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Anthem

Depressão, ou melhor, estar deprimido, porque depressão hoje é doença, não se pode usar a palavra em qualquer contexto que já nossos amigos nos querem levar ao psiquiatra. Estar deprimido é algo que toma a gente de forma estranha. As primeiras partes do corpo que caem por terra, vencidas, são o ânimo, o entusiasmo. Se houver ao menos revolta, raiva para se insurgir, o animal revida, contra o que estiver em seu caminho, à sua frente, dentro de si, ou contra si. Se não, a chuva escorre, do céu para o rio, para o mar, e evapora, para o céu de novo. A chuva, o rio, as nuvens… a água não sente.

Por anos, ouvir música foi para mim um mergulhar em sentir. Sem ter motivo ou animo para sentir, a experiência do som, as imagens criadas na mente, me levam para onde não posso estar, trazem lembranças que não tenho. Pintam o quadro da imaginação e me levantam da cama e da poltrona sem sabor, onde depois me sentarei de novo para escrever, me deitarei para sonhar. Eu não posso abandonar a música, de jeito nenhum.

Mas há momentos na vida em que os ouvidos parecem tão entupidos, a cabeça cheia, o coração surdo, os olhos encharcados cegos ao som e sua cor, que a música não entra. Bate n’alma, na alma feita refratária, e volta ao espaço. Ecoa. Perde-se na distância, enfraquecendo aos poucos. Nesses momentos, a cama e a poltrona não são mais que o chão ao fim da queda. Não há sonho, só o eterno acordado olhar o teto, sem sono. Nem sonhos para depois escrever.

Houve um tempo em que o cinema era para mim como a música. Não me convém agora tentar entender e teorizar sobre o porquê. Nem tentar recordar quando e por que esse tempo acabou. Mas o cinema não tem a mesma poesia da música. O quadro pintado no cinema é visível. Por mais nuanças que fiquem subentendidas, o sonho que você vê não é o seu. É o de alguém que trabalhou para te mostrar como é o dele. O sonho contado não mostra tudo, só o essencial. O resto é seu. O cinema é uma sala escura onde vestimos os olhos de outra pessoa.

E é engraçado eu falar em poesia na música porque poesia é uma coisa da qual eu nunca gostei. Não vejo sentido nas frases montadas quase ao acaso, forçadas, para conseguir uma rima. O que tem de ser dito deve ser dito como é, não alterado, rodeado de ruído para rimar, para soar bem. A verdade não tem de soar bem. Tem de ser como é. Cinema não tem poesia. Ele é como é. A imagem está ali, o som também. Não há muito o que completar.

Foi num dia, numa tarde, assim de apatia, comida sem sabor, música sem poesia, lápis calado, papel em branco, que entrei no cinema pouco depois do almoço. Sessão da tarde. Coisa de adolescente desocupado. Antes fosse, eu era um adulto desocupado, e isso é imperdoável.

Eu não procurava poesia, acho que não. Só queria um lugar para descansar, uma vida passando na tela na minha frente para eu ver sem pensar. Sem efeitos especiais, sem som alto. A poltrona, um copo grande de chá gelado e um filme, bem ao estilo sessão da tarde, no escuro do cinema, sozinho na minha casca ranzinza.

O filme foi uma grata surpresa. Gostei, logo de cara. A música, o céu nublado, o caminhar do protagonista, suas descobertas. Sua descoberta. Duas pessoas conversando sobre a vida no barco calmo no lago. Estava eu aí já solto, descansado. A personagem tinha também sua casca. E falando da casca, então, a frase que eu nunca ainda havia ouvido:

There’s a crack in everything. That’s how the light gets in.

Frase simples, óbvia. O filme, que eu estava gostando bastante, não terminei de assistir. Jurei voltar no fim-de-semana para terminar. Já se passaram três e, mesmo querendo muito assistir, preferi outros, nenhum melhor que ele. Mas a frase guardei. Ainda no cinema, peguei o caderno de dentro da mochila, um toco de lápis, e, no escuro, sem ver o que escrevia, anotei para pesquisar depois. Não precisava, ela latejou na minha cabeça várias vezes até o final do dia.

À noite trabalhei. Nem tinha muito o que fazer. Trabalhar à noite é assim. Precisava encontrar com quê me distrair para não pegar no sono. Procurei sobre a frase. Foi a primeira vez que vi uma letra de música de Leonard Cohen. Procurei ouvi-la. Estranhei. Procurei outras. Li sobre ele. Poeta, a certa altura começou a musicar alguns de seus poemas. Por isso é tão diferente.

Li mais textos dele. Comprei um disco para ouvir no carro. Ouvi também, na semana seguinte, no trabalho. Mostrei para alguns colegas, poucos gostaram ou disseram gostar. Alguns disseram que não é música, que parece falado, recitado. Eu também estranhei isso quando ouvi a primeira vez. É uma recitação cantada, um falar cantado, me lembra o modo como alguns padres dão a missa.

Não é só que eu nunca tenha gostado de poesia, de lê-las. Algumas vezes tentei escrever alguma para ver no que dava, tentar pegar gosto. Também nunca consegui. Nunca consegui nem saber de que jeito queria que as minhas fossem. Brinquei várias vezes tentando fazê-las e sempre odiei o resultado. Na escola, quando obrigado a escrever uma, invariavelmente me envergonhava do resultado, mesmo que a nota fosse boa e a professora elogiasse.

Das dele gostei. Procurei mais. Achei músicas, poemas sem música, voz. Voz de gente, lendo seus próprios textos sem presunção. Achei algumas coisas que eu sempre quis dizer, e outras que gostei de que haja quem as diga, ditas sem mais forma que o dizer. As rimas, os versos, discretos, não me chamavam a atenção. São textos com ritmo, alinhados ao da música simples.

Se eu tivesse conhecido isso antes, talvez não gostasse. Talvez mesmo haja momentos certos da vida para se aprender a encontrar a beleza de cada coisa. Ouvi e li muito nos últimos dias, nas últimas duas ou três semanas. Já estou entendendo que, se eu gostar de poesia, é daquela, pois é assim que eu gostaria de as escrever.

 

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