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Pena

Eu já passei da idade de me encantar feito bobo com penas. Quando crianças, é comum pegarmos penas soltas de pombas, rolas, e brincar de passar o dedo em seus fios tentando soltá-los. Ou penas de passarinhos. Soprar para mantê-las no ar. Já passei dessa idade. A gente nem sabe por que passa. Nem por que pára de fazer isso.

Mas é engraçado que, no caminho do estacionamento para o escritório, no chão de cimento que serve de calçada entre os carros, uma pena caída me chamou a atenção. Era grande, maior ainda que de pombo, malhada fino em preto e marrom. A ponta em preto, contornada em vermelho, depois em branco. Seus fios, perfeitos, perfeitos, todos bem grudados. O contorno também, sem farpas, nem falhas, como se ela fosse uma coisa só, como se ela fosse recortada em papel. O caule bem feito, firme, largo, sem falhas ou dobras. Achei muito bonita.

Depois de olhar um pouco, pensei em quem me visse, no que pensariam do cara no estacionamento, olhando para baixo, parado no sol. Abaixei-me para pegá-la e continuei o caminho para o escritório. Achei que poderia servir para escreve, à tinta, como antigamente. Meu irmão me ensinou com uma pena de pato, há muito tempo, como se faz. Precisa fazer um recorte perto da ponta para a pena reter a gota de tinta que servirá para escrever. Achei também que, com a ponta suja de tinta e deitada sobre um papel com algo bacana escrito, daria uma bela foto, dessas que servem de papel de parede para o telefone ou o computador.

Tem muitos bichos ali. Muitos pássaros diferentes, a maioria de nomes que não conheço. Devia ser de um bonito. Fiquei imaginando, algo como um pavão, um faisão, um gavião, muitas aves com e sem -ão. Mas tinha de ser uma ave voadora para chegar ali. Há também lagartos grandes, tuiús, urubus, corujas.

Lembrei-me que, de alguma forma, a ave perdeu a pena. Tentei imaginar como e onde ela estaria agora, se estaria bem, se se machucou, se doeu. Parei já à porta do prédio, virei-me e olhei ao redor. O terreno aberto, carpinado. O terreno ao lado, pelado, queimado. As árvores longe, na subida do morro onde começa a serra. Ali devia estar a ave que perdeu a pena, que eu não sabia como perdeu.

Não sei porque fiquei triste. A foto que imaginei perdeu a graça. Antes de entrar, mexi a pena com os dois dedos que a seguravam, levantei a mão para o lado e deixei-a cair no canteiro de flores que cerca o caminho para a porta.

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