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Hoje eu estou com vontade de escrever uma história. Mas uma história sem começo nem fim. Só um trecho talvez, um capítulo, alguma página de algo maior e que, quem leia ali, fora de contexto, talvez não entenda e diga que “não tem história”.

Haveria de ter um casal, sempre há de ter um casal. Ele estaria um pouco triste. Ela não, mas acabaria ficando um pouco, por ele. Estariam conversando em pé. Onde poderiam conversar em pé por bastante tempo? Sei lá, talvez na fila para um show. Terça-feira tem um show que eu gostaria de assistir, mas não vou. Pode ser a fila para entrar no show. É interessante, um casal que tem em comum o gosto musical. Estão na fila e conversam.

É noite, a fila é do lado de fora, rodeando o galpão que é a casa de espetáculos. Estão perto do começo da fila, junto à parede, caiada por fora. A parede tem umas pequenas saliências, provavelmente são as colunas. Ela está encostada na quina de uma para melhor se proteger da aragem e de uma umidade já se condensa. Não usa agasalho. Lá dentro estará muito quente e não faz sentido segurar agasalho enquanto pula e canta junto com a banda. Ele, também sem agasalho, também encostado ao muro. Apoiado, muito perto dela. Os ombros estão encostados, os rostos quase se tocam, de modo que podem conversar a sério, baixinho, sem que nem mesmo os que estão mais próximos na fila os possam ouvir.

Nesse ponto, ela, para tentar lhe distrair, reclama do frio e lhe passa a mão pelo braço, para ilustrar quanto frio sua pele sente. Ele sorri amarelo e ela lhe arruma com carinho o cabelo despenteado que invade a área em frente ao rosto. Demora nisso enquanto ele fala algo, baixinho. 

Seria então que os olhos dela se entristeceriam e ele imediatamente se arrependeria do que disse. Pedir-lhe-ia desculpas com palavras que eu não teria escutado. E fecharia os olhos.

Com a mão lhe que mexia nos cabelos, ela seguraria sua cabeça. Ele seguraria o braço dela sentindo-o gelado pela sereno e teria vontade de chorar por não o tê-lo aquecido ainda. Deslizaria a mão para trás dela, tentando abraçá-la, seus rosto se tocam. Não era sua intenção, mas em vez de alcançar-lhe com a mão as costas, tocá-a o lado do corpo, entre o colo e a cintura, ao mesmo tempo em que ela, com a outra mão, o abraça e descansa o rosto no seu. 

Ambos falam baixinho algumas coisas que ainda não são conseqüência disso. Enquanto as falam, ele percebe a diferença de centímetros na posição que sua mão alcançou e a intima diferença que isso acarreta. E percebe que ela não evitou, pelo contrário, achou mesmo que ela se aconchegou mais à vontade quando se viu segura por suas mãos quase pela cintura.

Ele não teve coragem de abrir os olhos. Os dela, não vemos para saber como estavam. Mas sabemos que sentiram nos rostos um o calor da respiração do outro e que ele passou-lhe a mão para as costas. Como se a puxasse para si, soltou o corpo e deixou-se encostar todo nela. Sentiu, pelo calor da respiração,  que os cantos de seus lábios se tocariam. 

Ele evitaria isso. Não porque não quisesse, mas porque tinha uma coisa mais importante a fazer antes. Ele evita que os lábios se toquem, encostando os seus na orelha dela: “Eu quero fica com você. Bem junto. Eu quero ficar bem junto de você tudo que a gente conseguir.”

Ela mexeria um pouco o rosto para lhe falar algo ao ouvido também, sem ainda sabe o quê. Mas isso ao mesmo tempo em que ele voltava os lábios da orelha. E percebendo os narizes se encostando, desistiu de falar.

Antes de se beijarem, vacilariam um pouco, tentando se abraçar melhor, sem fazer força, sentirem juntos e imaginar o que mais viria depois. Do beijo mesmo, não se lembrariam mais tarde. Lembrariam-se do que sentiram e dos porquês.

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