Cinema

Groundhog day

What would you do if you were stuck in one place and every day was exactly the same, and nothing that you did mattered?

Minha tia Cândida gostava muito de crochê. Ensinou minha mãe. Minha avó, minha tia Lina, minha irmã, todas eram do tricô. As duas eram do crochê.

Eu me lembro de, nas tardes de domingo, quando o calor era muito forte, me jogar no sofá largo e baixo da sala de minha avó. Na janela da sala não batia sol. Havia a varanda coberta entre ela e o roseiral da frente da casa. Duas portas davam para o quarto de meus avós e o de minha tia Lina. Outra dava para a cozinha gigante, de piso e paredes azulejados, frios.

Ali não batia sol nenhum e, com a cortina e o forro pesados sempre fechados, por causa dos xeretas da vizinhança, mal entrava claridade.

Ficava super fresco. Ainda mais o sofá e as poltronas, de couro, que minha mãe se admirava por durarem tanto sem rasgar como as de casa. As de casa, éramos quatro crianças, estavam sempre esfarrapadas. Tanto que meu pai, a certo ponto, desistiu e trocou-as por dois bancos que sobraram de sua primeira Kombi (a Kombi do acidente pouco antes de eu nascer).

Não sei como minha avó conseguia. As dela estavam inteiras e com cheiro de couro como se tivessem acabado de sair da loja. Minha tia Lina e minha mãe eram costureiras, trabalharam em oficinas de bolsas, cortando e costurando couro. Eu sempre suspeitei que isso tivesse algo a ver com aquela conservação. Talvez as duas, escondido, como esse pessoal de manutenção predial, constantemente inspecionasse e consertasse tudo ali.

Eu adorava. Era como me deitar numa cama arrumada e fresquinha.

Minha avó não tinha televisão na sala. Ela ficava no quarto dos fundos (que depois virou meu quarto). Eu, se não cochilasse como o avô, para me distrair, só tinha as tricotagens e crochesagens delas. E as discussões de minha mãe e minha tia: “Não é assim o ponto.” “Como você pode saber? Você nunca fez  tricô na vida. Olha aí o teu que está errado.” “Se você sabe fazer certo, por que nunca pegou numa agulha de crochê?”

Não me lembro de quantas vezes minha avó procurou algum outro serviço (louça, vassoura) pra elas fazerem pra acabar com a implicância que irritava todo mundo.

O que eu achava mais engraçado é que elas discutiam aquilo de “Quem entende disto sou eu. O teu é esse.” e para mim, era absolutamente a mesma coisa que elas faziam. A única diferença que eu notava é que minha mãe só fazia toalhas e minha tias só pulôveres. Eu lhes disse isso algumas vezes e elas me explicaram outras tantas algo sobre tamanho da agulha e da lã.

A mãe e a tia iam todo mês na Cléia, Rosa, Cida – era algum nome de mulher assim. Era a loja na João Batista que vendia essas agulhas, lãs e linhas. Eu gostava de ir para ver aquelas máquinas que bobinavam automaticamente a lá no cone (era um cone de papelão grosso, igual a uma casquinha de sorvete gigante, que servia de carretel). A máquina enrolava a lá da cor escolhida no carretel até dar o peso pedido pela cliente.

Minha tia Cândida, irmã da avó, não ia conosco à loja. Ela também era a única que ficava quieta na sala. Fazia umas toalhas redondas, que chamavam de centro, para pôr vasos em cima. Às vezes, fazia outras toalhas grandes, compridas, que chamavam de caminho e serviam para cobrir móveis quase tão compridos.

Como ela já tinha todas as toalhas de que precisava, cada vez que terminava uma nova, punha-a no lugar de uma antiga, que me deixava desmanchar. Eu gostava de puxar a linha e ver se desmancharem aqueles pontos, que para mim eram nós e que eu nem sabia como ficavam presos normalmente, tão fáceis eram de desmanchar que pareciam já soltos.

A linha da toalha desfeita, ela reciclava (era uma visionária) fazendo outra, que substituiria outra que seria também desfeita para fazer outra que substituiria outra que seria também desfeita para fazer outra…

Era um fazer e refazer sem fim.

Há um tempo atrás, um estagiário, reclamando do gerente, comparou-se a Sísifo, que eu não conhecia mas dá título a uma música do Pink Floyd que eu já havia ouvido várias vezes. Sísifo estava condenado a passar a eternidade tentando empurra uma pedra redonda até o alto de uma montanha. Mas, sempre se cansava antes de terminar a subida, e a pedra rolava montanha abaixo.

Outro fazer e refazer sem fim.

Foi do que este filme me lembrou. No começo, achei engraçado. Mas quando o cara começa a gostar da garota e tentar ficar com ela, me dava uma aflição a cada vez que não conseguia e tinha de tentar tudo de novo.

Groundhog Day (1993) – trailer

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