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Sessão Dupla

Eu cheguei cedo ao cinema, muito cedo. Oito e pouco. Estranho falar isso eu, que já já tão acostumado fui a cinema à tarde. Quando eu era jovem, pegava sempre a sessão das quatro, no máximo a das cinco. Têm menos molecada para fazer barulho. Eles não gostam das sessões que começam mais cedo. Dizem que é matinê, coisa de criança. Por isso vão às da noite.

Eu me lembro de uma conversa com uma menina que trabalhou comigo. Ela disse que cinema de dia é coisa de criança. Eu perguntei em que sessão ela costuma ir. “À noite, claro.” Minha resposta deve ter sido cruel: “Vê? É à noite que criança vai.”, mas ela, pega de surpresa, ficou sem resposta, acho que até um pouco triste em seu orgulho em ser chamada de criança. Não falei para magoar, mas acho que ela entendeu a relatividade desses conceitos.

Neste cinema aqui, o horário não é problema. Os filmes que passam não têm apelo para a molecada. O lugar não chega a ser metido a besta. Não muito. Mas foca naquele público que gosta de filmes diferentes, menos clichês. Quem vem aqui, quase sempre, quer assistir em paz, quieto, prestar atenção. Eu digo “quase sempre” porque sempre tem um casal ou duas amigas, normalmente de idade, que resolve conversar sobre o filme durante o filme. Explicar um para o outro que entendeu algo subentendido, que os filhos iriam gostar desse lugar que aparece nessa cena, que a atriz é muito boa e que estava maravilhosa naquele outro filme, que a música de fundo é aquela… Aprendi a não reclamar. Essas conversas não duram muito. Logo se cansam e assistem quietos, abraçados os casais.

Aqui tem poucas sala, só quatro, pequenas. As pessoas que vêm são mais ou menos as mesmas sempre. Também sempre mais ou menos nos mesmos horários. Vir ao cinema é uma rotina. Então os filmes ficam pouco tempo em cartaz. As estréias têm sessões à noite, pré-estréias à meia-noite, e os filmes que já estão em cartaz, vão passando para as sessões mais cedo. Assim todo mundo tem chance de assistir no horário em que está acostumado a ir ao cinema.

Há tanto tempo eu não vinha ao cinema que podia escolher qualquer um, todos eram novidade. Ainda tinha tempo para jantar, para tomar café, sentar e escrever sobre a noite. Dava tempo para tudo, tudo. Até para ver dois filmes, mas isso atrapalhava o jantar.

Eu estava com saudades daqui. Não deste cinema, que é relativamente novo, tem menos de dez anos. Saudades dos sábados por aqui. Podia pegar os dois filmes mesmo e deixar a comida para depois. Comer alguma coisa depois, ou entre eles, pão, vinho, croissants. Aqui mesmo tem. Dúvida cruel, eram muitas opções, tantos filmes que eu ainda não vi.

Eu já aprendi que tem uma placa no poste que segura a fita que orienta a fila, com os horários de todos os filmes. São uns quatro filmes diferente por dias em cada sala. Vai mais ou menos em seqüência, às vezes alguns se alternam. Um filme do Woody Allen estreou esta semana. Sua próxima sessão começa às nove. São uns quarenta minutos. Não gosto de jantar correndo. E quarenta minutos são pouco para jantar com calma. Mas dá tempo pro café.

E também dá pra pegar outra sessão depois. Pouco antes de meia-noite tem o filme do trailer que eu vi duas vezes nas semanas passadas e queria ver. A pré-estréia é hoje. Se assistir os dois, talvez não dê tempo de jantar no intervalo entre eles. Não dá pra saber direito quanto tempo vai ter entre as sessões.

Eu queria jantar aqui no cinema. O restaurante é bom. Uma salada e vinho. Mas vou ver o Woody Allen e, dependendo da duração, imagino que sobre de uma hora a uma hora e meia entre os dois, se der tempo, janto aqui ou me viro depois.

Compro ingresso. Hoje não tem lugar marcado. Os monitores das bilheterias, onde a gente escolhe as cadeiras, estão com defeito. Me esqueço de pedir o carimbo do estacionamento. Peço no próximo filme.

Eu ainda não comi nada hoje, nem o café da manhã. A barriga já está se lembrando de como é bom um pãozinho francês fresco com manteiga. Culpa do pipoqueiro que enche as pipocas de manteiga, o cheiro fica no ar. Vou na galeria ao lado. Tem a Starbucks com beigale e chá. E, o melhor de tudo, não tem fila. Que maravilha! O frio que chegou de repente em São Paulo espantou a fila.

Beigale quentinho! Não é meu tipo de pão, mas está quentinho! Não sou muito fã destes pães com casca mole e fina, tipo pão de forma, mas a manteiga derrete. Ainda assim, vou comer um só. No cinema tem um balcão de padaria, delícia. Pão é delícia! Ao invés daquelas pipocas fedidas e refrigerante mal misturado e sem gás, eu vou levar um chá gelado daqui, o segundo, além do que bebo aqui mesmo, e pedir lá um pão, dos pequenos que já é maior que um pãozinho de padaria. Comer pão no cinema, isso foi uma grande invenção, sinal de que a humanidade é realmente capaz de evoluir. Queria café ou cappuccino, não posso. Estou com cafeína restrita até o fim do ano. Resultado de anos de abuso da substância, e olha que já faz algum tempo que comecei a trocar café por chá. Houve uma época em que tomava quase vinte por dia. Vai saber lá quantos litros isso dá. Com a troca pelo chá, troquei o vício. Um dia haverei de entendê-lo Algo deve haver de relaxante em segurar o copo da bebida e dar bicadas. Nesta vida de adulto, acho que a gente precisa disso, de café, e de relaxar. Não me lembro de tomar muito café quando eu era criança. Um toddy de manhã, um café no no lanche da tarde… só isso. Eu me lembro do café da madrinha. Ela punha tanto açúcar que não conseguia desmanchar tudo mexendo com a colherinha. Ficava um depósito no fundo do copo. Isso porque, mania de pobre, ela já derretia açúcar direto no bule com a água quente. Ainda assim, dizia que o açúcar de hoje, o de então, anos oitenta, não adoçava nada. A cara que ela fazia quando bebia meu café sem açúcar era exatamente a mesma que eu fazia quando bebia o café hiper-sacarosado dela.

Das últimas vezes que vim ao cinema, tive problemas, vontade de ir ao banheiro no meio da sessão. Odeio isso, – tem tanta coisa que eu odeio – mas interromper o filme é das piores. Eu devia ter pedido só o beigale e esperado em cima do horário da sessão para pedir o chá. Bebia ele todo, quentinho, dentro da sala. Como já pedi, melhor levar este. Vai amornar, mas é melhor beber morno na sala, durante o filme, do que já entrar de bexiga cheia. Burro eu, burro, burro!

Nem preciso enrolar, comendo com calma, terminei o beigale já na hora. Desci para o saguão do cinema. E de lá para o banheiro. Que a bexiga não me aprontasse durante este filme. Fiquei preocupado, ela estava vazia, não tinha muito o que despejar ainda. Espero que não tenha chuva no filme então. Rio, besteira tanta preocupação com isso.

Logo ao lado da porta da sala, está o balcão dos pães. Idéia maravilhosa! Vender pão fresco no cinema em vez daquelas porcarias de pipoca. Além do portuga que vos escreve ser apaixonado por pão fresco, cinema é um lugar tradicional para se ir em casal, namorar. Pipoca atrapalha. Aquela porcaria fedida e com as cascas que grudam nos dentes atrapalha além de dar azia. Deve ser gostoso sentar de casal no cinema e dividir um pão e um daqueles copos gigantes de cappuccino. Minha versão de programa romântico. O pão de hoje será só meu. Há uns dez tipos diferentes. Posso escolher o que quiser. Preto e integral não, gosto do normal. Nenhum pão aqui se chama normal, mas tem um com levedura. Puseram o nome em francês, uma palavra que eu nunca vi. Desculpa, não sei como se diz isso. É um pão que se parece com o normal, mas diz na legenda que a fermentação é natural. Quero um desses, do pequeno. Outra coisa legal de pão no cinema é que é barato e vai bem com café ou chá. Absurdos os preços que cobram para o casal ficar com os dentes cheios de casquinhas de milho de pipoca, sem falar do bafo, e beber o refrigerante sem gás que ainda assim faz arrotarem.

Por quanta gente havia no saguão esperando a sala abrir, achei que lotaria. Sem lugar marcado, por causa do defeito na bilheteria, entraram todos correndo, ávidos pelos melhores lugares. Para mim, isso não importa tanto. Eu gosto de me sentar nas filas mais da frente. Sentei-me na terceira ou quarta fila, na cadeira mais próxima ao corredor. Não estava nem perto de lotar. A ocupação da sala não devia chegar a um quinto. O lugar que eu escolhi não tinha nenhum casal por perto. Pendurei a bolsa no encosto da cadeira em frente à minha, tirei o som do telefone, dei um jeito de encaixar nela o pacote do pão. As luzes logo se apagaram. Tirei os sapatos e as meias.

Imediatamente chegou um grupo para se sentar na fila atrás da minha. Não couberam todos e uma menina me pediu licença para passar e para as cadeiras entre a minha e a parede. Era estreito, tive de me levantar, descalço. Ela parece que não queria que eu me levantasse. Não conseguiu esconder a pressa, a luz já estava apagada, os trailers iam começar. Logo que me levantei, passou rápido para se sentar e pisou na beirada de meu pé. Assustada, pediu desculpas. Eu disse que não era nada. E não era mesmo, pisou de leve, como se estivesse descalça também, mal senti.

Começou o trailer, passou um só. Foi um que eu já tinha visto duas vezes, de um filme que eu vi que tinha sessão pouco depois deste e que eu quero assistir também. Das outras duas vezes, não prestei atenção, agora sim. Eu gosto dessa atriz, só faz filmes bons. Realmente, das outras vezes eu não devo ter prestado atenção, devia. Parece que o trailer conta todo o filme. História de adultério arrependido com clima de todos ficam felizes no final. Não estou a fim disso. Hoje eu quero um filme romântico ou uma comédia. Ainda bem que eu não cheguei a comprar o ingresso para ele. Na saída vou olhar de novo os horários e ver se tem algo melhor.

Antes do filme começar, ainda chegaram mais três pessoas daquele grupo. Três garotas, Pediram licença mas não esperaram que eu me levantasse. Só consegui puxar os tênis pra baixo da cadeira, para elas não tropeçarem. Passaram apertadas, quase sentadas em meu colo. Passaram devagar, com os tornozelos esfregando em meus pés descalços. Era muito apertado para evitar. Imaginei que elas pudessem se assustar, pensar que fosse um bicho correndo pelo chão. Elas não pareceram perceber ou se incomodar.

Quando se sentaram vi que eram a namorada da garota que havia chegado primeiro e mais um casal de amigas. Ficaram assim, ao todos uns dez, divididos em duas fileiras. Eu, na ponta, junto ao corredor, da fileira de baixo.

Já tem um tempo que comecei a escrever isso. Vocês haverão de me desculpar isso também, esqueci-me qual era o filme. Não então, no cinema sabia o que assistia. Mas agora, não me lembro. Não me lembro de muito da sessão, apenas de, a certo ponto, uma risada, a bem dizer, umas dez gargalhada terem me incomodado. Eram os amigos, sentados à minha esquerda, riam de galhofa sem olhar a tela. Me incomodou. Logo de cara me incomodou o barulho que fizeram. Não me lembro do que era, mas não era uma parte do filme para se dar risada, ou era e eu não achei graça. Eu os olhei e eles me olharam e ficaram quietos. Isso me incomodou mais. Procurei se eu fazia algo que pudesse levá-los à risada, que fosse motivo para rirem de mim.

Daí a pouco, já não me lembro mais do que aconteceu no entretempo, ríram de novo. E, de novo, só eu não achava graça. Olhei feio para eles. Pleonasmo, eu só sei olhar feio. Não encontrei a galhofa que faziam, mas desta vez havia gargalhadas do outro da sala também. Tinha alguma coisa na cena, alguma coisa antiga, uma fita cassete, eu acho. Eles, novos, talvez nunca tenham visto uma antes ou estejam rindo mesmo por não serem tão jovens e já terem visto uma.

Eu não me lembro do filme, mas aí pensei nele, pensei nas personagens. Pensei se não era eu o errado, se não teria motivo para dar as mesmas gargalhadas. Me esqueci também dos amigos que riam, nem sei se riram mais. Distraí-me.

O filme foi bom, não exatamente o que eu queria, mas bom. Quando acabou, eu corri para a bilheteria comprar ingresso para o próximo. Já desse não gostei. Não era o que pensei. Fiquei frustrado e cansado. Na saída, já é domingo. Ainda vou sair à procura do que falta para completar a noite de sábado.

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