Memórias

floripa, noite de inverno, côtes du rhône, com uma pausa para um charuto e outra para quase tirar uma pestana

Meu irmão mais velho, o Zezinho, era muito estudioso. Seu nome, na verdade, era José, igual ao pai e ao avô e avô do pai e a todos os pais e avôs dos quais a família se lembrava. Coisa de português, o filho mais velho ter o mesmo nome do pai ou do avô. Coisa de família da Ilha da Madeira, quando se precisa de nome para um filho, o primeiro que se pensa é José, de São José, o padroeiro da ilha. Acho que é por isso que, até pouco tempo atrás, o nome mais comum aqui em São Paulo era José. A maioria dos portuguesas daqui me parece ter vindo da Madeira. Em Portugal mesmo, embora os brasileiros pensem ser Manuel, parece-me que o nome mais comum entre homens é Rodrigo. Aqui , hoje em dia, acho que é Tiago. Ou Thiago. Mania de brasileiro escrever como se fosse outra língua. Podem os Tiagos me xingarem, mas esse é um nome com o qual eu não me conformo. É uma invenção totalmente descabida da nossa ignorância. Os italianos chamam Jacó, o profeta de Iago. Por ser um homem santo, virou Santo Iago. Santiago (Sant’Iago) na escrita dos italianos. A igreja católica apostólica comum aqui do Brasil é a Romana. A deles, dos italianos. O Santiago dos italianos deu até nome à capital do Chile, país onde a língua só tem San, não Santo. Acho que, por isso mesmo, as pessoas assumiram que Santiago fosse São Tiago e começassem a batizar seus filhos com esse nome inventado. Meu amigo Tiago me perdoe essa falta de reverência por seu nome. Ele devia se chamar Iago ou Jacó, já lhe disse isso.

Sempre tive inveja de meu irmão herdar o José tradicional da família e eu não. Ele mereceu isso por ser o filho mais velho. Mesmo assim, eu poderia ser um José Alexandre ou qualquer outra coisa. Mas, pensando bem, hoje estaria reclamando de ter nome composto, como ator de novela mexicana ou personagem de comercial de cerveja. Hoje estou bem com meu nome, mas sempre tive inveja do José dele.

Tive inveja também de outras etárias dele por ser o mais velho: ser o escolhido pelo pai para ajudar nas reformas e consertos da casa, nas coisas perigosas como subir no telhado, mexer nos fios e nas ferramentas. Disso não posso me queixar porque, embora, preterido, o pai sempre ficou feliz de eu procurar me meter nessas coisas para as quais ele não me chamava mas arrumava um jeito de me deixar ajudar.

O Zezinho também podia uma gaveta maior na escrivaninha onde fazíamos a lição em casa. Quando o pai a comprou, éramos três, cada um tinha sua gaveta, pequena, à esquerda. A gaveta maior à direita, sobre o colo de quem se sentava na cadeira. Tinha bugigangas de uso coletivo. Quando o caçula nasceu, Zezinho passou sua gaveta para ele e pegou a maior para si. Ninguém reclamou. Parcia natural que ele, mais velho, decidisse o que fazer.

Essa gaveta maior tinha também outra regalia: tinha fechadura. Ele podia guardar lá o que quisesse e trancar para garantir sua privacidade. E, direito supremo de filho mais velho, a mãe nunca questionava o que estava trancado ali. Meu pai nunca nos deixou trancar, ou mesmo fechar, nenhuma porta dentro de casa. Mas a fechadura da gaveta do Zezinho era diferente. Acho que nem o pai podia imaginar algum mal lá.

Mas eu, quando tinha meus treze ou quatorze (quando aprendi a escrever era quatorze, hoje, vejo a maioria das pessoas escrever catorze), ele tinha dezessete ou dezoito, achei muito óbvio o que ele via guardar lá. Meu irmão mesmo surpreendeu-me por ser tão inocente em guardar esse tipo de coisa num lugar tão óbvio, a única fechadura trancada dentro de casa, e, mais que isso, um lugar onde, quando éramos pequenos, ele mesmo me ensinou como fuçar. Um vez, querendo me mostrar como era esperto, ele me mostrou que bastava entrar em baixo da escrivaninha, ela era larga o suficiente para mesmo um adulto sentar-se à vontade embaixo, passar a mão por trás da gaveta e alcançar as coisas que estivessem guardadas mais no fundo. Foi assim que tive acesso às suas três coleções de revistas. Podia até haver mais lá, mas eram essas três que eu alcançava.

A Playboy, várias vezes peguei a da Luma de Oliveira e a da Luciana Vendramini. Cheguei a emprestá-las a um colega da escola para tirar xerox no trabalho. Foi embaraçosa a saia justa quando a mãe as encontrou nas minhas coisas, ou melhor, nas coisas da avó. Eu as estava olhando no meu quarto quando ouvi barulho de fora e as enfiei num baú de coisas da avó que ficava ao lado do meu guarda-roupas. Não sei como foi, mas acabei as esquecendo lá. Daí a um ou dois dias, a mãe foi mexer no baú para procurar cobertores e as encontrou. Tive de mentir que um amigo me pediu para guardá-las. Foram confiscadas e, daí uma semana, quando meu irmão descobriu, tivemos uma conversa séria.

Eu fico imaginando a cara que minha mãe faria se tivesse encontrado as revistas de meu avô, que eu encontrei uns cinco anos depois de ele morrer. Revistas dos anos sessenta que, quando eu era pequeno, não serviriam mais nem para propaganda de lingerie. Meu avô era muito alto, um metro e noventa e quatro. Aliás, a mesma altura do Zezinho. Talvez essa altura fosse outro privilégio que acompanhasse o nome de José, comum aos dois. Minha avó tinha na copa duas cristaleiras, uma sobre a outra. Eu não sei como podia, até porque uma era escura e a outra mais clara e avermelhada, os desenhos e feitios não tinham nada a ver um com o outro. Mas as duas juntas, uma sobre a outra, se passavam por um móvel só, desenhado para ser daquele jeito mesmo. Mas era um móvel muito alto, que quase batia no teto. Uma vez fui tentar resgatar uma bolinha de ping-pongue que foi parar lá e descobri o esconderijo da pornografia de meu avô. Lugar alto, não tinha como outra pessoa, sem escada, alcançar lá. Eu procurei se havia mais, eram poucas, pulei o muro do quintal e joguei no lixo da vizinha para que minh avó não soubesse. Era uma última reverência, póstuma já, de ética masculina que eu poderia ter com meu avô.

A segunda coleção de meu irmão que eu conseguia alcançar era a da Ele & Ela. No começo não dei muita bola, porque confundi com a Ela, revista de costura e coisas de mulher que minha madrinha às vezes lia para manter-se atualizada em sua profissão. A revista era quase um lixo. Acho que, por isso mesmo, mais interessante que a Playboy. Mulheres desconhecidas, sem PhotoShop, ou seja-lá-o-que-a-Playboy-usasse-naquele-tempo, arreganhadas sem arte nenhuma, mostrando tudo. Essa revista tinha também um encarte chamado Fórum, onde eram publicados “relatos” enviados por leitores de suas aventuras eróticas. Para um adolescente CDF como eu, que lia mais ou menos um livro por dia, esse encarte era o máximo. Hoje, vinte e cinco anos depois, tenho certeza de que os relatos, ao menos as versões publicadas, não eram dos leitores. Eram todos coisas muito bem escritas. Por causa deles, fui procurar os “contos” publicados também na Playboy. Lá era publicado um por edição. Os autores usavam pseudônimos. Um dos que publicava lá era o Marcos Rey, autor dos livros políciais que eu adorava.

Mas a terceira coleção de revistas de meu irmão era a que eu mais gostava: a de quadrinhos. Havia Chiclete com Banana (chiclete com banana é de comer?  chiclete com banana cola na sola do sapato? chiclete com banana pega fogo?), Circo, Mad e algumas outras. Da Mad, eu só gostava da dobradinha. O resto da revista era um lixo. E ainda é. Circo misturava coisas muito boas com outras muito ruins. Foi nela que li algumas das coisas que mais me marcaram, como a história do cara que chega em casa e descob que toda sua vida era um teatro, O Show de Trumann em uma HQ do ponto de vista do ratinho de laboratório. Essa foi, até hoje, a minha HQ preferida. A cada dois ou três meses me acontece algo que me lembra ela. As máscaras caindo, o mundo, o chão, se desfazendo. Mas revista mesmo, a preferida foi a Chiclete com Banana. Quase tudo nela era bom. E o que não eraera uma bobagem engraçada. Ela tinha minhas personagens preferidas, Los Três Amigos (Angel Villa, Laertón e Glauquito… e Miguelito, per supuesto), com meus cartunistas preferidos, Angeli, Laerte e Glauco. E havia outros e havia a tia do Angeli e só faltava o papel feder a uísque e maconha.

Depois que meu irmão morreu, eu não tive mais sua coleção para fuçar. Essas revistas também não duraram muito mais do que isso. A Editora Circo deve ter durado uns dois ou três anos. A Chiclete com Banana deve ter durado umas dez ou doze edições. Eu comecei a procurar os quadrinhos dessa turma nos jornais, na Folha ou no Estado, não me lembro bem. A mãe e a madrinha compravam jornal velho por quilo para forrar as gaiolas dos passarinhos. Eu corria nas páginas de quadrinhos. Os próprios Angeli, Larte e Glauco tinham suas tirinhas, muito boas, misturadas às de outros cartunistas, embora eu sentisse falta deles juntos em Los Três Amigos. Separados, eles perdiam sinergia. rs Me sinto um gerente enrolando com uma buzzword quando digo isso. Mas separados eles realmente perdiam sinergia. Talvez pela falta de um zoando com o outro enquanto faziam as tiras. Isso para mim era muito claro durante uma fase do Angeli em que ele publicava tirinhas intituladas Angeli em Crise. Ele, quando não tinha ideia do que fazer, fazia um quadrinho extremamente vago do que tinha na cabeça. Na maioria das vezes sem texto, sem nexo, aparentemente sem propósito. Era objeto dele lidar com a falta de idaias quando precisava ter uma ideia para publicar na próxima edição do jornal. Todos têm seus dias sem ideias. Dias sem ideia nenhuma.

Eu não tenho contrato com nenhum jornal para escrever. Quando acho que tenho de escrever, e acho que tenho de escrever todos os dias, e não tenho ideia, me sento na frente do tablet com cara de bobo. Acabo só fuçando na internet por musicas novas, por informação inútil sobre assuntos que me interessam, e disperso.

Mas quando quero mesmo escrever, e não tenho ideia, deixo o tablet no braço da poltrona e abro uma garrafa de vinho. E fico pensando num monte de coisas que não quero escrever e em desculpas para não escrevê-las.

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