do calor do fogão. A princípio o que estranhou, antes mesmo de abrir os olhos, foi estar deitado baixo, junto ao chão. Depois foi ver os móveis da cozinha dessa posição, assim por baixo, que lhe deu impressão de vertigem. É curioso como os olhos reagem ao que não estão acostumados.

Esfregou o canto dos olhos e olhou minha avó. Ela pensou que ele ia corrigir tudo dede o princípio agora. Não foi o caso. Ele encontrou nos bolsos tinta e a caneta e terminou de contar enquanto folheava o caderno.

A vertigem de não reconhecer o lugar o assustou e ele despertou. De pronto seus olhos desembaçaram e ele se lembrou de onde estava e porquê. O alívio foi uma sensação estranha. Sentiu o suor que lhe umedecia a camisa ficar fresco de repente.

Olhou em torno e o que melhor via era o canto iluminado pela vela. A imagem de Santo Antão, que viu inclinando a cabeça bem para trás. Foi então que a imagem cresceu à sua frente, achava que ela tinha se debruçado, gigante, sobre ele, estendeu a mão e tocou-lhe a testa. Logo voltou a como estava antes.

“Podia ter sido o vinho, ou o sono, mas eu fiquei um bom tempo com a sensação da mão dele na minha cabeça.”

O Funas não tentou explicar a moral da história. Correu escrever na página que encontrou.

“O que o senhor escreve?”

“São as minhas memórias. Para não as esquecer quando ficar velho.”

“Mas o senhor não se lembra direito da história. Não tem certeza. Devia ter escrito na época.”

O Funas sorriu-lhe da ingenuidade de criança.

“A criança faz diário?”

Não minha avó não fazia. Era muito criança. Não sabia escrever. Nunca soube. Morreu sem deixar um diário. Mesmo assim, ele lhe ensinou:

“Um dia fará e te digo, não vai escrever a verdade, quase nunca. Vai escrever o que gostaria que ela fosse. Porque todos nós mentimos para a memória. As memórias são isso, são mentiras das quais gostamos de nos lembrar.”

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