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Dia pela Noite (e vice-versa)

Eu por muito tempo dormi de dia e vivi à noite. Coisas da vida de adulto, algo tem-se de fazer para pagar as contas e levar a vida adiante. Ora, tem de ser assim, senão seríamos tomados por vagabundos, não? Acontece. Uns conseguem escolher quando farão as coisas, o que farão. Outros não tem tanta oportunidade, quando vêem, já estão presos a esse tipo de rotina.

Após muito tempo na minha, tive meu momento de revolta. É impossível que um homem trabalhador como eu não tenha direito a seu banho de sol diário. Fosse eu um bandido, presidiário, o teria garantido por lei. Como não sol, tenho de me virar. E me virar significa uns lampejos de rebeldia. Um pouco menos de sono, um pouco menos de trabalho, — nessas horas, é fácil mandar as coisas para o inferno — e lá está o tempo pro sol, não muito, é certo mas lá está.

E lá está o sol, no céu, luminoso, quente. Nem me lembrava. Depois de tantos anos, logo me viciei. Interessante esse jeito das pessoas normais se aquecerem durante o dia, com o sol, ao invés de cobertores. Interessante também conseguirem enxergar sem lâmpadas.

Meu tempo de dormir diminuía conforme eu me apegava, a rotina mudava. O trabalho tinha de mudar de horário. O sono também.

Um dia, estressado, sai correndo do trabalho, divagando, ainda de madrugada. Descobri a lua. Redonda, brilhante. Descobri que não é só o sono que nos prende. O trabalho também. E tudo o mais.

Minha curiosidade se multiplicou. Comecei a prestar atenção a tudo. A coisas bestas e a maravilhas. As descobertas continuaram. Eu não conseguia mais entrar nem em casa, nem no escritório. Precisava de ar e de espaço. Do sol, da lua, do vento, do céu, das nuvens, da chuva e da trovoada, de pássaros e formigas, das flores, folhas e até das pedras do passeio.

Um dia, uma noite, uma madrugada, sentei-me na grama do parque, sob uma árvore, para tomar meu café da manhã. Tomei devagar, distraído, olhando tudo o que via e o que não estava ao alcance de ver. Olhei com olhos do pensamento para coisas que talvez nem existam, mas que me pareceram bonitas demais!

Quando me dei conta, já era hora de jantar, ou de outro café da manhã, e eu ainda estava ali. Digo ainda porque ainda não havia acabado de olhar de ver tudo o que queria, porque não me cansei, e não porque ache que fiquei lá muito tempo. Vi tanta coisa e, ainda assim, percebi que não vi nada.

Quis contar ao sol as coisas que vi à noite e, à lua, o que vi de dia. E aos dois o que vi quando não era nem um nem outro. E a mim o que ainda veria. Não podia esquecer de nada. E eu descobri tanta vida que temi não caber tudo na minha cabeça.

Levantei a cabeça para o céu e pensei por muito tempo. Vi-o mudar de cor várias vezes. De azul celeste para cinza, para chumbo, amarelado, marinho, preto, — estrelas piscarem — chumbo, branco. Clareava e escurecia enquanto a lua e o sol se alternavam passeando por ele.

Foi quando percebi que ambos são a mesma coisa e o céu… o céu é a moldura de seu retrato, de sua existência.

Quis uma foto para me lembrar disso. Mas a foto tinha de ter movimento, e calor, e frio e som, e tudo mais… para eu me lembrar de tudo o mais. Como faria essa foto? Como eu tentaria fazê-la?

Corri para a papelaria. Comprei um caderno e lápis, vários lápis. E me sentei de novo… olhando e escrevendo a fotografia do que via.

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