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unfamous last words

Eu estava triste por nada em especial. Não é preciso motivo especial para estar triste. Acho que todo mundo com consciência ficaria assim sempre se sempre pensasse na vida. Se pensar bem, os momentos bons são tão poucos no meio de tanta merda e marasmo que parece ingênuo e mesmo simplório dizer-se feliz. Eu não penso na vida. Já passei disso. Invejo os bobos-alegres que pensam nela menos ainda e se dizem felizes. Mas estou divagando em filosofias que não domino. Não me deêm ouvidos.

A história, como aconteceu, é que eu estava triste.

Acordei assim. Continuou assim ao me despedir da namorada no saguão do metrô. Ela ia pegar o metrô, eu o ônibus. Não ajudou ela, na descida escada rolante para o saguão da estação, virar-se de costas para mim. Foi a primeira vez que me lembro de pegarmos uma escada rolante sem nos beijarmos. Foi também a primeira escada rolante desde que moramos junto. Ao fim da escada, só disse tchau e correu como o resto das pessoas, desconhecidas para mim, que corriam para chegar o mais rápido possível ao trabalho. Ela passou a catraca e foi embora, sem o romance da despedida dos tempos em que não sabia que me veria em casa à noite. Quando a despedida, por curta que fosse, era uma despedida.

Peguei o ônibus um ponto antes do metrô, para evitar a confusão de tanta gente se espremendo para subir. Coloquei os fones para ouvir música, abri um livro. No ponto do metrô, olhei a ver o tamanho da fila que eu havia conseguido evitar. Fila, não, confusão. Brasileiro não faz fila, se acotovela e acha trouxa quem tenta ter educação. No ponto seguinte, uma amiga do trabalho subiu.

É uma garota muito bonita. Nós damos muito bem, talvez porque eu seja o único que conversa com ela sem dar em cima. Tirei os fones e deixei que ela se sentasse onde eu estava. Fiquei em pé a seu lado. E ela, sentada, puxando uma conversa para a qual eu, sinceramente, não tinha paciência. Ela se divertia contando como infernizava o namorado, principalmente por ser friorenta, veio de Resende para São Paulo por isso, e ele calorento e ela se recusar a dormir, mesmo no verão, sem seu cobertor elétrico. Pensei que essas coisas nem existissem de verdade. Vi alguns só em desenhos animados muito antigos.

Mandei um SMS para a namorada. Para tentarmos passear na saída do trabalho, só andar conversando e beijando, e jantar um pedaço de torta, como fazíamos até duas semana atrás, antes de ela se mudar lá para casa.

Descemos no ponto de ônibus em frente ao trabalho, do outro lado da avenida. Só tínhamos de atravessar rápido porque o semáforo na dá tempo suficiente. Minha amiga, nos últimos metros da travessia, agarrou meu braço. Reflexo do medo de o semaforo abrir antes de conseguir chegar à calçada. Ela já fez isso de outras vezes e eu sei que o pessoal do trabalho que viu comentou sobre chegarmos juntos de braço dado. É besteira. Veêm um buraco de rato e imaginam um elefante saindo de lá. De qualquer modo, eu também não me sinto à vontade quando ela encosta em mim.

Trabalhamos em andares diferentes. Ela desceu no seu, eu no meu. O trabalho pela manhã é muito tranquilo. Escritório brasileiro de uma empresa americana. O escritório de Nova Iorque só abre na hora do almoço, México e Buenos Aires também (parece que os argentinos são bem dorminhocos).sem ninguém dos escritórios maiores com quem interagir, a manhã chega a ser chata: conferir se não houve nada errado durante a noite, responder e-mails, ler o jornal editado internamente pela empresa e procurar pela internet como está meu time.

Os colegas de sala me acham quieto, fazem piada. Uma delas é uma borracha que me acerta a nuca. Tinha um colega meu na escola que gostava de me provocar durante a aula me tacando pedaços de giz. Um dia, ele me pegou chateado com algo, catei um pedaço que caiu em cima de minha mesa e taquei nele com toda a força, para machucar mesmo. O giz passou ao lado do rosto dele e acertou, cinematograficamente, o copo de água da professora. Eu imagino a cena como vista por ela. Ela apenas me perguntou porque eu fiz aquilo e eu só pedi desculpas. Deve ter sido tão evidente para ela que havia algo errado, que o incidente não passou disso.

Me lembrei desse giz é desse copo porque taquei a borracha longe também, na direção de onde ela veio. Ela ricocheteou na parede e derrubou um porta-retratos na mesa do gerente. Ele não estava lá. Se estivesse, seria mesmo o primeiro de quem desconfiaria ter vindo a borracha. Desliguei minha estação sem cuidado e saí para tomar café. O garçon, tínhamos garcon na empresa, me ofereceu uma bebida (sim, podíamos beber no escritório, havia um bar no café). Não era o caso. Só quis café.

Outra colega veio me perguntar se eu tinha algum problema. Ela deve ter notado algo estranho, que eu não note. Digo que não tem nada e lhe faço um carinho. Nela posso fazer, a diferença de idade é grande (sou uns cinco anos mais velho), é evidente que não rola nada, mas fazer-lhe carinho mata minha vontade. Ela não gosta de café, pega um chá, olha a janela e diz que eu posso ficar sozinho, mas que lhe diga se houver algum problema.

O almoço é insuportável. Os colegas falando asneiras sobre carros e as mentiras das baladas do fim-de-semana. Dou uma desculpa esfarrapada de que preciso ir ao banco e me meto num bar para comer um lanche. Minha mina finalmente responde o SMS. Diz que vai voltar cansada pra passear e que torta não é jantar.

O trabalho à tarde é corrido. Telefone toca, ora em espanhol, ora em inglês. A empresa está consolidando os escritórios, ao menos um vai fechar, e o de São Paulo é o menor. À tarde inteira, cada ligação é uma discussão de alguém de um escritório tentando desqualificar o trabalho do outro. Eu não tenho porque me preocupar com isso. Já arrumei ouro emprego, na nova empresa de nosso ex-gerente. Começo na próxima semana. Mesmo assim me irrito muito com a forma infantil das pessoas brigarem entre si assim. É demais para minha cabeça.

Em determinado momento de uma ligação, me revolto com um colega brasileiro que mente descaradamente para criar dificuldade a outro colega argentino. Para não xingar, bato o telefone e saio. Bato também a porta do escritório atrás de mim. O segurança me olha sobressaltado mas não fala nada. Cenas parecidas são comuns ali.

Saio rápido do prédio. Chego à rua com pressa. Lá, parece que me olham. Acho que percebem minha pressa. Começo a andar devagar, dissimulando, fingindo a calma que não tenho. Desço a rua ao lado com as mãos nos bolsos, olhando as vitrines. Na verdade, não as olho, só viro o corpo e os olhos em direção a eles, nem sei o que têm. Quero que pensem que é pra isso que estou andando. Passeando e vendo vitrines.

Escurece e estou no fim da rua. Já há puteiros abertos. Nunca entrei num, nunca precisei nem quis. Logo ao entrar já me arrependo. Não tenho o que fazer ali. Algumas garotas vêm se oferecer. Recuso envergonhado. Não sei porque entrei. Vejo o bar e me sento, peço uma bebida, outra, outra. Outra. Saio depois de algumas.

Me sento na calçada. Quando percebo tenho só um toco charuto na mão. Estou bebado que é difícil até de me sentar sem antes cair. O chão está imundo, mijo dos adolescentes baladeiros e merda de mendigo para todo lado. Fede. É de se admirar que eu perceba. Mas não percebo, só sei. E também só fico ali. Não choro, não porque homem não chore, mas porque o choro acabou. Não há mais o que ou de onde sair. Só fico ali jogado. E jogo a cabeça para trás procurando algo: ar, alívio  o choro que não tenho. Lamento não estar mais sentado no bar do puteiro. Mas o lamento só dura uns segundos até sentir que a barriga arde e dói de tanta bebida.

Lamento então nunca ter me interessado por drogas. Alguma delas haveria de ser-me útil agora. A cabeça pende e eu a jogo de novo para trás. Ela bate na parede e não dói. A caixa craniana vibra com a pancada. Deixo a cabeça pender mais duas vezes e a jogo para trás de novo, violento. Não sei de qual lado do rosto, mas sinto melado na bochecha. Passo a mão, é sangue. Demora para, passando a mão, eu perceber que vem da cabeça que eu abri batendo na parede. Minha pressão cai. Sinto vontade de desmaiar (é um alivio que sinto agora). Temo não ter sido alívio o sificiente e que só vou cair ou que, se realmente desmaiar, será um desmaio passageiro. Abaixo a cabeça bem no meio dos joelhos e jogo para trás de novo, com toda força, uma, duas, três vezes. Tenho pressa. Tenho de conseguir antes que algum filho da puta resolva me ajudar. Jogo a cabeça para trás de encontro à parede de novo, com a força que consigo. Vejo a calça lambuzada de sangue. Jogo mais a quarta e a quinta. Na sexta, estou já tão tonto que erro a parede e caio de lado. Não estou mais conseguindo ficar acordado. Ficaria em posição fetal se tivesse força para me enrolar. Meu corpo todo adormece. O nariz cheira sangue. Vejo só branco. Branco. Dizem que há uma luz. A luz. Eu preciso ver logo a luz…. Olhar pra ela. Antes que algum filho da puta tente ajudar…

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