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Sorriso Bonito

Eu tenho dois vícios que competem entre si: café e chá. Tenho também mais um que, por outro lado, apenas colabora com os dois: sentar bebendo meu café ou chá, vendo a banda passar.

Domingo, no final da tarde, é um ótimo horário para fazer isso. Na verdade, quase todos os horários são bons, especialmente quando há uma mesa ao ar livre pra tomar a bebida. E neste domingo havia.

Eu peguei meu chá, English Breakfast,meu preferido, gelado, enorme. Ando meio cansado de tomar chá quente fora dê casa.n Em dias de sol, principalmente, não combina muito. Gelado, acompanha bem o sol. Vou voltar a tomar quente quando voltar o frio.

Eu sou desses que pegam uma bebida no café, sentam no melhor lugar de todos e ficam um tempão enrolando e dando raiva a quem tem de tomar café em pé.

Sentei-me numa mesa no quintal. Havia várias vazias bagunçadas num canto, logo à direita da porta. Não sei por que, acho que pela sujeira da mesa (de açúcar), por não bater sol ali, por ser meio escondido e não ter onde olhar, troquei de lugar. Procurei com os olhos outra mesa fora desse canto bagunçado e encontrei uma, no canto oposto, que eu ainda não havia visto, à esquerda da porta, no fundo, dobrando uma pequena esquina. Dali dava para ver tudo, exceto a minha mesa anterior, e ainda ficava uma distância estratégica dos garotos que fumavam junto à porta. Dava para sentar espaçoso, sem trombar em ninguém, e ver, além do quintal do café, o entra-e-sai dos hospital, a calçada, os casais no restaurante da rua ao lado. Mesa limpa, dava para pousar meu tablet e escrever, se encontrasse o quê.

Nessa nova mesa, eu precisava de uma cadeira, não havia cadeiras nela. Já na mesa ao lado, uma mulher tomava café sozinha sentada numa cadeira com o pé e a bolsa sobre outra. Na minha cabeça era mais ou menos óbvio que devia pedir-lhe licença para pegar aquela cadeira que lhe servia de pufe. Pensei isso já encabulado. Pedir uma cadeira nessa situação, quando a pessoa está usando duas, me parece como repreender-lhe, fico sem graça. Para meu alívio, logo pousei minha bolsa na mesa e olhei para o lado, o segurança já me chegava com uma cadeira: “Aqui, senhor, uma cadeira.” Agradeci, não precisei desalojar as pernas e a bolsa da mulher da mesa ao lado.

Acomodei-me, pendurei a bolsa nas costas da mesa e logo recebi uma ligação. Nem tive tempo de experimentar se o chá estava bom. Era alguém do trabalho me pedindo informação sobre algo que lhe deixaram mal feito. Respondi o que sabia e fizemos piada sobre a situação. Piada sobre gente que faz as coisas de qualquer jeito sabendo que será outro a ter que resolver. Rindo da besteira, bati o olho, distraído, na mesa ao lado. Foi a primeira vez que olhei-a direto, encontrei o sorriso da menina que ouvia e ria das besteiras que eu dizia. Menina, não era uma mulher, era uma menina. Adulta sim. Mas, mesmo já não sendo novo, quando digo mulher, imagino alguém mais velha que eu, alguém que já fosse adulta quando eu ainda era criança. Ela não. Era um mais nova que eu, mas adulta, uma menina, e sorria. Um sorriso lindo, bonito e de menina. Percebeu que eu notei que ouvia minha conversa ao telefone, mas não se importou. Sorriu para mim. Quando eu ri, riu junto. Houve algo que eu falei, que ela balançou a cabeça, concordava e me mostrava que estava sorrindo.

Minha conversa se estendeu e ficou séria. Ela acendeu um cigarro e olhou de novo para suas coisas. Tinha em sua mesa café, um cinzeiro, um caderno ou agenda, uma pastas transparente aberta com papeis, alguns para fora, puxados para cima da mesa. Sem o sorriso que me prendesse a atenção, olhei-a melhor. Era bonita. Não uma mulher dessas que quase todo mundo acha bonita. Era bonita. Tinha o rosto muito bonito, os cabelos também, o corpo bem acima do peso, mas bem desenhado, roupas bem escolhidas, maquiagem muito simples e, o principal, o sorriso lindo, gostoso, desarmado, acompanhado de um olhar atencioso, curioso. O olhar agora, quem o merecia eram seus papéis, suas anotações.

Seu cigarro acabou e, logo depois, minha ligação. Tive vontade de ser fumante para ter a desculpa de pedir-lhe que compartilhasse comigo o cinzeiro. E a mesa. Ora, quem compartilha a mesa, deve conversar. É convenção social e eu não faria a grossura de não segui-la. Hesitante, voltei a meu chá, impressionado. Aquele chá nunca me soube tão bom. E esse saber, esse sabor, distraiu-me uns instantes que quase não percebi quando chegou a amiga, a amiga da menina.

Era bonita também. Essa sim uma beleza daquelas que quase todos acham bonita. Morena. E eu nunca sei se é certo dizer morena. Quando digo morena, penso logo na pele e a dela era muito branca. Morenos eram os cabelos, muito negros. Minha madrinha diria que era uma bruna. Bruna é uma mulher de pele loira e cabelos morenos. Seus cabelos eram cortados curtos. Dizem cortados à Joãozinho. Brincos de aço, jeans largos. Pareceu-me fazer algum esforço para não apresentar-se feminina demais. Sabendo-se naturalmente tão feminina, tentava criar um contraste com as roupas e os acessórios que, embora de maneira alguma conseguissem, ainda de certa forma denunciassem sua vontade.

Sentou-se na cadeira que a bolsa e as pernas da menina desocuparam, de costas para mim. A cadeira então já tinha dona, compreendi. Conversaram, a amiga rindo, a menina rindo e sorrindo. Falaram algo sobre a aprovação da menina não sei em quê. Vestibular? Estávamos em frente a um hospital, De repente, algo relacionado a uma residência. Parecia mais velha que isso. Conversaram. Amiga perguntou-lhe alto se tinha medo de algo. A menina disse estar desesperada. Feliz, mas não só com medo. Desesperada! Conversaram mais e apareceram alguns papéis com o logotipo de um instituto de pós-graduação de uma faculdade muito respeitada. Nada a ver com medicina. A amiga pediu desculpas, precisava de algo. Saiu para pegar um café também.

A menina ficou fazendo alguma coisa em seu caderno,com seus papéis. Pegou outro cigarro, acendeu. Meu chá acabou. Fui buscar outro pensando que talvez não conseguisse voltar para a mesma mesa, olhar a menina do sorriso bonito, mas que ela já tinha companhia. Fiquei surpreso de não haver fila. Meu chá ficou pronto logo e voltei para a mesma mesa, antes mesmo da amiga dela que deve ter feito algo, passado no banheiro ou coisa assim, antes de buscar o café. Eu nem a vi na fila ou no balcão. Ela trouxe dois shakes grandes, muito grandes. A menina sentada fez aquela cara de pasma diante de exagero: “Não. Eu já tomei. Não vou agüentar.” Sua amiga trocou-lhe o pequeno copo vazio de isopor pelo enorme de plástico com uma risada carinhosa que eu não entendi: “Pra você. Você precisa de doce.” Como alguém há de precisar de doce? O que pode acontecer a alguém que um especialista lhe diga que precisa de doce.

A menina me olhou antes logo que pegou o copo. Imaginei-lhe bebendo o shake com cara de criança que está fazendo arte. Todo mundo que toma um shake tão grande tem de fazer cara de criança. É para isso que esses copos servem. O conteúdo serve para engordar também. Pensei se ela tomava desses com freqüência, se eu havia olhado errado, se era muito gorda. Reparei em seu corpo, reparei direito. Não parecia mal-feito. Ela me olhou de novo. Não tive coragem de falar ou de que ela adivinhasse o que pensei.

Eu não sei o que elas conversavam, se era sobre o desespero, sobre a aprovação, se um e o outro eram relacionados. Peguei meu tablet e pus-me a mexer nos rascunhos. Elas conversando. Tentei distrair-me. Mal consegui, continuei disperso, tentando ordenar uma idéia para escrever. Percebi quando a menina me olhou mais uma vez e também daí a pouco quando foi a amiga quem me olhou. Sentada de costas para mim, teve de se virar inteira para me olhar. Fingi não suspeitar de que falassem de mim.

Levantei a cabeça, cansado de tentar escrever. A menina pegou o telefone para falar com um amigo. Anunciou para a amiga que falaria com “ele”. Ligou, deve ter caído na caixa postal e falou algo do tipo: “Não se desespere, quando eu chegar aí você vai ter mais com que se preocupar.” Falou rindo. Riu da molecagem da ameaça. Tanto a ameaça quando a risada denunciavam segunda intenção. Segunda intenção já conhecida entre as partes. Atendi meu telefone de novo. De novo do trabalho, mas desta vez de alguém que não tinha de me ligar. Ligação de gente abusada. Ela desligou a dela. Imediatamente, seu riso virou um quase choramingo. Cansada de parecer feliz, disse para a amiga que não entendia, mas aceitava, ele não gostar dela. Que não entendia conseguir tanta cosa e falhar nisso. Seu rosto se nublou imediatamente. Os olhos se perderam olhando a pedra do tampo da mesa como se vissem algo muito longe através dele. Os lábios, curioso, mantinham quase o mesmo sorriso, inabalado. Era pelos olhos que vazava a névoa da tristeza que tinha n’alma.

Minha ligação não estava amigável, eu disse besteiras que não eram besteiras. Há uma semântica nas conversas de telefone que media as coisas que falamos. As besteiras que disse então, se muitas eram parecida com as anteriores, não foram nada engraçadas. A amiga dela me olhou de novo, cara brava, devo ter dito algo que incomodou. Até imagino o que foi. Olhou-me quando brinquei a sério xingando meu colega. Tentei falar mais baixo, ser discreto. Fugi de que me ouvisse e, nisso, me distraí.

Quando desliguei a ligação, a menina do sorriso bonito terminava de falar algo. Pareceu-me ter aquela cara de quem acaba de desabafar. Terminou com um suspiro e pondo as mãos nos olhos, cotovelos apoiados na mesa. Mais dois suspiros de olhos cobertos. Tirou as mãos respondendo uma pergunta da amiga, olhando o cinzeiro. Dez segundos de pausa e levou de novos as mãos espalmadas aos olhos. Enxugou-os. Eu percebi quand as lágrimas escorreram. Rolaram para a bochecha antes que a mão chegasse ao olho. Ela teve de secá-las também. E ela as secou com um movimento discreto, só deslocou a mão dos olhos um pouco para baixo, como se nada fosse. Mas eu percebi. Ela chorou. As lágrima escorreram sobre aquele rosto que mesmo assim conservava seu sorriso. Sem nem suspirar de novo, logo se recompôs. Mas o rosto, mesmo com os lábios ainda moldados, estava já triste para quem tinha visto o que aconteceu. Não sei dizer se foi uma mudança no sorriso, que estou certo de não ter mudado, algo nos olhos, a umidade resiliente da lágrima, ou algo que me contagiou, mas eu agora a via triste.

Meu telefone cismou em tocar de novo, atendi outra ligação. Era de uma mulher, marcava um compromisso. Elas perceberam minha ligação, talvez se lembrassem também de que eu as xeretava, assim como a menina me xeretou no começo da história. A amiga me olhou de novo, ocupada demais para estar brava comigo. Depois disso, a menina do sorriso bonito, e agora triste, não me olhou mais.

Logo chegou uma terceira amiga, loira também, bonita. E depois uma quarta, magrinha, feínha. Nenhuma das duas, ou a morena, se sobressaia. Chegaram as duas últimas olhando a amiga com cara de piedade. Instalaram um clima de velório que os amigos são supostos a dispersar, não a trazer.

Eu não entendia. Não entendi o que aconteceu. Mas eu entendo, e aquela menina um dia vai ter de entender, que quem tem um sorriso assim lindo não merece chorar.

 

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