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Castelo

A professora disse que era hora de brincar.

A maioria das crianças, nesta hora, se acotovela, selvagens mesmo, atrás dos brinquedos mais atrativos. A maioria. Mas sempre há ao menos uma que não.

Tem um menino que se incomoda com esse comportamento, malcriados os outros. Ele espera para se servir depois. A professora se incomoda é com o comportamento dele: vai lá brincar. Ele vai brincar, mas com educação. Ofende-se mesmo com a complacência dela com o comportamento dos outros. Mais que complacência, parece incentivo. Ela, de certa foma, o incitava a fazer igual. Muitos adultos são assim. Assumem que o papel da criança é fazer errado e, convenientemente, se deliciam com isso, saudosos, esquecendo que o do adulto é ensinar a fazer certo. Ele não consegue deixar de pensar que os mal criados e briguentos, são muitas as cotoveladas e empurrões, são premiados com os brinquedos mais legais.

Quando terminam de pegar esses brinquedos e sobram só os que ninguém quer, ele, também por conveniência sua, reconhece, encontra nas prateleiras outra brincadeira. Não os brinquedos chatos e quebrados. Lá ficaram caixas. É provável que tivesse gostado de ser o primeiro a escolher e pegar o brinquedo que lhe desse na telha. Mas não foi. Em vez disso, encontrou no que achou uma utilidade que pareceu-lhe divertida, construir coisas com as caixas. Ali até havia mesmo um pote de blocos de montar, mas brincar com eles, desprezados pelos outros, seria aceitar derrota. Escolher brincar com as caixas não, era uma excentricidade extremamente criativa.

Algumas das caixas, poucas, eram originais dos brinquedos. A maioria eram caixas de material escolar, parecidas com as de sapatos, feitas de papelão grosso. Serviam como tijolos grandes de construção, aqueles blocos de concreto que os pais usam para fazer muros. Outra caixas, maiores, de papelão pardo comum, usava para apressar a obra.

Pegou três das grandes. Pôs lado a lado para fazer a base. Só com isso sua construção já ficou grande. Ele atrás, entre as caixas e a prateleira, parecia entrincheirado. Pegou das pequenas e começou a fazer Torres e ameias. A trincheira virava uma fortaleza com ares de castelo.

Crianças são gente. Parece óbvio, mas às vezes nos esquecemos disso e pensamos nelas quase como seres angelicais. E ela não apenas são gente, são a mais invejosa das gentes. Tão logo viram que o colega tinha uma brincadeira inédita, alguns já foram largando seus brinquedos e tentando pegar-lhe as caixas e brincar com elas em seu lugar.

Ele defendeu sua fortaleza. A princípio, tentando pegar para a si a caixa que via que outra criança tentava pegar. Depois, movendo os muros para que dentro deles não pudesse entrar mais ninguém. Tentou ignorar quem estava de fora sitiando-o. Eram já três ou quatro. Bem mais que ele.

Foi quando começaram a pegar as caixas que ele já havia assentado na construção e mudá-las de posição à sua revelia, que ele em seu íntimo, indignado, percebeu a derrota iminente. Notou que não conseguiria ignorar a maioria. O cerco era real e efetivo. A derrubada, inevitável. A derrota, iminente.

Tomou então uma resolução. Absoluta, suprema. Fez o que qualquer soberano em sua posição, faria. O que todos esses fizeram nessa mesma situação por toda a história. Levantou-se, cabeça erguida. Parecia mais alto que os muros que construiu. Ignorou se havia ou não mais alguém em seus domínios. Derrubou, ele mesmos, os muros do castelo, e lançou-se com unhas e dentes, sobretudo unhas, sobre os inimigos.

Seu reino estava perdido para sempre. Já o estava, antes mesmo do início da luta, ele bem sabia. Mas um orgulhoso monarca não o entregaria assim, sem arrancar o máximo possível de dor dos agressores.

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