Cinema

Everest

2015 - EverestMinha avó não sabia ler. À tarde, depois de pronto o serviço de casa, ela se sentava na poltrona da sala e, enquanto meu avô e minha madrinha caíam logo na soneca, pegava algum livro grande ou revista e ficava folheando. Não gostava da Elle nem da Cláudia, que a madrinha comprava para manter-se atualizada em seu ofício de costureira. Gostava da Geográfica Universal, que meu irmão comprava no Jardim, na banca de revistas usadas do Seu Vilaça, e também da Manchete e de livros infantis com muitas ilustrações coloridas. Achava os mais sem-graça os livros que eu pegava para mim na biblioteca municipal, Júlio Verne, Alexandre Dumas, Charles Dickens. Tinham muitas letras e as poucas ilustrações eram só gravuras sem cor, imitando as edições originais antigas. Passava página por página, com cuidado que parecia ler. Eu sabia que não, embora nunca me lembra-se de ela não saber, mas só eu percebia que ela demora bastante nas páginas onde havia desenhos e fotos com mais detalhes e, as que só tinham letras ela pulava como se não se interessasse pelo assunto.

Num sábado em que, não me lembro porque, passei a tarde na sua casa, eu me lombo de estar sentado no sofá ouvindo alguma música piegas no radinho AM que meu avô me deu no Natal. Eu ouvia musicas horrorosas naquela época! Manolo Otero, Serge Gainsbourg e muitos outros que eu, graças a D’us, já esqueci. Era um tipo de música que as rádios chamavam de bolero, querendo dizer que eram feitas para dançar colado em festas. Hoje acho engraçado que eu já as tenha levado a sério.

Minha madrinha dormia numa poltrona com a cabeça caída para a esquerda.  Meu avô noutra, cabeça caída para trás, rosto para cima e boca escancarada. Eu achava engraçado. Ele era tão alto que nunca tinha onde apoiar a cabeça. Nem mesmo onde apoiar os ombros. Mesmo assim, mantinha sempre a postura ereta como de um soldado. Acordado, na poltrona onde mal cabia, parecia um rei de conto de fada. Sentado em seu trono de brinquedo. Dormindo naquela posição, me lembrava daquelas histórias em que a bruxa põe todo o reino para dormir, inclusive o rei, que, cetro na mão, coroa na cabeça, cai no ronco em seu trono.

Eu, acompanhando as letras das músicas, tentando decorá-las, – que vergonha! – prestava atenção um pouco em cada um. Aprimora coisa que reparei na avó foi que ela tinha uma expressão diferente a cada vez que eu lhe olhava. Às vezes, nervosa. Às vezes, sorrindo. Noutras brava. Vai saber em quê pensava. Passava os dedos em alguns desenhos, num pato, numa flor, numa mulher de vestido. Essa foi a segunda coisa que percebi. Parecia que queria sentir-lhes a textura da tinta. Não havia textura. Eram todos impressos na mesma tinta fina do livro todo.

A terceira coisa que percebi, e essa demorei mais, foi que ela não saia da mesma página tinha já bastante tempo. Era uma página dupla com uma cena grande. Muito verde, marrom, amarelo e vermelho. A cada vez eu eu olhava, ela estava passando o dedo em uma parte diferente do desenho. Prestava atenção a um detalhe de cada vez.

Tirei um pouco os fones e brinquei com ela: “Dormiu nessa página, vó?”

Ela olhou para mim por cima da testa, sem mexer a cabeça logo de cara. Depois se endireitou um pouco na poltrona e me mostrou a página: “Olha, filho.” Ela me chamava de filho e chamava meus irmãos pelo meu nome. Apontou os detalhes do desenho,  um por um: “Esta mulher cria os patos para comê-los e comer os ovos. Mas a pata é esperta e esconde alguns ovos para chocar. Ela esconde os patinhos aqui. O cachorro é brincalhão, mas não percebe que quando vai brincar com os patinhos e faz barulho, chama a atenção da mulher e ela os pode descobrir. A pata está chateada porque ela pegou dois patinhos na semana passada e levou para vende ali na granja.”

Continuou mais alguns minutos explicando a história com seus detalhes todos. Ela não precisava ler para encontrar ali uma história. E nem sei se haver uma história era realmente importante.

Foi assim que eu aprendi que às vezes é só apreciar a vista.

Senão, eu talvez não tivesse gostado deste filme.

Everest (2015) – trailer

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