Cinema

Desert Dancer

2014 - The Desert Dancer

É a sexta-feira do fim-de-semana do plantão. Quer dizer que, se não for esta noite, cinema só daqui a uma semana. Não é tanto pelo ir ao cinema, acho que faz-me falta mesmo é passar um tempo fora de casa à noite.

Eu voltei àquele cinema na goma da minha mãe. Antes de sair de casa separei os filmes que podia assistir. Fui para lá sabendo que tinha um deles entre as onze e a meia-noite. Mas não tinha certeza de qual.

Quando cheguei lá, já na bilheteria, foi que olhei. Era um filme sobre um dançarino iraniano. Eu já vi uns dois ou três filmes iranianos. Achei todos bons. É engraçado. Talvez por não serem tão badalados, só os que são realmente bons chegam aqui. Eu arrisquei este meio no escuro, embora o tema me sugerisse uma boa chance de filme chato metido a arte.

Tinha duas horas ainda pro começo da sessão. Deu tempo de comer um hambúrguer e tomar três chopes numa lanchonete grande no começo da rua. A caminhada foi pequena. No caminho, cruzei a rua onde minha mãe foi criada e morou até se casar, passei por alguns barzinhos cheios de colegas em happy-hour e casaizinhos se preparando para o fim-de-semana de namoro.

Também passei por vários grupos de duas, três, quatro garotas, saindo para a primeira balada da rodada. Poucos homens. Curioso isso. Quando se é solteiro, me parece, a semana de trabalho é gasta na expectativa do fim-de-semana chegar e ir para a balada arrumar alguém. Mas lá estavam só as mulheres saindo. Talvez fosse característica do bairro, ou alguma coisa do ritual de solteiros que eu não conheça. 

Ao lado de um dos barzinhos, um de esquina, com dois ambientes separados pelas geladeiras de cerveja mais as mesas da calçada, que podem ser consideradas um terceiro ambiente, de escudo da Portuguesa na parede do fundo do balcão, na porta de correr do lado, sobre ela, o letreiro do antigo cinema que minha mãe e meus avós frequentavam. Não o letreiro original. O cinema, quando o conheci na década de noventa, já tinha outro nome. Era esse o nome no letreiro. A porte de correr estava fechada, luzes apagadas. Esta fechado já há alguns bons anos, desde que as grandes redes de shopping chegaram. Do lado de fora, não fosse o letreiro, seria difícil imaginar que isso já foi um cinema. É um sobrado, pequeno. Olhei pelas festas da porta de correr. Dentro, no escuro, dava para ver um pequeno balcão, devia ser a bilheteria e também o pipoqueiro. Passando ele, uma escada à esquerda. Parecia não haver porta nem nada mais que isso ali embaixo. Tudo muito limpo e arrumado. Alguém ainda cuida da limpeza e conservação. Será que vai reabrir? A sala deve ficar na sobre-loja e ter mais ou menos o tamanho deste terreo, que me parece pouco mais que uma garagem pra dois carros. 

Mais uns dois quarteirões e a lanchonete, com espera por mesa. Odeio esperar. O senhor que me traz o sanduíche é o de todas as vezes, tem mais ou menos a idade de minha mãe – será que se conhecem? Só agora me ocorreu isso – cabelos bem pintados de preto.

Comi, bebi. Não cheguei a encher a cara. Voltei ao cinema, esperar a sessão. Passava já das dez. A rua já estava bem mais vazia, embora os happy-hours parecessem ir longe.

Pedi um copão de café. As meninas fizeram na hora para mim, pediram desculpas. Imagina, desculpas por me servirem café fresco! Agradeci a gentileza. Elas me desejaram boa noite, simpáticas. Sentei-me no jardim do condomínio. Nas mesinhas do café, com vista para o jardim. Goles pequenos. O café durou essa uma hora que faltava até o filme, e ainda sobrou um monte que eu larguei sobre o lixo, para não beber frio no cinema. Daria azia. Ao menos é o que diz minha mãe.

Muitos comerciais ao início da sessão. O filme começou e eu gostei. Acho que é inglês, e não iraniano. Até porque é em inglês e não em farsi ou árabe. A história tem um roteiro meio de filme americano: o menino quer, não deixam, ele mete a cara, se fode, no final tem um lapso de superação. Mas, eu que nunca vi graça em dança, o que me encantou nele foram as cenas de dança. Talvez pelo modo como fluem, emersas da história, me encantaram como se fossem música, como se fossem a música que as acompanhou.

Na volta pra casa, eu tomei o cuidado de errar o caminho e curtir um pouco a sensação, antes de chegar em casa, tomar banho e me deitar.

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