Cinema

Kış Uykusu (Winter Sleep)

Consegui a tarde livre no trabalho. Ter a tarde sem precisar prestar contas a ninguém é um sonho de consumo muito caro! O mais caro talvez. Ficou claro que eu devia fazer algo que não poderia fazer noutra situação. Fazer algo escondido, algo proibido.

Quase todo mundo foi embora. Ninguém queria almoçar. Ficamos apenas eu e um colega. Havia tempo de sobra. Início da tarde ainda. Uma das coisas de que mais gosto é comer. Mas, neste frio, garoa fina, tem de ser comida quente. Almoçamos numa filial de uma cantina de que eu gosto. Massa e polpetone, adoro o básico. Conversamos das coisas do trabalho, da vontade de ganhar dinheiro e não trabalhar. 

Duas tias, modo de falar, tinham entre quarenta e cinquenta anos, bonitas, almoçavam na mesa ao lado. A mais nova, eu a via de lado, me chamou a atenção. Acima do peso, bem acima, mas com o corpo ainda assim bem feito. Olhei-a algumas vezes. Mas quem me percebeu olhar foi a mais velha, do outro lado da mesa, que me via de frente. Bonita. Lembrei-me de um comentário que ouvi algumas vezes de um colega jovem ao se surpreender com a beleza de uma mulher mais velha: “Uma senhora MILF!”. Soa vulgar para alguns. Mas no contexto do garoto é apenas a é evidência de que ele percebeu a beleza dela. Rosto muito bonito. Corpo magro, bem feito, mas normal, normal demais.

Nossos olhares se cruzaram algumas vezes quando olhei para sua mesa. Ela não demonstrou incômodo. Temi eu demonstrar incômodo e ser indelicado. Espero não ter sido. Percebi que conversavam sobre doenças degenerativas e insuficiência de determinados órgãos. Não sou o tipo que se incomoda com essas conversas à mesa. Mas lembrei-me de minha mãe. Besteira, elas tinham minha idade ou pouco mais. Havia muita diferença dali a minha mãe. Mas lembrei-me dela e de outras mães e de como, com a idade, passam a se interessar por conversar sobre doenças. Tenho medo de ficar assim, um dia ficarei talvez. Me incomodou que em todas, a única, vezes em que vi essas mulheres bonitas elas estarem falando em doença. 

Comida boa, conversa boa, vizinhas de mesa bonitas. A conta chegou e tivemos de ir embora. Voltei ao escritório apenas para pegar algumas coisas que tinha deixado lá e tocar contatos de conhecidos com o amigo. Despedimo-nos.

Fora do prédio, a oportunidade e o querer fazer algo eram quase como uma obrigação. Ja a disposição e a vontade não eram desse mesmo tamanho. Para não perder tempo, entrei no shopping ao lado para comprar algo de que precisava, não me lembrei de quê. Saí sem comprar nada. Lembrei-me de ontem, de caminhar ao fim do dia, mas ter de parar e voltar para casa por causa da chuva. Já não chovia mais. Acendi um charuto, o segundo da semana, demais para quem fuma só um a cada dois meses. E comecei a caminhar.

Era bastante cedo ainda, antes do meio da tarde. Lembrei-me de perder tempo no café, gosto disso, ver pessoas com quem não vou falar. Dá para andar até meu café preferido, no fim da avenida. Tem o teatro ao lado dele. Eu queria tempo de dia para passar na bilheteria e comprar ingressos. Hoje tinha.  

Continuei andando, devagar, baforando quando achava conveniente, quando achava que não ia incomodar ninguém. Preocupação boba. Pensei na barba, minha barba malhada de preto e branco, que estava mal aparada e, agora, cheirando a charuto. Ao menos é cubano, consolei-me. 

Passaram duas garotas. Uma muito feia é muito escandalosa para falar. A outra, bonita e, ao menos aparentemente, delicada. Num primeiro momento, julguei sem um casal. Percebi depois que não eram, embora a feia claramente quisesse que fossem. A bonita inclusive, apesar de se divertir com a caminhada e a conversa juntas, claramente demonstrava desconforto quando a outra tentava tocar-lhe ou falar mais de perto. 

Dali ao fim da avenida, uns dois ou três quilômetros, passei-as e elas me passaram também algumas vezes. Em todas, tomei cuidado de minha fumaça não chegar ao cabelo da bonita, era ruiva. Garotas bonitas têm seu perfume. Ele faz parte de sua beleza e deve ser respeitado. Seus cabelos não são como barba grisalha de tio.

Passamos por uma manifestação, cinquenta ou cem pessoas que, como eu, não precisavam trabalhar naquela sexta-feira à tarde. Tinham alguns panos vermelhos com referências comunistas. Meu charuto incomodou um rapaz. Ri. Achei engraçado que, da terra de Fidel, lhe incomodasse a fumaça do charuto. O bom de não ser partidário de ninguém é ver de fora o que há de engraçado em todos. E todos os partidários são engraçados.

Um quarteirão depois da manifestação, meu caminhou parou de cruzar com o das meninas. Atravessei a rua e andei mais um quarteirão da travessa até o hotel onde fica o teatro. Andei mais, meio quarteirão até o cartaz de anúncio da peça. Dei a última baforada. Já estava no toco o charuto. Um charuto desse tamanho, pequeno, devia durar umas duas horas. Esse durou trinta minutos, e sem um conhaque para umedecer a boca. Sinal de pressa ou inquietação. Sou uma pessoa nervosa. Tenho saudades do tempo em que menus amigos brincavam de me provocar, tentar me tirar do sério, e não conseguiam. Joguei no canteiro o toco do charuto. Uma placa dizia para não jogar bituca de cigarro porque bituca não é adubo. Bituca não, mas charuto sim. São folhas e cinzas de folhas, é um bom adubo, o correto é jogar na terra úmida.

A porta estava trancada é um papel indicava a entrada para eventos pela rua de trás. Desci até a esquina e entrei. Eu já havia estado ali para uma apresentação de um colega de trabalho, cubano, ex-chefe, agora amigo, o mesmo com quem fumei meus primeiros charutos. Não encontrei a bilheteria. Nem uma recepção do hotel. Perguntei a um homem que estava numa mesa de exceção de algum evento. Com dificuldade em falar português, ele me indicou que subisse a escada rolante.

Subi dois lances. A menina da bilheteria me atendeu conversando ao telefone. Não havia ingressos para bons lugares nas datas que eu queria. Peguei para o próximo mês. Ainda assim, não os lugares que queria. 

Alguns colegas teclaram que estava, na zona. Sabiam que é perto do meu caminho. A conversa e o uísque batizado eram tentadores mas, descendo a travessa para o lado contrário ao do hotel, em direção à zona, fiquei no cinema. Canceláramos sessão do único filme que eu queria ver. Comprei ingresos para outro. Um filme turco, ia atirar no escuro.

Passei no bar da esquina, bebi um conhaque vagabundo para umidecer a boca e a língua, revezando com um café. O café dali é coado e não tem açúcar. Voltei correndo ao cinema para não me atrasar.

Lugar no fundo e no canto. O último lugar no último canto, lá atrás, aqui atras. O filme tem imagens lindas! Das montanhas, da estepe, da neve, as casas contraídas a partir de cavernas. É bom. Devagar e longo, mais de três horas, cochilei algumas vezes, mas bom. Enquanto assisti, escrevi quase tudo isto.

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