Cinema

Bullets Over Broadway

You better get in the mood, honey, ‘cause he’s payin’ the rent.

1994 - Bullets Over BroadwayMinha madrinha trabalhou a vida toda numa oficina de costura na Praça Ramos. Trabalhava com couro produzindo bolsas que eram vendidas para as madames na loja chique à frente da fábrica.

Ela, já aposentada, tinha um pequeno guarda-roupas lotado de bolsas de couro que o ex-patrão lhe deu de presente para usar como portifólio se quisesse continuar por conta própria. Ela não continuou, passou o resto da vida cuidando dos pais. A mãe viveu quase cem anos, morreu pouco antes dela. As bolsas, ela as tinha guardadas. Nunca as vendeu. Às vezes dava uma de presente à irmã ou à sobrinha ou a uma amiga muito próxima.

Quando trabalhava, ainda longe de se aposentar, virou supervisora da oficina. Era o cargo que mais imperava respeito entre as mulheres. A surpervisora era, reconhecidamente a mais capacitada. Quem sabia fazer qualquer coisa. Ensinar qualquer coisa. Consertar qualquer coisa. Principalmente consertar qualquer coisa.

Era a madrinha quem tinha de consertar o que as outras erravam. Um corte mais rente, difícil de costurar, uma costura frouxa ou franzida. Tinha de conferir tudo e consertar o que as outras não conseguiam. De algumas das costureiras, fazia isso de bom grado. Mas, da maioria, achava-as relaxadas ou distraídas demais em suas fofocas durante o trabalho. Ainda assim só lhes chamava a atenção em particular, mesmo quando o patrão pedia contas sobre cada uma. Não queria queimar ninguém.

Ninguém gosta de ser chamado à atenção. Óbvio. Sempre que repreendia a alguém ouvia a mesma ladainha: “Você está pegando no meu pé. Por que não pega no pé da Dona Bernardo?”

A tal da Dona Bernardo era uma costureira pouco mais nova que a madrinha. Ganhou esse apelido porque, embora tentassem ser discretos, todos sabiam que ela e o patrão, Seu Bernardo, tinham um caso regular havia já muito tempo. Conta-se que não era uma garota linda que fizesse papel ridículo ao lado do patrão já idoso, nem que fosse uma operária incompetente que e desqualificada que se pudesse dizer estar ali só pelo acaso do caso. Era bonita, mas não demais, meia-idade. Experiente. Habilidade dentro do esperado. Funcionária quase tão antiga quanto a madrinha, chegou lá indicada por uma outra costureira, sua parente, que a indicou com o compromisso de ensinar-lhe o ofício. Não era uma aberração. Mas, sabendo-se protegida por outros préstimos, permitia-se ser das mais distraídas e, de tempos em tempos, quando lhe calhava o mal humor, a mais relaxada. Cada vez que brigava com o patrão, fechava a cara, reclamava alto de tudo, mandava as favas e punha-se a fazer o serviço de qualquer jeito.

Isso lhe rendeu a fama, não totalmente justa ou injusta, de nó-cega.

Minha madrinha se recusava então a consertar-lhe o serviço e, volta-e-meia, acabavam discutindo. Eram as únicas vezes em que ela não conseguia evitar que as coisas chegassem ao ouvido do patrão.

Faltando uns dois ou três anos para se aposentar, a madrinha se viu com o pai doente. Teve de cuidar-lhe pois a mãe tinha ainda mais idade que ele e era mais doente ainda. Conversou com Seu Bernardo e afastou-se por uns quatro meses.

Quando voltou ao trabalho, as colegas, futriqueiras, se apressaram a lhe provocar, tentando arrumar um barraco que lhes divertisse: “Agora a supervisora é a Dona Bernardo. Patrão a pôs no teu lugar. Ela te passou para trás.” A madrinha riu e as outras não entenderam o porquê.

Quando Seu Bernardo chegou, viu-a já de volta, foi em sua direção: “Ângela, eu preciso ter uma conversa consigo.” As outras riram: “Vai te falar quem é tua chefe agora.” A madrinha fez cara séria, solene: “Precisamos sim, Seu Bernardo, uma conversa séria.”

O velho à chamou à sua sala. Ela disse que não precisava, que ali estava bem. Que não era nada que as outras não pudessem ouvir.

“Seu Bernardo, as outras costureiras estão todas elogiando muito o trabalho que a Leda fez enquanto eu estive afastada. Eu sou uma pessoa difícil, vivo discutindo com ela. Mas com a Leda parece que elas se entendem melhor. Eu já estou mesmo para me aposentar. Eu acho que o senhor devia mantê-la como supervisora.”

O patrão ficou surpreso, mas provavelmente atribuiu isso a ela saber de seu caso e querer ser discreta com ele não o expondo a uma discussão. As outras costureiras ficaram mais surpresas ainda. Surpresas, boquiabertas, e contrariadas. A nó-cega que elas odiavam (vai saber quantas delas a invejavam) continuar chefe… Mas ficaram caladas.

Ele e nova supervisora a cumprimentam, elogiaram, agradeceram e ele disse que pensaria bem no assunto. Quando saiu, as outras começaram a reclamar e reclamar da madrinhar seu orgulho: “Você vai deixar essa vagabunda ser chefe no seu lugar?”

Um início de tumulto logo foi apartado pelos homens que cuidavam do armazém. A madrinha riu. “Me mandar embora, ele não vai. Baixar meu salário, ele não pode. Se vocês não gostam dela, não é problema meu. O que eu sei, Leda, é que, de agora em diante, naqueles teus dias, nunca mais você vai fazer merda pra eu ter de consertar.”

Uma historinha sobre QI. Outra. Como a deste filme é também.

Bullets Over Broadway (1994) – trailer

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