Sonhos e Pesadelos

20-9-’14

Is this the way out from this endless scene?
Or just an entrance to another dream?
— Genesis – The Light Dies Down On Broadway

Water

Eu só me lembro a partir de quando me levantei para ir embora. A maior parte do sonho foi anterior a isso. Não me lembro, mas sei que tomávamos café em um grupo de entre meia dúzia e uma dúzia de pessoas, numa mesa redonda de tampo verde, igual camurça de mesa de sinuca, mas não era camurça, era fórmica. A mesa era de madeira escura, envernizada, só o tampo feito de fórmica verde. Ainda assim, em torno dessa fórmica, havia uma beirada, ainda de madeira, de uns quinze centímetros de largura. Eu tinha bebido chá gelado, provavelmente preto. Me lembro do copo de plástico transparente com canudo verde que deixei sobre a mesa quando saí, ainda com muitas pedras de gelo, um resto de bebida castanha e, grudada no gelo, umas coisinhas pretas que me pareceram pedaços de folhas de chá preto.

Aproveitaram para sair comigo uma mulher e uma menina, os outros ficaram. Não me lembro se me despedi deles, mas acho que não. A sala do café, fresca de ar-condicionado, estava iluminada mas parecia escura porque tinha a decoração toda em madeira escura e alvenaria pintada de bege e as lâmpadas eram colocadas de forma a não iluminarem diretamente as paredes.

Na saída, a porta nos levou para uma sala vazia, parecia em reforma ou ainda em construção. Tinha teto, mas não lampadas, e a luz, que a iluminava muito bem, era a do dia, como se o calor do sol ficasse para fora e sua luz entrasse pelas telhas Eternit. Paredes sem acabamento, encanamentos coloridos de metal cinza expostos pendurados no teto sem forro, sprinklers também pendurados nas pontas de longos canos pretos.

A mulher me disse que precisava de água. Eu acho que sabia que era para a menina tomar um remédio. Aquela sala não me era de todo estranha, eu sabia onde estavam as torneiras. Havia uma porta, sem a folha. Um pouco antes dela, uma torneira, na altura do meu joelho. Mas não usei-a. Passei pela porta, era outra sala, um pouco menor, escura, também vazia. Paredes verdes, mal iluminadas, muito mal iluminadas. A pouca luz era quase o escuro.

Eu tinha na mão um copinho de plástico, pequeno, daqueles de café, cinqüenta mL’s, eu acho. Não sei como foi parar na minha mão. Lembrei-me que usávmos esses copinhos na escola para o flúor do bochecho obrigatória da quarta-feira – ou da quin-feira, não me lembro o dia certo. Abri a torneira. Girei, girei. Demorou para sair água e, quando saiu, foi só um filete. Continuei girando muito e ele não engrossou.

Mal iluminado ali, não dava para ver se a água estava limpa, nem a torneira. Tomei consciência de estar num banheiro. Pensei no chão, que eu não via mas já sabia estar imundo, molhado, mijado, cheio de barro e porcarias pisados. Foi quando me toquei do cheiro muito fraco de banheiro sujo. Fraco, mas que foi o suficiente para me enjoar. Tive nojo de pegar água ali, de levá-la para a menina. Não quis nem voltar com aquela água no copo. Derramei-a no chão e saí para jogar no lixo o copo sujo de água.

Não haveria lata de lixo, eu sabia, mas voltei para a sala anterior, passei pela mulher com a menina, e fui andando, reto, para a parede que separava a sala em reforma do café, não para a porta. Como se eu fosse um fantasma que a atravessaria. A mulher riu. Virei-me. A risada não era da topada que eu daria. A menina correu para fora, por uma parede que desapareceu. A mulher ria da torneira que eu não quis usar e que jorrava água. Fui fechá-la, mas ela não tinha a manopla. Parece que a torneira de dentro, por onde só havia saído um fio, quando aberta, fez sair água pela de fora.

Logo que percebi isso, os sprinklers se abriram. Achei engraçada a cena de pastelão. Mas logo perdeu a graça quando, do de cima de mim, começou a escorrer, como de um cano aberto, água gelada nas minhas costas. Fechei os olhos e tentei me esquivar, sem tirar os pés do chão porque foi também quando percebi que o chão se alagava e a água já quase os cobria.

A mulher tentou sair pelo mesmo caminho da menina, mas a parede havia aparecido de novo. Entrei de volta no banheiro, com nojo da sujeira que devia estar boiando na água que entrava pela porta. Quis fechar a torneira que eu achei ter largado ainda aberta. Não pude porque ela também estava sem a manopla.

Foi quando acordei, sem o despertador tocar e sem saber a hora. Já podia ser de manhã, tive preguiça de procurar o relógio ou mexer na janela. Passava desenho animado na televisão. Dormi de novo. Depois vi que ainda era de madrugada, quando acordei de novo, estava começando a missa na televisão.

Enquanto me lembrava e escrevia, percebi que o café era de alguma livraria, que eu freqüento só pelo café, já há alguns meses parei de comprar livros impressos. Mas a sala onde ele funcionava no sonho, não era a dele, nem era da livraria. Era do bar de uma lanchonete que já fechou. A sala em construção era a ante-sala do vestiário do clube, entre o campo antigo, as quadras e as churrasqueiras. O banheiro, era o da minha escola de infância, devia estar imundo como sempre.

 

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