Cinema

Fargo

Mind if I sit down? I’m carrying quite a load here.

1996 - FargoPerder a tarde de sábado no trabalho dá nisso. Só presta para atualizar minhas listas no LetterBoxd, olhar alguns rascunhos do blog (no fim das contas, já são 18:00 e ainda não os olhei) e assistir um filme no Netflix.

Principalmente quando há vinte pessoas na sala para trabalhar e só meia dúzia de tomadas. Até tentei fazer algo produtivo. Li uns emails, alguns artigos técnicos. Trabalho mesmo não havia. Estávamos ali apenas para “vai que…”

Quando a bateria do telefone acabou e não havia tomada disponível para mim, comecei uma pequena busca pelas baias de secretárias fora da sala, mas estavam todas desenergizadas.

Isso não me revoltou porque revoltado eu já estava. Voltei para a sala onde estavam os outros e vi uma televisão no canto. É usada para videoconferências. Dei a volta nela, estava ligada a uma extensão junto com o resto do equipamento de videoconferência. Tirei um deles a olho da tomada, liguei meu notebook em seu lugar, pousei-o no chão e saí para me distrair.

Peguei um café, procurei uma sala vazia. Havia muitas, isso não falta mesmo durante a semana, mas só duas com a porta destrancada. A primeira delas fica numa quina do prédio que dá para o rio e um bairro residencial, as paredes são de vidro e tem terraço

Fucei como chegar no terraço. A porta para lá, atrás de uma persiana que ia do teto ao chão, estava trancada. A fechadura vagabunda, fácil de se abrir forçando, acho que ficava trancada por medo de alguém tentar se matar. Há várias lendas urbanas de funcionários que pularam deste prédio.

Eu não queria me matar, só tomar ar, mesmo que tomasse chuva junto.

A planta da sala é dessas modernosas. Dois quadrados unidos, com uma intersecção, formando uma espécie de oito. O quadrado à direita da porta, fica meio escondido pela parede. O que está de frente para ela, em compensação recebe um pouco mais de claridade. Ali há uma mesa de reunião com quatro cadeiras. Puxei uma para a frente do vidro e pousei o telefone no barrigão que serviria de rack.

Este filme eu tinha começado há alguns dias atrás, mas interrompi quando chegou a hora de dormir. Foi minha primeira opção para esta tarde. Não tive dúvida. Pulei só o começo, a primeira meia hora, não toda a parte que já tinha assistido. No dia em que o comecei, acho que estava cansado e não prestei muita atenção. Agora prestei melhor. Realmente melhor. Coisas em que não vi graça antes, fizeram sentido.

Café acabou, saí para pegar outro, mas primeiro fui ao banheiro. Sentei-me na privada e usei o telefone para ler um livro no aplicativo do eReader. Falta do que fazer, li um capítulo todo. Sentimento de culpa, acho. Faz quase um ano que comecei esse livro e ainda não acabei, embora tenha gostado muito. Ando com preguiça de ler. Com esse capítulo (o 41), faltam mais nove.

Saindo do banheiro, peguei um café e voltei para a sala. A dois ou três passos da porta, ouvi uma voz sussurrada, à direita dela, naquele quadrado que fica escondido atrás da parede. Olhei discreto. Um casal, ela com uniforme da faxina, ele com o da manutenção predial, começava a namorar. Esqueceram-se de fechar a porta, ou acharam que não havia ninguém no andar, ou não pretendiam se demorar muito.

Dei a volta no corredor circular e achei a segunda sala vazia. Era também de quina, para a mesma avenida, mas sem se ver tão bem o imundo rio. Os vidros dessa dão para o comércio. É maior que a primeira mas a planta tem o mesmo padrão.

No pedaço escondido pela parede, sentei-me, tirei os tênis, pés descalços, meias brancas de pobre, sobre a mesa. Equilibrei o telefone em pé sobre ela também. A posição na cadeira e a sala escura podiam me deixar com sono, achei que ficaria, mas não. Se bem que dois colegas entraram procurando um lugar pra conversar em particular e, encabulados, saíram rápido evitando olhar na minha direção, pedindo desculpas em voz muito baixa por atrapalharem “meu descanso”.

Em vez de sono, só fiquei com o pescoço um pouco dolorido, endurecido, pela posição que me obrigava a torcê-lo para assistir direito. Coisa de quem está ficando velho. Espreguicei-o e tomei o cuidado de terminar o filme virado ao contrário para torcê-lo para o outro lado.

Terminei o filme achando-o bom. Muito bom. Embora esperasse mais dele. Ganhou Oscar acho que de roteiro e de direção. Eu esperava mais. Mas é bom.

Enfim, hora de fingir que ligo, pegar o notebook que ficou na tomada da televisão e voltar ao trabalho. Escrever alguma coisa sobre isso, já que não há nada para fazer.

You should see the other guy.

Fargo (1996) – trailer

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