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Sorvete

Quando eu era pequeno, não eram comuns os potes plásticos de sorvete como os de hoje. Nós comprávamos sorvete em tijolo. Da Yopa, na padaria nojenta perto de casa. Ou da Gelatto, na venda do Seu Alberto, perto da avó. O tal tijolo de sorvete, era uma caixa de meio litro, de papelão, parecida com uma caixa de sabão em pó. Tinha uma tira serrilhada que a gente puxava para abrir. A caixa aberta, em cima da mesa, servia de bandeja para o sorvete. A mãe só comprava napolitano. Eram três faixas, o branco no meio, de comprido, começavam e terminavam nos lados mais estreitos do tijolo. Assim, quando cortávamos fatias com a faca de pão, cada uma vinha com um pouco de cada sabor. As comíamos no prato. A mãe só tinha pratos fundos, coisa de mãe, cabe mais comida.

Não me lembro de quando tomei sorvete de pote de dois litros pela primeira vez. Acho que eu já estava na faculdade. Comprava aqueles potões absurdos para repartir entre dois, em vez de almoçar. Mas me lembro de uma vez em que a avó apareceu com uma coisa que a gente não conhecia. Sorvete em lata. Era uma lata branca, decorada feito toalha de cozinha, pano de prato, devia ter uns quatro ou cinco litros de sorvete. Dez vezes o que estávamos acostumados. E, sem freezer, tínhamos de tomar tudo no mesmo lanche, antes que derretesse. E era de passas ao rum. Rumcompassa, dizia minha avó. Demorou para eu perceber que não era uma palavra só. Eu achava que fosse nome de uma fruta ou de uma bebida. Delícia!

A primeira brincadeira, foi tentar tirar bolas de sorvete com a colher. Nunca tínhamos tirado sorvete em bola. Isso só na sorveteria, em casa não havia. Nem tínhamos aquelas colheres esquisitas de tirar sorvete. Foi com a colher de sopa mesmo. Ninguém conseguiu fazer direito. Saíram, sim, pelotas. Cada um trapaceou do seu jeito para tirar e pegar as maiores. O pai reclamou de tomarmos tanto sorvete. Ia deixar doentes. Mas reclamou por reclamar, por obrigação de pai preocupado, não ligava. Foi na copa pegar uma cerveja, sem gelo, o pai não bebe nada gelado, não é acostumado, e se sentou no quintal, na beirada de tijolo que cerca o aquaradouro, beber sua cerveja em paz, conversar com o sogro, meu avô.

Meu irmão menor foi o último a pegar a colher para se servir. Nem precisava. A mãe já lhe tinha servido. Pegou a colher mais para brincar do que para realmente se servir. Tirava pelotas do sorvete, saíam pequenas, ele era pequeno, não tinha jeito. Fazia montinhos com elas. Vários montinhos. “Vó, ele está estragando o sorvete. Quero mais.” Quando reclamamos a colher para pegar mais, ele, sem sua ferramenta de escavação, ficou quietinho. Não tomou o sorvete, ficou olhando. Isso não é muito de se estranhar. Onde há sorvete e mais de uma criança, uma delas, inevitavelmente, só vai tomar o sorvete depois de ele derreter. Se há mais de uma criança, uma delas gosta do sorvete quando está derretido.

Pegamos mais, ele ficou olhando. “Põe o prato no sol pra derreter mais rápido.” Ele gostou da idéia. Empurrou o prato pela mesa até o sol que vinha da janela e chegava nela.

A avó, daí a pouco, terminou de passar o café. De fazer o chá de hortelã e poejo que eu gostava. O de erva-cidreira dela também. A madrinha chegou com o pão. Hora do café para que agüentasse. Precisava de espaço na mesa. A avó queria lavar a lata do sorvete para usá-la para guardar arroz. Inspecionou quanto faltava, quebrou lascas grandes com a colher e foi colocando nos pratos das crianças, para esvaziar logo. A gente ainda brigava para pegar mais do que os outros. Quando ela foi pôr um pouco mais no do neto caçula, minha irmã reclamou: “Para ele não, vó, pra mim. Ele está só fazendo nojeira.”

O menor, incompreendido e ofendido, protestou: “Não é nojeira! Eu já vou tomar. É um cemitério de bonecos de neve.”

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Kibon – Sobremesas com Sorvete!

5 thoughts on “Sorvete”

        1. Da escultura de purê de batata? Garanto que você tem coisas mais fantasiosas para se lembrar. Jogar a carne ruim embaixo da mesa pro cão comer, plantar os brócolos como se fossem árvores, comer o espaguete cada um por uma ponta igual à dama e o vagabundo…

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