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Post Longo

«Já têm uns 20 anos que eu não venho aqui. Passei na porta algumas vezes, mas não entrei.»

O lugar não tem muro. É cercado por grades. Um portão feio, de grade de metal também está aberto. Só a metade da direita. Atrás da da esquerda, tem um latão grande, alto, de lixo. O lugar parece bem feio, grama mal cuidada. Mato mesmo. Os pedaços de cimento, descascados. Do portão começa uma escada larga, de paralelepípedos, que sobe para o resto do terreno, que é bem mais alto.

Ele subiu a escada e ela foi atrás. Teve medo de algum bicho no mato ou no lixo. As beiradas da escada eram caiadas, os pilares das grades também. Tudo ali é caiado. Caiação velha, mal cuidada, vários pedaços gastos, sujos, lascas de cimento caídas mostrando os blocos e os tijolos.

No meio da escada, um degrau maior, ele parou para ver a quadra de bocha que ficava à esquerda em um pedaço de terreno naquele nível. Ela não sabe de que ele tenha jogado bocha alguma vez. E ele se debruçou na mureta da quadra, de alvenaria caiada também. Mas, por dentro, revestida de madeira velha sem verniz e estragada em vários pedaços, e com piso de terra batida, vários desníveis. Ficou olhando longa e alternadamente pras pontas da quadra, de onde os jogadores lançam as bolas. Não longamente o suficiente para que se achasse que acompanhava uma partida imaginária. Estava avoado.

Ela chegou perto, para ver se ele se tocava de ela não ver sentido naquilo, mas não encostou nele. Nem se encostou na mureta. Tinha medo de se sujar com cal ou poeira.

Depois da quadra de bocha, havia o muro muito alto que dava para a casa ao lado. Entre os dois, mato mal cuidado crescia mais do que o devido. Ele pegou sua mão e voltou para a escada, ela atrás. Não subiram, cruzaram-na. Saindo dessa escada por onde vieram, a partir do degrau maior, mas para a direita, subia outra escada, menor, meia dúzia de degraus, para um prédio térreo.

Subiu essa. No final, uma torneira, ele olhou e pousou a mão na manopla. Depois segurou-a. Foi até a porta do prédio. Olhou os avisos afixados à parede. Olhou para dentro da sala. Ninguém veio lhe incomodar ou perguntar o que queria.

Ladeou o prédio, ladearam, pelo caminho entre ele e a escada maior. Passaram por dois banheiros, ou vestiários, que ele fez menção de olhar mas desistiu, afastado pelo mal-cheiro.

Menos de dez passos mais, e o caminho encontrou o fim da escada maior. Era uma quadra pequena, coberta, mas fechada dos lados apenas por grades. Não tinha entrada direta. Subiram dois degraus que davam para a ponta de uma arquibancada de quatro ou cinco lances, separada da quadra também por grade. No meio dela, junto a um pequeno portão da grade, que dava direto para a quadra, ele se sentou. Pela mão dela, que ele segurava, pediu-lhe que se sentasse a seu lado. Ela hesitou: “Está sujo!”, “Não faz mal!”. Ela se sentou, sem saber porque, e ele ficou feliz com isso. Chegou-se-lhe bem e a abraçou como adolescente.

Do outro lado da quadra, não havia arquibancada. As laterais, da quadra e do prédio baixo, davam para a de um campo de futebol. Depois dele, parecia haver uma escola. Atrás do gol da esquerda, um muro muito alto, caiado, que passava atrás também de um dos gols da quadra.

«Eu acho engraçado quando vejo em filmes americanos os adolescentes falarem em serem populares, e hoje em dia as crianças falando nisso também. Me parece uma preocupação extremamente inútil. No meu tempo de escola, eu era muito popular no sentido de que todos me conheciam, sabiam quem eu era, e falavam de mim. Mas raramente isso era algo de bom. Eu era conhecido porque era o estranho da escola. Não sabia jogar futebol, bolinha de gude, bafo, andar de bicicleta. Mal sabia correr. Não me interessava por aqueles assuntos normais dos moleques: carro, exército, maconha, festa, roupa. Acabava sendo excluído da maioria das brincadeiras e das conversas. E de outras, eu mesmo acabava me excluindo. Tinha poucos amigos. E mesmo quando falavam de mim por causa das minhas notas, que eram muito boas, não era por admirarem isso. Era por que isso me fazia ainda mais aberração comparado aos outros alunos.

Por mais que eu me achasse superior a todos, e eu me achava, – os professores mesmo me diziam que eu era ” o melhor aluno da história desta escola” e eu sei que devia ser verdade – a gente se ilude de que isso basta, mas tem um tipo de reconhecimento, não sei se é uma espécie de respeito ou de aceitação,  que faz falta. Um dia você vai precisar de alguém, principalmente quando não se sente cercado de outros como você. É um desespero, de se sentir sozinho, estranho, isolado, que não dá pra explicar. As pessoas te excluírem, zombarem e mesmo os que falam que te admiram não se interessarem por mais de duas ou três frases numa conversa com você, você acaba se acostumando a isso. Cria hábitos para fazer as coisas sozinho e, eventualmente, conhece gente que gosta de fazer algumas coisas em comum com você, embora não cheguem perto noutras ocasiões.

Mas tudo o que é normal também acaba tendo sua esquisitice. A da minha escola era o handebol. Era uma esquisitice da cidade toda. O time da cidade era muito bom e, em particular, o da minha escola também. E quando chegávamos à idade de poder começar a aprender a jogar, estávamos todos mais ou menos no mesmo patamar. Uns com mais aptidão física que os outros, mas todos igualmente ignorantes. Eu vi nisso uma oportunidade e a abracei, abracei de todo coração. Era magricelo, fraco, baixinho, descoordenado, atrapalhado. Mas me empenhei em estudar aquilo, observar e treinar. Eu corri muito para aprender a correr e saltar. Passava horas mexendo com a mão numa bola pra melhorar a pegada. Fuçava jornais, vivia atrás de onde assistir jogos para aprender.

Quando cheguei na idade e vieram os primeiros testes na escola, eu já tinha uma ideia de como as coisas funcionavam. O professor me separou para o grupo que ele ia testar e treinar mais sério. Eu fiquei feliz, era um grupo grande, ainda iria afunilar mais, mas eu não tinha sido excluído logo de cara. Fiquei feliz, mesmo com a maioria dos outros alunos rindo de mim, desconfiados do moleque que nunca conseguia nada que não fosse nota de prova em sala de aula.

Umas semanas depois, o professor veio até mim num treino e me separou de todos. Me pôs para fazer uns exercícios diferentes de coordenação no canto atrás de um dos gols. Eu estranhei, não gostei de ser separado. No fim da aula, ele montou dois times e me pôs nos dois para jogar um contra o outro. Me disse pra jogar sempre no time que estivesse atacando, que fizesse assim e assim, por que eu era diferente, era o único que ia conseguir jogar de pivô.

Demorou pro resto da molecada entender o que eu estava fazendo. Me ignoraram boa parte do jogo. O professor teve de lhes chamar a atenção, eu tive de ajudar a explicar até eles entenderem. Eu acabei aparecendo porque era o único que jogava diferente.

O professor era também técnico do time da cidade, e chamou a mim e mais outros alunos da escola para treinar com ele na escolinha do time. Eu treinava na minha escola duas vezes por semana e aqui, nesta quadra, mais três vezes. Da escolinha, nós evoluímos até o time de cima.

Foi a melhor época da minha vida. Eu era bom em algo que eu e os outros valorizávamos. Matei aula pra jogar, pra treinar… Uma vez, machuquei o joelho. Nos primeiros dias, quase não conseguia andar. Passei duas semanas treinando mancando, de medo de alguém ficar melhor que eu e tomar meu lugar. Não tomaram, mesmo quando chegaram mais pivôs pra treinar comigo. Fazendo aquilo, eu era o melhor. Dava conselhos, ajudava a ensinar. Os moleques três, quatro anos mais novos que eu me davam parabéns e cumprimentavam na escola e na rua no meu bairro. Tinha meninas que matavam aula pra me ver jogar. Os meus colegas me respeitavam e os outros, por mais que estranhassem meu jeito, meu modo de andar, de falar, de vestir e tudo mais, me respeitavam.

Não foi um mar de rosas. Eu fiz amizade com garotas de quem eu gostava e as ajudei a ficar com colegas meus de quem elas gostavam. Apanhei de gente de outros times sem nem saber por quê… continuei excluído de muitas coisas e ouvindo ainda muita besteira e encheção de saco em várias situações. Mas aqui eu era feliz. Por que eu nunca quis ser conhecido ou admirado, eu sempre só quis que quem me conhecia me respeitasse.

Eu participei de competições, ganhei torneios pela escola e pelo clube. O time era muito bom. Uma vez, quando eu já tinha parado de jogar, fui assistir um torneio e, no intervalo, dois árbitros conversavam com um mesário sobre o time que viram lá na minha cidade, do pivô narigudo e o técnico de bigode: “Aquele time ensinava a jogar. Nunca vimos nada daquele jeito.” Éramos nós. Era outro tempo. Esse esporte se desenvolveu muito por aqui, nestes últimos vinte anos. O pessoal de hoje é muito melhor. As meninas que ganharam o mundial no ano passado… Na minha época, isso era impensável. Nunca imaginamos que seria possível. A coisa era muito mais rudimentar. Mas, para a época, nosso time impressionava.

Naquele tempo, isso era esporte totalmente amador, sem patrocínio nem fonte de recurso nenhum. Quem mantinha o time, taxas, técnico, despesas básicas, era a prefeitura. O pessoal tinha de conciliar com escola, trabalho. Com o tempo, eu cresci, mudei de escola, depois fui pra faculdade. A gente começou a trabalhar. A prefeitura mudou de partido. Foi ficando difícil conciliar os horários de todo mundo pra treinarmos. O pessoal acabou saindo aos poucos. Não era fácil jogar noutro clube se você não fosse sócio, se não tivesse já alguma ligação. Ainda assim, se conseguisse, era complicado, se precisasse trabalhar, ou se estudasse à noite.

Eu fui um dos últimos a sair. Teve uma época em que eu já fazia faculdade e terminava o colegial ao mesmo tempo. Até nos fins-de-semana, eu tinha aula, curso e ainda trabalhava em casa de freelancer. Segurei o máximo que podia. Nos últimos meses, já tinha sobrado pouca gente do time original. Os novos estavam desanimados. Os mais novos eram promovidos logo para os times de cima para conseguir montar o quadro inteiro pra jogar. Eu percebi que, quando comecei, tinha sido assim que nós subimos, porque já então era assim que funcionava. O jogador tinha prazo de validade, vencia ao ficar adulto.

Quando eu resolvi que não valia a pena mais e que ia parar para poder me dedicar direito à faculdade e ao trabalho, foi no final do ano, antes das férias. Vim pro treino chateado. Encontrei um colega ali na bocha, a gente costumava ver os tiozinhos jogando. Quando o técnico chegou, encontrou só os dois. Subimos aqui, chegou mais um. A gente conversou sobre parar, que não adiantava mais.

De repente, antes da hora marcada, e isso foi muito estranho é curioso, começou a chegar o pessoal todo, os caras que já tinham parado, os da antiga, todo mundo. O pessoal saiu do trabalho no meio do expediente, faltou na aula, pegou condução de longe e veio aqui jogar aquele dia, todo mundo junto. Um ou outro tinha comentado entre si que estava com vontade de aparecer, mas, no geral, todos vieram sem combinar nada. Pura coincidência! Nós montamos os mesmos times da época em que começamos. Eu joguei com o pessoal que tinha sido mirim comigo.

Jogamos tanto, nos divertimos tanto, que não parávamos. Ninguém queria sentar pra descansar. Eu costumava perder dois quilos a cada treino. Naquela vez, joguei tanto, que passei o dia seguinte todo com enxaqueca, desidratado. O caseiro não fechou o portão às dez como costumava, fomos embora de madrugada. Pegamos os últimos ônibus.

O pessoal que tinha começado comigo na minha escola voltou, a maioria comigo, no mesmo ônibus de sempre. Nos despedimos só o habitual, sem mais palavras de adeus ou coisa do tipo. Desci do ônibus em frente à catedral, como sempre fiz. Já era de madrugada, escuro, a rua estava vazia, ventando e ameaçando chover. Dava pra sentir aquele cheiro de água no vento que levantava a poeira do chão. As únicas luzes que me lembro acesas eram as dos postes, a da cruz da catedral e a vermelha da santinha que uma senhora tinha na frente de casa. Sabe esses nichos que o pessoal faz na entrada de casa, ao lado da porta, com uma santinha e uma lâmpada vermelha de abajur… A rua vazia, a escola fechada, apagada, o ônibus já tinha ido embora.

Foi quando eu me senti sozinho e, pra não chorar, desci a rua, até a esquina de casa, andando devagar, com os olhos úmidos. Parece bobeira, era um esporte só. Depois eu joguei noutros times, mas não fiquei muito tempo em nenhum. Eles não eram iguais. Eu não era igual mais. Até hoje, quando encontro alguém do time, a gente acaba se cumprimentado igual, sem combinar. O tapa com as costas da mão e um “Igual àquele, nunca mais.”

Na minha escola, quando vou votar, – eu ainda voto lá por causa disso – eu me sento no muro e fico olhando a quadra onde eu comecei. O segurança estudou conosco, me conhece e não fala nada. Aquela quadra mudou bastante, diminuiu, tiraram a marcação de handebol. Acho que não devem mais ligar para isso. Mas, pela janelinha do guichê da secretaria, ainda dá pra ver os troféus que nós ganhamos. A foto do professor, ele foi diretor até algum tempo atrás.

Tinha dois ginásios onde jogávamos. Um pra trás da favela que havia depois da minha escola, perto de onde é hoje a Federal. Está igual, passo sempre na frente, quando vou visitar meus pais. O pessoal só usa para os campeonatos locais de futebol de salão. O outro, o principal, na cidade, junto da rodovia, mudaram, estragaram tudo. Reformaram pro time de vôlei que o banco trouxe pra cá. Ficou bonito! Expandiram as arquibancadas pra dentro da quadra, mas ela diminuiu. Ficou pequena demais! Só dá pra jogar vôlei, agora.

Aqui, eu passei umas duas ou três vezes em frente. Não é meu caminho, fica fora de mão. Estacionei na rua e fiquei olhando. Uma vez, dei a volta a pé, olhei por aquela grade de trás do campo de futebol. Não entrei.

Eu tinha guardado uma camisa de quando jogava. Vermelha e branca, listrada na horizontal. Número onze em verde, no peito e nas costas. Eu gostava de usar a onze. Mas quando me mudei, não consegui encontrá-la. A mãe tinha mania de doar minhas coisas na igreja sem perguntar.»

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