Memórias

Rosas Amarelas

Minha avó tinha um pequeno jardim na frente da casa. Pequeno mesmo, três metros por três, ou coisa que o valha. Quadrado. Em torno dele, um caminho cimentado de, talvez, meio metro de largura, calçado com lascas grandes de cerâmica vermelha, cor de barro, servia de moldura.

Por dentro, ele era cortado em quatro por duas diagonais de cimento, que se encontravam no meio, numa espécie de rotatória. A rotatória mais os quatro pedaços formavam então cinco canteiros, bem colados, delimitados por uma borda de uns cinco centímetros de altura, o suficiente para a água da chuva e da limpeza do jardim não invadi-los a revirar a terra.

As diagonais cimentadas e o anel em torno da rotatória central eram muito estreitos. Só quando eu era muito pequeno, conseguia andar por eles. Na época, as flores coloridas, mais altas que eu, cheias de insetos, formavam um cenários surrealista, fantástico. Aproveitava quando era o caçula e só eu conseguia correr por ali no pega-pega. Atravessava outro mundo. Um sendero perdido. Acordava pra realidade ao me machucar nos espinhos. Eram muitos.

Jardim

Dos adultos, só a avó, muito magra que era, entrava ali. Com cuidado, volta e meia se machucava. Tinha problemas com cicatrização. Passava depois, horas, apertando a ferida com a mão até parar de pingar. Entrava para cuidar de suas flores.

Era bastante variedade, a maioria flores baixinhas. Dálias, margaridas. Num canto, tinha uma florzinha esquisita, de folhas brancas carnudas, pareciam pedaços de fruta. Minha avó dizia que era flor-de-cera, que se ficássemos segurando, derretia. Com pena dela, nunca tentamos.

As plantas grandes eram as roseiras. Ela gostava de rosas. Altas, mais de metro e meio de altura. São bonitas, por isso os espinhos. Vermelhas, rosas claras, a maioria, brancas e, as principais, as amarelas. Hoje em dia já é mais ou menos comum, mas na época eram raras. Volta-e-meia alguém batia palmas no portão pedindo uma. Ela oferecia um pedaço de tronco, para plantar. Quase sempre recusavam, queriam só uma flor. A avó cortava e entregava, contrariada. Queria que mais gente tivesse rosas amarelas. Não entendia as pessoas quererem mas não as plantarem.

A avó cuidava com cuidado, vaidosa de suas rosas. Usava esterco de coelho. Depois, quando minha outra avó, sua fornecedora de esterco, morreu, ela passou a usar esterco de cavalo. Comprava do peixeiro que passava às quartas-feiras, de carroça.

Quem podava era seu irmão, meu tio Porphírio, com o podão, uma tesoura forte, que servia também para cortar os ossos do frango do domingo. Ele guardava para nós as forquilhas que cortava. Gostávamos, as crianças, das roseiras para fazer estilingue. Para atirar em latas, não passarinhos, que isso não faríamos. Ai de quem cortasse uma forquilha de roseira sem autorização.

A avó regava com a leiteira. Fazia trabalho de formiguinha, buscando um pouco de água, regando devagar uma roseira, olhando-a, depois indo buscar mais água para a próxima.

Roseira

Uma vez, ela estava dormindo na sala depois do almoço, ouviu chamarem no portão. Conversou um pouco pela janelinha da porta da sala, era alguém pedindo uma rosa amarela. Ela foi na casinha dos fundos, no quartinho que foi das ferramentas de meu avô, pegou o podão e foi para o jardim. Eu estava no quintal, sentado embaixo da pitangueira, lendo. Vi ela passar para o quartinho, depois para o jardim. Daí a pouco, ouvi um desaforo e barulho do metal da do podão. Fiquei preocupado, fui olhar o que era.

A avó, furiosa, atacava as roseiras com a ferramenta. No chão, todas as rosas já estavam cortadas. Todas, independente da cor. Os troncos pelados. Sobravam só alguns bracinhos com folhas. Aquelas folhas verdes bordadas de espinhos. Não tinha mais ninguém no portão.

“Quê foi?”

A avó, como se eu tivesse desligado a chave, parou de cortar. Pôs a ferramenta no bolso do avental e, visivelmente brava ainda, começou a arrastar seus tamancos de volta pra sala. Não conseguiu levantar o braço cansado para pôr-me a mão no ombro. Eu a segui sem precisar disso.

“Quando eu fui dar a rosa, a mulher disse que era pra macumba. Ainda fez cara como se eu fosse uma retardada por não saber disso. Macumba com rosa minha, ninguém mais faz.”

E ela nunca mais encostou no jardim.

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