Cinema

La tête en friche

La tête en friche (2010) - Poster
La tête en friche (2010) – Poster

C’est pas parce qu’on est inculte qu’on n’est pas cultivable. Il suffit de tomber sur un bon jardinier.


Ultimamente eu tenho esperado muito pelos fins-de-semana para poder passear no cinema e jantar em algum lugar legal. Esta semana eu até quis abrir uma exceção e fazer isso já na quinta-feira. Mas, olhando a programação dos cinemas, não encontrei nada que eu realmente quisesse assistir e troquei o cinema que pensei para a quinta-feira por um café. A culpa disso deve ter sido deste blog. Listei todos os filmes que assisti desde o meio do ano passado e percebi que de pouquíssimos deles eu me lembro. Me lembro de que a maioria foi ruim e repetitivo.

Ainda assim, chegou a sexta-feira e eu listei tudo o que poderia assistir, inclusive teatro, mesmo que não me interessasse por nada, tinha de arriscar. Cheguei bem cedo do trabalho, dia de rodízio. Mas ninguém quis sair comigo. Estranho sair sozinho pro cinema. Não fiquei chateado por não ir, mas por não ter companhia.

Esperei o fim do horário do rodízio e saí desanimado. Na rua já, me lembrei que não devia ter saído de carro. Não dá pra beber o vinho do jantar. Mas também, é deprê jantar e beber sozinho. Mais do que o cinema, que é escuro, e onde dá pra se esconder.

Pensei em só comer um lanche. Se mudasse de ideia e resolvesse ir ao cinema, tomava uma cerveja e pegava a última sessão. Teria umas seis horas para sumir com o álcool dela. Deve ser o suficiente.

Demorei chegar à avenida. Manifestação dos ciclistas. Uma confusão, ciclista pela contramão, pela calçada, por todos os lugares onde é proibido. Se atirando e atropelando os pedestres. Fiquei imaginando se não era sobre essa falta de educação própria que eles se manifestavam. Claro que não era. Eu devia ter vindo de metrô. Vacilei.

La tête en friche (2010) - Still
La tête en friche (2010) – Still

Mas consegui chegar num horário em que já podia estacionar na rua. Estacionei numa das minhas vagas costumeiras, em frente à banca de jornal. Agora tinha de saber o que fazer. Reconsidero o cinema? Não, pelo menos agora ainda não. Passei em frente a um de meus restaurantes preferidos. Cantina. Cantina sozinho não dá. Reconsiderei o lanche. Mas bar sozinho na sexta-feira à noite também não dá. Me lembrei de um colega que, quando fazíamos happy hour, ficava fazendo piada com os “sem amigo” que via.

Eu tinha de comprar chocolate. Acabei com todo o chocolate de casa, ontem à noite. Precisava repor. Mas a loja que conheço estava fechada.

Pensei em tomar só um café, bem longo. A culpa mesmo era dos cinemas que não tinham nada muito interessante em cartaz. O problema do café é que eu não conseguiria me ocupar a noite toda com ele.

Na esquina, me lembrei de quando trabalhava por ali é que comprava chocolate e vinho no Pão de Açúcar. Eu podia comprar chocolate, meia garrafa de vinho, tomar café, depois beber o vinho em casa assistindo algo no Netflix. Tinha até já escolhido o filme ontem, quinta-feira.

É um filme com o Gerard Depardieu, “La tête em friche”, que em português virou “Minhas Tardes com Margueritte”. É sobre uma sujeito é uma senhora que se sentam na praça à tarde, puxam conversa e fazem amizade.

La tête en friche (2010) - Still
La tête en friche (2010) – Still

Comprei o vinho e o chocolate. Couberam na minha bolsa. Reparei nos casais que se pegavam nas mesas de esquina. E também no sex shop do outro lado da avenida. Engraçado, há muito mais ação na calçada do bar, nas mesas da esquina, do que no sex shop. Eu ia sorrir, mas passou um sujeito ali na multidão, espremido como todos, mal encarado, apressado, bravo. Puxava uma garota muito bonita pela mão. Puxava é modo de falar, a puxaria se ela não apressa-se o passo para segui-lo. Não minha cabeça, ele era obviamente o namorado dela, mas era também, igualmente óbvio, homossexual. A roupa e os trejeitos ao andar nervoso o denunciavam. Devia estar irritado com a multidão. Veio andando em minha direção, abrindo caminho. Visivelmente queria trombar como se dizendo para eu sair do caminho. Levei o ombro à frente, esperando a trombada, e o encarei. Não sei o que ele pensou, mas virou o rosto para a rua bufando e tratou de dar a volta em mim com cuidado para não me encostar. A menina, puxada pela mão, feito cachorro na coleira, encostou. Ao passar, trombou, de frente, meio corpo, no meu. Passou o rosto para o outro lado do meu como se fosse me abraçar. Passou o rosto pelo meu. Tentou me beijar. Acho que de brincadeira, mas estava séria. Não deixei. Abaixei a cabeça e virei o rosto para o outro lado, evitando-lhe a boca. Não entendi nada. Apressei o passo para sair dali.

Os ciclistas já estavam terminando de se dispersar, pelas calçadas e pelas contramão. Só havia ainda alguns poucos, bem poucos, tirando selfies. Acabei nem vendo o protesto em si.

Entrei no café. Pedi um café bem grande e um chá maior ainda. Meu café ficou pronto. Enquanto esperava o chá, reparei na tatuagem que aparecia pelo decote e nos brincos da menina bonita que o preparava. Quando ela foi buscar gelo, vi que não eram brincos, mas dois buracos grandes, do tamanho de moedas de dez centavos, deixados por aqueles brincos alargadores. Fiquei sem graça. Ela riu, de eu ficar sem graça. Não sabia porquê. Deve ter pensado que eu estava lhe paquerando, ou sei lá como se diz isso hoje. Será que a molecada de hoje não paquera? Desenvolveram algum ritual mais objetivo?

La tête en friche (2010) - Still
La tête en friche (2010) – Still

Sentei-me na sobreloja, do lado de fora, junto à escada, no aberto, para poder tomar ar e ver o céu.

Pensei em escrever mas não tinha ideia do quê. Lembrei-me do que escrevi sobre um filme e de reblogá-lo aqui. Fiz isso e, sem ideias, peguei o livro que trazia na bolsa.

Esse livro me está rendendo, pode-se dizer que uns dez anos. Comecei a ler, com dificuldade pois não gostei dele. Lia no ônibus no caminho para o trabalho. Mudei de emprego, parei de pegar ônibus e o deixei de lado. Nas férias, há uns dois ou três anos atrás, peguei-o de novo da estante, continuei de onde estava o marcador de páginas, me recordava de quase tudo, mas, logo, deixei-o de lado de novo. Agora no começo do ano, levei-o novamente para as férias. Mas, desta vez, perdi o marcador de páginas e comecei tudo de novo. Estou me policiando. O autor é norueguês, ele deve ser bom, mas a tradução é muito mal feita. Imagina quanta coisa lemos traduzida e formamos opinião sobre o autor sem ter realmente lido do jeito como ele escreveu. Não gosto de ler traduções, por causa disso. Não gosto. É o caso deste livro. Ele é pequeno. Umas cento e oitenta páginas. Li vinte agora, faltam dez. Houve um tempo em que eu lia trezentas páginas por dia. Nesta idade, me esforço pra ler estas vinte, e nem é todo dia. Atualizo o status da minha leitura no Goodreads. Acabo o café, já estou aqui há quase uma hora. Olho para o céu, neste canto, espremido ao lado da escada, só dá para ver um pedacinho. Noite cinzenta, nublada. A lua brilha sem força.

O chá já está gelado, o gelo está acabando de derreter. Queria escrever. Me lembro de uma lista que comecei a escrever. Coisas que eu queria fazer antes de morrer. Abro a lista e escrevo mais coisas. Agendo para publicar daí a pouco, depois da meia-noite, já no sábado.

Me lembro de que vou assistir o filme e que, depois, vou postar sobre ele. Meus posts sobre filmes são, na maioria, vazios. Começo a escrever este post, para me lembrar como foi que resolvi assisti-lo. É assim que tomo meu chá.

Vou para casa por um caminho mais longo, alternativo. Parece que se formou trânsito de novo. Talvez uma remanifestação. Cheguei rápido. Menos de dez minutos, sem correr, não preciso correr, pelo contrário, enrolaria, iria a pé tomando ar para passear mais.

La tête en friche (2010) - Still
La tête en friche (2010) – Still

Em casa, tomo banho, abro o vinho. Pego o copo velho de geleia. Não uso taça. Fui criado tomando café no copo de extrato de tomate. Ter um de geleia para o vinho serve-me muito bem.

Abro o notebook, no colo mesmo. Na televisão, está o jornal, sem som. O tal do German é um sujeito simplório. Vive no quintal da mãe, num trailer abandonado por um ex-namorado dela. A mãe o trata com indiferença, quando está bem, senão é agressiva mesmo. Tem fama de burro, os amigos não o respeitam. Mas é um cara muito bom, de coração enorme.

Da vontade de abraçá-lo rindo na cena em que ele tenta consolar a mulher do bar, mas só consegue falar besteiras e deixá-la mais nervosa.

As coisas boas de sua vida são a namorada, que ele nem sempre sabe agradar, não porque não queira, mas porque não tem o trato de saber o que falar e como falar. Ela entende isso e o admira pelo que sabe que ele é. Também sua horta, que ele cuida e vê, satisfeito, florescer desses cuidados. Os pombos do parque, que ele conta todas as tardes para ver que não falte nenhum. Deu-lhes nomes, conhece-os um a um pela aparência e pela personalidade.

Foi por eles que conheceu outra coisa boa: Margueritte (avec deux t’s). Ela também gosta dos pombos e senta-se no banco da praça para ler e vê-los comer.

Ele tem entre cinquenta e sessenta anos e se acha um ignorante irrecuperável. Ela tem noventa e cinco e já não espera muito mais do que conseguir terminar o próximo livro.

Só parei o filme quando já faltavam uns quinze minutos, para ligar o notebook à tomada antes que hibernasse sem bateria. Enchi o copo de novo e terminei de assistir, tout de suite. Terminei com aquele sorrisão bobo de quando gosto do filme.

 

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