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Cerejas

 

20140806-163225-59545177.jpgQuando ela esticou a mão para me entregar a xícara, o que logo me chamou a atenção foram suas unhas, perfeitas, muito bem feitas. A gente logo percebe, em mulher que freqüenta muito a manicure, as marcas junto às unhas. Aqueles frisos dos dedos que cobrem os lados das unhas são sempre marcados, machucados ou vermelhos de sofrerem com os instrumentos da manicure. O veio da unha é escavado. A ponta da unha é geométrica, aparada e cuidado com método. As dela não eram. Eram perfeitas, sem nenhuma dessas marcas de manipulação. Não tinham pele sobrando, nem machucado ou esfolado na beirada do dedo, nem a ponta afiada. Eram quase naturais. Eu só acreditava que não nasceram daquele jeito porque estavam pintadas. Acho que ainda nenhuma criança nasce côas unhas pintadas. Estavam pintadas de um vermelho bonito. Um tom que não era o tradicional. O mesmo tom de seus lábios. Delicioso. Nos lábios era batom, é claro.

Nos lábios, esse vermelho logo me representou uma cereja. Uma cereja bem madura. Aquela cereja vermelhíssima, escura, quase marrom. Doce, cítrica na medida, carnuda, suculenta. As unhas, nas pontas dos dedos, eram então cerejas frescas penduradas na ponta do galho, ainda no pé. Pé de cereja, árvore. Os pés dela não vi. Não olhei para baixo. Não sou desses que idolatram pés. Acho mesmo que são partes estranhas do corpo. Conversar, namorar, olhando os pés. No vejo graça. Mãos, lábios, cabelos, isso sim.

20140806-163225-59545053.jpgEla me entregou a xícara, então, segurando-a por cinco cerejas, penduradas no galho, seu braço, sua mão. Havia de ter outras cinco, na outra. A última cereja, linda, sorriu para mim. Acho que queria um sorriso de volta que mostrasse que eu gostava do agrado. Sorri. Ela soltou a xícara, pegou um bombom, com os dedos mesmo, sem guardanapo ou pinça e colocou ao lado de minha xícara, no pires. O bombom devia estar um pouco derretido pelo calor da bebida. Seu dedo voltou sujo de chocolate derretido.

Ela, notando, fez cara de moleca sapeca, cara feliz. Levou o dedo de cereja ao lábio de cereja e chupou o chocolate. Chupou a cobertura de chocolate da cereja e deu meia volta, feliz, pegar um chocolate para si também.

 

3 thoughts on “Cerejas”

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