Cinema

Le Petit Prince

Les hommes ont oublié cette vérité, dit le renard. Mais tu ne dois pas l’oublier. Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé. Tu es responsable de ta rose…

Eu não sei explicar bem o porquê, mas quando eu era pequeno, nos tempos do primário e do ginásio meus e dos meus irmãos, parece que quase todos os professores da cidade moravam perto da minha avó, no Bela Vista, em Osasco. Bom, na verdade o pessoal chamava ali de Bela Vista porque era onde ficava a sede da Fazenda Bela Vista, que foi loteada dando origem aos bairros do cento da cidade, mas oficialmente ali era Vila Osasco, parte do centro. O Bela Vista oficial ficava só depois da Igreja e do Cemitério. Não sei se era por ali ser um dos bons bairros para se morar na cidade, se pela proximidade com os melhores colégios e escolas (o Misericórdia, o Liberatti, o Bittencourt, o Anchieta, o Fernão e o Raposo), o único bom colégio da cidade que me lembro de não ficar por ali era o Pio, já na divisa com Carapicuíba. Eu sempre achei curioso quantos vizinhos professores ela tinha.

Uma vantagem muito grande que havia nisso era que, professores ganham muitos livros das editoras, mitos mesmo. Todos os anos, as editoras lhes entregavam caixas de livros de amostra para eles avaliarem e, se gostassem, indicarem aos alunos ou adotarem para o ano letivo. Esses livros, acabavam ocupando muito espaço e juntando poeira e traças. Então, regularmente, esses vizinhos faziam seus bota-fora.

Eu mesmo demorei a entender porque jogavam os livros fora ao invés de doar à biblioteca. Só entendi quando me mudei e quis doar os meus. A burocracia e a trabalheira são tão grandes que não compensam o esforço. Você tem de listar os livros, explicando do que se trata cada um, encaminhar uma Solicitação de Permissão de Vistoria de Doação à algum órgão da prefeitura, carregar os livros até o local de inspeção, depois retirá-los, aguardar os laudos e por fim, assinar um Termo de Doação dos livros aprovados e entregá-los à biblioteca. Tudo isso exclusivamente em horário comercial.

2015 - Le Petit Prince

Nós então, aproveitávamos para monitorar os dias de lixeiro a ver quando algum vizinho colocava no portão uma caixa cheia de livros. Isso antes de minha madrinha ficar conhecida como cata-livros e os próprios vizinhos a chamarem quando iam fazer a limpa das estantes.

Os livros que encontrávamos eram sempre uma surpresa. Muitos livros didáticos, dicionários, enciclopédia, guias de laboratório, coleções de poesia e contos, clássicos de Machado de Assis e Eça de Queirós, livros juvenis dos anos setenta e oitenta e também besteiras sem limite. Tínhamos inclusive um vizinho pastor e professor de português que nos passava livros das Testemunhas de Jeová como se fossem novidades científicas e literatura de preparo para o vestibular.

Eu gostava muito dos livros didáticos de português. Naquele tempo, cada capítulo dos livros de português começava com uma crônica ou um trecho extraído de um romence. Com eles eu conhecia uma variedade de autores e abria a curiosidade para o resto dos romances e dos livros de crônicas. Foi assim que descobri Lima Barreto, Jorge Amado, José Lins do Rego, Dias Gomes, Érico Veríssimo e outros que nem me lembro. Também era costume os livros terminarem com uma letra de música, normalmente da época da Tropicália ou de algum músico identificado com a esquerda durante a ditadura. Também foi assim que eu descobri os Mutantes, o Chico e o Milton e a Elis.

2015 - Le Petit PrinceFoi numa dessas garimpagens num bota-fora que eu vi, pela primeira vez, um livro do Pequeno Príncipe.

Eu o achei um livro muito estranho. Devia ser infantil. Só podia ser infantil. Pequeno-alguma-coisa é um padrão consagrado de nome de história infantil. Era colorido. Tinha muitos desenhos coloridos embora eles não se parecessem com os desenhos dos gibis e dos livros recentes. Achei que podia ser uma daquelas traduções de livros infantis americanos. Daqueles que os escritores de lá produzem às dúzias, dois por ano, para manter o caixa girando. Todos com as mesmas histórias, só mudam os nomes das personagens e os lugares das histórias. Deixei de lado e não me interessei em ler.

Ele foi para a casa dos fundos, onde moraram meus tios, junto com os outros livros. Todos os dias, eu ia lá e pegava algum para ler. Lia enquanto a madrinha costurava me contando as histórias de seu tempo de trabalho na oficina. Quando ela terminava de costurar, ou quando as vistas já se lhe embaraçavam, ela ia tomar café e dormir um pouco na poltrona da sala. Eu continuava lendo até o primeiro lapso de desatenção, quando me distraísse para me espreguiçar e aí percebesse que as costas ou o pescoço já doessem de câimbra de tanto tempo sem mudar de posição.

Foi numa tarde, sentando para tomar café, que minha irmã se sentou toda feliz na cadeira: “Aquele livro que você deixou de lado, do Pequeno Príncipe, é tão legal!” Minha irmã é três anos mais velha do que eu, ela gostou de Pollyanna Moça, não gostava do Marcos Rey nem de Júlio Verne e, apesar de ter gostado dos Três Mosqueteiros, o que mais lia eram aqueles livrinhos femininos de bolso, umas séries com nome de mulher. Sabrina, eu acho que era o nome. Eram histórias todas iguais, com cara de novela, em que no meio sempre rolavam duas ou três páginas descrevendo algum avanço sexual. Os jornaleiros vendiam muito para as tias, para as avós e para a minha irmã.

2015 - Le Petit PrinceMas foi por ela ter gostado que eu desconfiei que talvez não fosse uma porcaria.

O próximo livro que peguei foi esse. Achei meio bobas as duas ou três primeiras páginas. A história dos adultos gostarem de números, os desenhos da cobra e os dos carneiros. Me parecerem muito coisa de criança, coisa que eu já tinha visto igual antes. Passando isso, logo peguei gosto e terminei o livro todo, que é pequeno, numa única tarde. Gostei. Ainda assim, me pareceu ser mais um livro. Me lembro até de que fiquei indignado com o quanto achei cruel o menino ao abandonar a raposa.

Demorou para alguém me falar que ele se parece comigo e me citar alguma frase que me fez procurar o livro de novo para entender o contexto. Desde então, este nunca foi meu livro preferido, mas é um ao qual eu me remeto com freqüência. Traduzi estudando francês. Aliás, tenho em algum lugar um exemplar em francês todo anotado e rabiscado de quando traduzi. Usei os desenhos das aquarelas em posts. Às vezes, coloco o desenho da raposa no meu perfil do MSN (ou do Google, ou whatever).

Este desenho tem umas invencionices modernas sobre a história. Isso do aviador contá-la para uma menina que tem uma mãe controladora. Também aquilo da menina sair, feito o messias atrás do messias, procurando o príncipe para salvar tudo. Eu não gosto disso. No fundo, o que eu gosto no livro é que ele não tem nada a ver, nada de igual, com outras coisas que li. É uma história que bem podia ser verdade.

Mas do que senti falta mesmo foi de minha frase favorita do livro. Não é aquela tradicional de ver com olhos. É a da raposa triste recomendando ao príncipe que não descuide de sua rosa.

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