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Eu não queria ficar trancado no hotel. Não tirei férias para sair de casa e me trancar noutro quarto. Puxei a poltrona para o terraço do quarto, peguei um copo de vinho e me sentei lá. Não vou dizer que estava ao relento porque uma beirada do telhado cobre o terraço por inteiro. Coloquei os fones de ouvido e fiquei escutando radio tentando enxergar algo. Não dava para ver nada porque a última madeira horizontal do parapeito do terraço ficava bem à altura de meus olhos. Afundei-em um pouco na poltrona e consegui ver por baixo dessa madeira. Via só o estacionamento lá embaixo e um pedaço das árvores dele. Por cima, pelo vão entre o parapeito e o telhado, só dava para ver que o céu estava nublado, nenhuma estrela, nenhuma lua. Já sabia que a noite estava muito fria, mas levou uns dez minutos para me incomodar. Consegui um cobertor bem grosso. Enrolei-me nele como se fosse uma pala, voltei a sentar-me e a afundar-me na poltrona e, entre bebericos do copo que deixava pousado no parapeito, tentei prestar atenção ao rádio. Passou um carro ao lado do estacionamento. Parou logo em seguida, na ladeira que serve de mirante aos namorados. A cidade não tem motel, mas tem essa ladeira. Vi os faróis se apagarem por trás de uma copa de árvore e deitei a cabeça de lado. Esqueci, por uns vinte minutos, do vinho que estava sobre o parapeito. Procurei de novo por estrelas. Só vi dois raios estourarem no horizonte, além da serra, sobre os morros. Eles me eram suficientes. Estava cansado.

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