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Sobre Sonhar

Estava falando, outro dia, sobre sonhos. Me perguntaram como são os meus. E eu achei curioso.

Eu me lembro de já ter sonhado muito. Me lembro de muitos sonhos antigos, de anos atrás, de sonhos de adolescente e da época de criança.

Antigamente, meus sonhos eram muito surreais. A porta de casa dava para o pátio de uma escola, mas a sala de aula era de outra. escola. O banheiro da escola era o supermercado e a menina do caixa me pagava por ter comido o que havia na sessão de frios, mas só na de frios. Podia beber refrigerante sem gelo desgraça se quisesse. Eu não podia esquecer de assistir o programa do Chaves durante o almoço, senão seria demitido da injeção que a bibliotecária me receitou.

Lembro de sonhar com o banheiro e acordar com a cama molhada. Lembro de, percebendo que sonhava, pedir para me beliscarem, como em desenho animado, e de, mesmo em sonho, doer de verdade. Da mãe me acordar quando sonhei com ela fugindo de casa. Do avô, há muito tempo finado, me chamando pra passear. Lembro de sonhar com tentar dormir e com o despertador tocando pouco antes de ele tocar de verdade.

Lembro de sonhos bons dos quais me arrependi de acordar e tentei voltar a dormir. E também da frustração de sonhar com outra coisa. E também de acordar aflito, agitado por causa de outros, apavorado, como Hamleto, de que o inferno possa ser a eternidade dormindo e sonhando.

Lembro de momentos em que confundi real e sonho. Aquela modorra, cansado, com sono, cabeça pra trás, tédio tédio. Eu ouvindo uma pessoa falar uma coisa e vou adormecendo, ouvindo aquela frase noutro cenário, de outra pessoa, as coisas param de fazer sentido. Cair na real aí é que é o pior.

Mas agora que tocamos nos assunto, percebo que já há algum tempo que não me lembro de ter sonhado. Me lembro de fechar os olhos para tentar dormir, de enrolar, olhar para o teto, para o escuro, a televisão, a janela, e de depois acordar. Não me lembro de sonhar. Os últimos sonhos de que me lembro já têm uns meses. Ainda assim, sonhei estar trabalhando, fazendo mercado, dirigindo pra casa pelo caminho de sempre, só isso.

Já tentei prestar atenção ao acordar, fixar a lembrança. A lembrança é um escuro. Tentei deixar um caderno na cabeceira da cama para anotar no meio da noite, se acordasse, ou pela manhã, se lembrasse. Não anotei nada. Não me lembro de nada, de nenhum.

Me lembro, isso sim, da lenda do homem sem sombra. História pavorosa que se conta às crianças. Será que ela pode ser pior do que a do homem sem sonho?

2 comentários em “Sobre Sonhar”

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