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O que poderia ser uma entrada de diário se eu tivesse um diário.

Sentenced to drift far away now,
Nothing is quite what it seems,
Sometimes entangled in your own dreams.
Genesis, Entangled, 1976

Na saída da academia, eu não queria voltar direto pra casa. Queria ver gente, algo bonito que me encantasse.

Essa pra mim normalmente é a deixa para tomar um café. Mas minha vila é muito residencial e a vizinha, onde fica a academia, tem bares, não café. Não quero beber. Até tem onde tomar café. Mas o que quero é gente, coisas acontecendo.

A Paulista é perto. Hoje vim de carro. Rapidinho chego no meu café preferido. Acho que é o preferido. É gostoso lá.

Iced TeaO caminho foi super-tranquilo, pelo Pacaembu, ainda bem que é segunda-feira, não tem futebol. Consegui fácil um lugar pra estacionar, quase em frente ao café. Será que já vai fechar? É segunda-feira. Será que fecha às dez? Queria escrever algo, ter tempo de escrever algo mesmo que fosse no celular.

O adesivo na porta, com os horários, diz que fecha as onze. São nove e meia. Talvez dê para comprar lápis e um caderno na papelaria para escrever algo a mão. Faz tempo que não escrevo algo a mão. Quero aprontar uma arte. Tive uma idéia.

Tudo muito perfeito. Livraria aberta, comprei um lápis, dois, para se quebrasse a ponta, com borracha embutida, uma caderneta igual à que carrego na bolsa, na bolsa que não está comigo hoje, trouxe só a mochila fedida do quimono.

Voltei pro café e nem tinha fila. Peguei um suco de laranja pra matar a sede de carboidratos. Glicemia caiu na academia, cai sempre, como pouco açúcar. Pedi também pra me fazer um chá verde. Chá verde tira a fome. A moça do caixa me reconheceu e brincou: “Que triste tomar café a sozinho!” Sorri. “Vim pela companhia de vocês.” Ela não devia ter brincado, mas não fez por mal, realmente ali eu destoo. Quase só há casais.

A menina que fez meu chá também me reconheceu: “Se quiser mais gelo, bebe um pouco e volta aqui.” Agradeci. Acho que estou tomando muito chá aqui.

imagesGosto de sentar com meu copo na varanda, ao ar livre. Mesmo com os fumantes por perto. Já não me incomodam mais. Aprendi a evitar o vento que traz a fumaça deles.

A varanda foi feita para eles, para os casais deles. O intruso sou eu.

Varanda quase vazia. Só os sofás, cobertos por guarda-sóis, ocupados, por casais. Deixá-los, merecem. Fico com uma cadeira, no canto, bem no canto, discreto. Lá posso ver tudo.

A minha é uma das únicas mesas ocupadas. A outra é praticamente ao lado. Três mulheres conversam. Duas garotas novinhas e uma senhora. Não parecem ser família.
Abro a caderneta, olho pra cima. Uma estrela apagada no céu de São Paulo, entre os prédios. Presto atenção até achar outra. Achar não, ela é quem me acha, aparece sozinha. Encontro outra e outra e outra e mais duas brilhantes. Conto até mais de dez. Não quero mais escrever a mão. O que vou aprontar naquela caderneta, apronto depois.

Pego o telefone pra publicar algo e pulo para a cadeira do lado, fora da luz, pra ver melhor as estrelas.

Abro o editor e começo a escrever. Percebo que, mudando de cadeira, fiquei bem de frente para uma das garotas da mesa do lado, é bonita. E me olha. Não planejava isso.

Entangled, by Kim PoorReveso entre olhar o céu e escrever. A garota conversa com as amigas e me olha, mexe nos cabelos, a palma da mão virada para mim. Parece aqueles sinais que ensinam em treinamento sobre linguagem corporal. Acho legal, mas as estrelas, no céu feio de São Paulo exigem atenção para serem vistas, e são tão bonitas!

Preciso dar-lhes essa atenção, me encantam. Como me encanta escrever sobre elas. A garota, sei que me arrependerei de não lhe dar atenção igual. Mas também sei que não é ela o que eu quero, muito menos o eu vim procurar e achei, quase sem querer, olhando para cima.

Queria estar no alto do maior dos prédios e sentir bater em mim o mesmo vento que bate naquelas estrelas. Sentir-me içado a elas como pipa, imaginando quem, eu mesmo?, seguraria a linha lá embaixo.

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