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Gracejo de Alegoria

Eu não sabia o que fazer. Sozinho, nem tinha a quem perguntar. A menos que pegasse o telefone, coisa que eu não faria. Não tem cabimento ligar a essas horas para contar história, pedir conselho.

Abri a porta grande de vidro que dá para a varanda e fui lá fora me debruçar no muro, tomar ar fresco, olhar a paisagem. Talvez um dos carros na avenida, os faróis eram as únicas coisas que eu via no escuro da noite, ou um pedestre pelo condomínio, talvez um deles me desse a solução ou um bom conselho do tipo: “Dorme. É noite e antes de dormir não há o que você possa fazer.” Mas, não sei porque, eu não tinha sono.

O sereno sempre me diverte e demorou um tempo para que eu me lembrasse de motivo de ter saído a ele. Quando me lembrei, tentei relaxar um pouco o corpo e senti as juntas doloridas. Virei-me de costas pra rua e me escorei com a bunda na parede. Pela porta de vidro aberta olhei para o apartamento.

Vi o relógio, sem querer. Sou desses antigos que acham que toda casa deve ter um relógio na parede. Três e pouquinho. Tarde para sair, cedo para voltar. Sobre o balcão, a caixa de charutos que o amigo me deu em comemoração tentava. São charutos grandes. Sozinho não tem graça. Charuto é como vinho, precisa da conversa. Charutos e mulheres são como vinho.

Esse pensamento leva meus olhos para os nichos sobre o balcão. As garrafas de vinho guardadas. Vinho, além da conversa, precisa de tempo e calma para ser apreciado. Vinho não aceita pressa. Há de ser degustado. A pressa embebeda sem sabor. Vinho não é para deixar bêbado, é para ser saboreado. Charutos também precisam desse tempo. Mulheres sobretudo, mais que os dois. Casais precisam de tempo oportuno para se aproveitarem com calma.

Na estante, uma garrafa de destilado. Está ali de enfeite, foi presente. Não gosto mas é oportuno. Vou no escorredor de pratos, na cozinha. Só tenho copos de refrigerante. Não me parecem apropriados. Pego a caneca onde bebo chá. Rio soltando um palavrão. Como se a caneca fosse mais apropriada. Pego só meio dedo de bebida e volto para a varanda.

Mas me sento, na cadeira, caneca na mesa, segura entre as duas mãos, como se fosse chá quente a esquentá-las. Olho, por cima da mureta de vidro, a noite movimentada da cidade, que não vejo, escondida pelas árvores e pelo escuro. Mas imagino mil histórias que possam estar acontecendo em cada canto, embaladas pelo sereno e pelo barulho dos carros e da noite. Imagino histórias de silêncio também, de sons furtivos, escapados. E fico feliz por suas personagens.

A bebida fica intocada. Quando me lembro da caneca, é porque um pequeno movimento dentro dela me acorda do pensamento. Um barulhinho de cumplicidade lá dentro. Puxo-a para olhar. Não há nenhum líquido. Duvido mesmo que o coloquei lá. Já tenho certeza de que não. Ao invés dele, dois pardaizinhos batem os bicos e saem voando em rodeio, um em torno do outro, de mãos dadas.

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