Cinema

Jurassic World

Não havia muitas opções de filmes, e estava garoando. Muito fria a noite que começava. É o inverno chegando em São Paulo. Já estamos na segunda metade de junho.

Eu me lembro de, quando era pequeno, nesta época, o frio chegar de uma vez,  forte, mas durar pouco assim. Em julho, e tenho impressão de que exatamente no dia primeiro, começava a garoar. Era uma garoa chata que durava o mês todo e invadia agosto. Levava seus quarenta dias, sem parar um minuto só. Os mais velhos diziam que era o dilúvio brasileiro. Dilúvio mal feito, só servia pra umedecer a roupa e os cabelos. E estragar as férias.

Dizem que foi por causa da poluição que isso parou, não me lembro quando. Mas, na época em que estava na faculdade, os invernos daqui já não tinham mais essa garoa. Por isso ficaram muito mais frios. 

Sexta-feira à noite, fria, garoando. Mas essa garoa é outra, logo iria parar e dar lugar para mais frio. Sem novidades que me animassem. Não tive coragem de ir a um dos meus cinemas de costume, nem achei nada mais quentinho para fazer. Fui ao cinema do shopping, o mais perto de casa, ver o novo filme da moda, a contragosto. Fui pela distração. Desligar o Tico e o Teco olhando para a tela de um filme ruim ainda é melhor do que se jogar na cama pensando nas mesmas dores de cabeça de sempre. Pensar nos defeitos, em como o filme é ruim distraí.

Comprar ingresso foi rápido. Não sei porque os terminais de auto-atendimento ficam sempre vazios. As pessoas preferem fazer fila nos caixas? Enquanto ficavam os outros na fila, comprei ingresso para a sessão que quis, a última antes de fechar o shopping, e desci para o café. Eu só ia jantar depois do filme. Na praça de alimentação, é difícil resistir aos hambúrgueres. Depois do filme acabar, os restaurantes do bairro ainda estão abertos. Acho que eu mereço um jantar melhorzinho, caprichado. Garçom, calma, luz fraca, comida bem feita. Antes do cinema, só o café e talvez escrever um pouco.

Na minha frente, na fila do café, duas garotas. Uma bonita. A outra, não sei, teve algo que não gostei nela. Acho que a cara de religiosa, ou a roupa de religiosa. Acho que logo imaginei aquelas religiosas azedas da vida, que torcem o nariz para tudo que não vem da palavra de D”s. Elas pediram e se sentaram. Cada uma veio ao balcão à sua vez, pegar sua bebida pronta. Eu esperei em pé pelo meu cappuccino. Quando o peguei e me sentei, estava de lado para a mesa delas, perto. Elas uns cinco metros à minha esquerda.

Enquanto pendurei a bolsa na cadeira e pegava o tablet para tentar escreve, olhei para a garota que achei bonita. Confesso que os pensamentos impuros eram maiores que a curiosidade. Ou melhor, que a curiosidade era maior de saber o quão bonita ela era do pescoço para baixo do que de xeretar o que faziam. Ela era normal. Gosto de gente normal. Não tinha nenhum corpo que chamasse a atenção de revistas masculinas. Havia umas duas ou três bolas de sorvete de chocolate fazendo volume a mais logo abaixo do umbigo. Aquela barriguinha de doce que a mulher para evitar tem de se policiar tanto a ponto de se tornar uma chata mal-humorada. A amiga com algo de religiosa, sentada de frente para mim, também tinha o corpo normal, e notou que eu olhava. Notou enquanto dava uma pequena risada por algo que contou à outra, me encarou por um ou dois segundos, ainda rindo de leve e voltou a dar atenção à amiga.

Fiquei sem jeito por ela ter percebido. Achei que ia me apontar para a amiga e comentar algo de mim. Depois dariam risada. Olhei de rabo de olho e não me pareceu que ela me denunciasse. Olhei direito então e ela olhou para mim de novo. Trazia o sorriso da conversa que tinha com a amiga de mesa. Disfarcei. Ela voltou os olhos de novo para a amiga. Olhei de novo e ela olhou de novo também. Também tinha só disfarçado. Eu sorriria se não tivesse ficado tão sem graça. A ponto de nem ficar com a bochecha vermelha. Ela arrumou o cabelo, como se olhasse na minha direção para poder ajeitá-lo. Sua amiga não percebeu que me olhava. Admirei-lhe a elegância da discrição. Voltou a atenção à amiga. 

Eu olhei a tela de meu tablet, ainda apagada. Desbloqueei, não tinha ideia do que fazer. Posei-o na mesa e olhei de novo para ela. Curiosidade de saber se eu ia passar despercebido agora. Ela não sorria mais, tinha o rosto triste. Não sei o que conversavam. Mas a amiga falava como se a quiser demover de alguma ideia. Não dava para escutar o que diziam. Ainda bem. Me acho xereta demais. Não gosto de me intrometer. Melhor que não entendesse o que diziam do que já ficar inevitavelmente prestando atenção à conversa delas. A garota, como se soubesse que eu ia olhar, tão logo eu pensei isso, me olhou também. Desta vez, não diretamente, olhou meio para minha mesa, encabulada. Acho que estava encabulada de eu a ver triste. Mas, antes de voltar o olhar para a amiga, passou-o envergonhado por meu rosto e me ensaiou um lapso de sorriso com os lábios. Ensaiou com os lábios, porque os olhos eu tenho certeza de que chegaram a sorrir embaraçados. Ainda assim, conseguiu ver que eu também lhe tentei mostrar um sorriso embaraçado enquanto baixava os olhos para minhas mãos ao mesmo tempo em que ela voltava a dar atenção à amiga.

Acho que devia ser sério o que falavam e procurei me distrair tentando ler. Abri o livro que tenho lido no caminho para o trabalho. Tentei esquecer a mesa à minha esquerda e li segurando o grande copo com as duas mãos, aproveitando seu calor. O livro é interessante, é uma colagem de cartas, bilhetes, e-mails e mensagens trocados entre um casal de amigos. Parece filme de sessão da tarde, aliás tem um filme baseado nele que eu assisti num domingo à tarde. Mas soube-me pesado. Algumas passagens não me caíram muito bem. Fico aflito quando percebo alguém com o coração partido.  Parece que meu coração é meu estômago começam a brigar e tentar trocar de lugar um com o outro. Imagino coisas, lembro coisas, logo meus olhos marejam.

Meu cappuccino acabou. Fechei o livro é pisquei os olhos para remediar minha cara de bunda. Tentei respirar um pouco pelo nariz. Olhei de novo para a mesa das garotas. Elas já conversavam animadas agora. A que estava de frente para mim, me olhou duas vezes, sem precisar forçar o sorriso que já tinha no rosto. Esse sorriso não era meu. Ela apenas compartilhou comigo por dois instantes o sorriso que era da conversa com a amiga. Achei-a agora tão bonita que pus-me a imaginar porque não antes.

Endireitei meu pescoço para não encará-la. Estava de frente para, no fim-do corredor, uma joalheria e, pouco antes, uma loja de lingerie. Pensei na diferença de beleza, se é que se chama beleza isso, que eu vi nela da fila do caixa até aqui. A única explicação que consegui encontrar foi o sorriso desarmado, sincero, se é que se pode chamar sincero quem não fala nada. A garota que pediu algo para beber antes de mim era séria e pelas roupas se via que era uma chata. A que estava sentada de frente para mim, por coincidência, posto que eu cheguei depois, era sorridente e tinha um sorriso sincero, por vezes meigo, por vezes divertido. Era tão divertida que se vestia com roupas de chata, porque gostava. 

É gostoso fazer essas suposições sobre quem a gente não conhece. Todo mundo pode ser fascinante assim. Conhecer de verdade pode ser, e creio que na maioria das vezes seja, decepcionante. Fiquei melancólico de repente. O sorriso dela não parecia o de alguém decepcionante. Pelo contrário, tendia ao promissor. Prometia o surpreendente. 

Guardei o tablet, meu filme começava em vinte minutos. Vesti o agasalho para não carregá-lo na mão. O cinema podia estar frio também, ar-condicionado. Joguei minha sujeira no lixo e pus a bolsa nas costas, evitando olhar de novo para a mesa das garotas.

Pedi um chá gelado para me acompanhar durante o filme. Demorou a ficar pronto. Demorou todos os vinte minutos. Bastante gente à minha frente esperando por bebidas mais complicadas e bonitas. Esperando me chamarem, caminhei uns três passos para fora do café, passando a mesa onde estavam as garotas. A do sorriso podia me ver se olhasse à esquerda como eu fiz para vê-la antes. Mas ali eu ficava de costas para ela. Não queria que ela me pegasse de novo sem graça, por ver um sorriso bonito numa garota comum e não fazer nada. Ainda mais com meus olhos avermelhados pelo livro.

Fingi ver o movimento em vez de pensar. Aquela joalheria me chamou a atenção. Por mais que alguém tenha dinheiro para gastar em presentes, jóias têm de ser presentes apenas para ocasiões muito especiais, pensei. Lembrei que a garota do meu livro não ligava tanto para o anel de noivado. Mas ela sonhava com pompa e circunstância para o pedido de casamento. Eu, no lugar do vacilão do livro, gostava de lhe dar isso. Para lhe ver feliz. Embora não seja minha cara. Minha cara é de fazer coisas bem simples e discretas. E acabar chorando rs

Olhei para o balcão, se já me tinham chamado. Não, não tinham. Olhei de volta para a joalheria. Medo da garota sentada perceber o que eu pensava.

Eu vi alguns colares postos naqueles bustos, parecidos com manequins. Acho que são as únicas jóias que eu realmente gosto. Colares. Talvez brincos também. Mas minha cara mesmo é, num dia muito, muito especial, chegar por trás de dois ombros lindos, um pescoço lindo, um colo lindo, pousar minhas mãos de leve, fazer um carinho e bem devagar colocar-lhe um colar. Um colar simples, delicado, que nem pense em competir com a beleza do colo onde lhe será permitido pousar. Não se considere ele um enfeite. vai ficar ali só para contrastar. Enfeites mesmo são os ombros onde eu faria carinho. Um abraço, um beijo no pescoço, um olhar no espelho, haveria um espelho ali à frente. Opa, melhor acordar antes que leiam meus pensamentos.

Voltei ao balcão, evitando olhar a mesa das garotas. Esperei mais uns dois minutos por meu chá e subi a escada rolante pro cinema. Aquela garota me olhou, sem reação nenhuma, enquanto a escada subia.

Ah, o filme foi uma bobagem sem tamanho! A cada semana sai um igual.

Jurassic World (2015) – trailer

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