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O do casal que passeava de mãos dadas.

Era bonito vê-los caminhar pelo bairro duas vezes por dia, todos os dias.

Pela manhã, logo cedo, de mãos dadas, desciam a rua onde moravam até o parque. Eram uns cinco quarteirões. Nessa descida, ia quase uma hora. As pessoas logo associam a velhice com falta de força, mas não, as primeiras coisas que se perde são a coordenação, a agilidade, a firmeza. Descer é muito mais difícil que subir. Cada passo para baixo é um impulso para um abismo, sem saber se o pé vai chegar a tempo e a jeito de manter o corpo em pé. Imaginem então em que passo eles desciam. Era assim, meio passo, bem lerdo, de cada vez. A cada vez que pousavam o pé no chão, uma pausa para se certificarem dele estar perfeitamente apoiado, antes de passar o peso do corpo para ele. Depois, outra pausa, para verificar o chão e criar coragem para a aventura do próximo. Iam de mãos dadas, um dando coragem e apoio ao outro.

No fim da rua, paravam na padaria, compravam um pão doce, não tinham dentes bons para mastigar outro e um copo bem grande de café com leite. Atravessavam a rua para o parque. Sentavam-se num dos bancos altos com mesa de piquenique. Às vezes, quando esses bancos estavam todos ocupados, pediam licença. Que, se não incomodasse, nós precisamos nos sentar nos altos, não conseguimos nos levantar dos outros depois, o senhor poderia trocar conosco? Uma vez, cedi-lhes o banco onde estudava, foi assim que tivemos a primeira conversa e ficamos amigos.

Faziam o café da manhã bem demorado no parque. Repartiam o pão doce e o copo de café. Sentados ali mesmo, conversavam, olhavam os pequenos que as mães levavam aos brinquedos, procuravam com os olhos passarinhos pelos galhos das árvores e borboletas pelas flores, depois voltavam para casa. Subiam a rua devagar, quase como haviam descido.

À noite, sempre de mãos dadas, caminhavam pela travessa arborizada que fazia esquina quase com o prédio onde moravam. Chegavam à ruas emaranhadas, todas também muito arborizadas, desenhadas assim, cheias de curvas redundantes, para espantar o trânsito. Iam pelo meio delas até a igreja. Quartas-feiras, sextas, sábados e domingos, havia missa. Assistiam, sentados junto à porta. Ao final, iam à sacristia, cumprimentar o padre e as irmãs, criados todos ali no bairro, perguntar por suas famílias. Encomendar que se lembrassem de amigos e parentes nas orações. Convidavam-nos para o chá. Eles, às quartas-feiras, costumavam aceitar. No fim-de-semana, os horários da igreja são apertados.

O chá tomavam todas as noites num café a duas casas da igreja. Chá de mato, camomila ou erva-doce, e bolo de três. Quando o padre ou as irmãs lhes acompanhavam, compartilhavam histórias engraçadas ou bonitas. E riam ou sorriam felizes, juntos. Quando estavam só os dois, sentavam-se com as duas mãos dadas sobre a mesa e conversavam baixinho, conversando ninguém-sabe-o-quê, sem largar as mãos, enquanto o chá esfriava. Depois bebiam, com caretas, o chá frio e pediam outro para beber ainda quente.

Já a volta do chá, não tinha as mãos dadas. Voltavam de braço dado, pela calçada escura de coberta das copas de árvores, como os namorados de antigamente. Antigamente havia namoros bonitos. Andavam bem devagar, arrastando o pé. Apontavam as estrelas, a lua, por entre uma e outra árvore. Discutiam qual a mais bonita, a preferida de cada um. Lembravam-se das estrelas que admiravam em noites especiais e de coisas que lhes aconteceram nos dias, ou noites, que ficaram marcados pela estrela que viam agora. As estrelas eram as fotos de suas lembranças. Deviam ter sido postas lá para servir como diário, aquele diário que se escreve antes de dormir. Pareciam não ter pressa de pegar a novela. Passear pela rua, de braço dado, olhando o céu, devia ser melhor.

Ela faleceu no início do ano. Um tombo no banheiro. Bateu a cabeça e não resistiu mais que dois dias. Ele, triste, não teve força para chorar como quis. Pediu desculpas a todos, uma cadeira junto ao caixão, emudeceu, pensativo.

Com os olhos tristes, mas secos, tentou continuar a vida como tinha sido com ela. Os passeios, o café, a missa, o chá. Conseguiu por dois meses. Talvez tivesse conseguido mais. O choro veio quando, leu sobre o espaço. Leu que a lua e as estrelas não estavam no céu para lhes iluminar a noite, que elas não apareciam todas as noites para ver-lhes. Percebeu que ela não estava lá, mas a lua, e as estrelas sim. Percebeu que elas não ligavam. Sentou-se na calçada, nem sabe como, chorando. Passaria a noite toda ali se os vizinhos não lhe acudissem. Não queria ajuda… Não queria… Queria…

Levado para casa, trancou-se. Não passeou mais. Perdeu a próxima missa. O padre, preocupado, foi procurar-lhe. Encontrou-o morto sentado no sofá. O lugar a seu lado ainda estava fundo, deformado por ela. Ninguém sabe como ou porque morreu. Segundo a perícia, não há como ter sido suicídio. A morte foi natural, súbita.

A descerem seu caixão à sepultura, ao lado da dela, os que o seguravam tiveram todos a mesma impressão. De que algum tambor ou coisa do tipo batia dentro. Uma pulsação. Como se o coração dele, batesse de novo, feliz por reencontrá-la.

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