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Buraco

Gosto de passear pelo mato, atrás de mirantes, bichos, cachoeiras.

Uma vez, viajando, perdi-me. Pensei perder-me. Errei o caminho, caí numa estrada de terra estreita, esburacada, muito inclinada e irregular, que contornava a serra. Quando percebi a roubada em que estava, quis voltar, mas não conseguia dar meia volta. Nem coragem dava de tentar. A ribanceira, desguarnecida, era íngreme, funda. Meu carro não era do tipo que se usa no meio do mato, nem em estradas de terra assim íngremes. Eu tinha de dirigir muito devagar, primeira marcha, pé direito fundo no freio, segurando o carro. Soltava o freio com muito cuidado para não deixar pegar velocidade. Cada dez metros que descia, era um que o carro escorregava na poeira e ameaçava rodar pra fora da estrada, pela ribanceira, ou descer o resto da estrada por vontade própria. Ré também não dava. Era muito estreito, íngreme e sinuoso para, de ré, conseguir acertar o caminho de volta.

Desci quase uma hora, procurando onde conseguisse dar meia volta, torcendo para que a estrada de terra encontrasse outra decente ou voltasse sozinha para o lugar onde comecei. Não achei nada disso, mas, no ponto mais baixo do vale, a estrada continuava por entre duas casas. Parecia uma vila. Um pouco aliviado, fui por aquele pedaço, passando as casas, entrando no que pensei ser uma vila. Logo encontrei muitos cães e um lago à frente como se fosse uma parede. Tive de desviar para não atropelá-los. Muito mansos, outros cães atacariam ou fariam pose latindo para o carro. Eles me olharam quietos como se nem soubessem o que era um carro, que cães têm de latir para eles.

Eu vinha do sol de meio-dia e ali estava escuro, fechado de árvores. O contraste da falta de luz me cegou uns segundos até que eu me acostumasse. Então percebi que não era uma vila. eram só as duas casas. Decepcionado, olhei pelo retrovisor. A casa que, quando passei, estava à minha direita, a que deixei mais para trás ao virar para desviar dos cachorros, era muito comprida. Foi quando senti um tranco numa das rodas da frente. O carro pulou e o fundo bateu no chão. Minha roda tinha pego algo, e era muito grande. Temi ter atropelado um cão.

Branco de susto, preocupado, vi que, da curva que a estrada fazia mais à frente, várias pessoas vinham com ferramentas. Eram alguns homens imundos, algumas mulheres não tão sujas. Havia também muitas crianças com mochila e uniforme de escola, limpo.

Desci do carro para olhar o que era, antes de fechar a porta, ainda de frente para  pessoal que vinha. Já ouvi uma voz atrás de mim: “Prendeu bem mesmo!”. Era um homem já de idade que vinha por trás de mim, agachado, olhando por baixo do carro. As rodas da frente do carro haviam caído num buraco cheio de água, fundo, largo, entrou metade de cada roda.

O pessoal que vinha pela estrada parou junto de mim, surpreso por haver alguém ali, ainda mais alguém encalhado. Entrei no carro e tentei sair de ré, depois de frente, sempre devagar. Depois tentei rápido de ré. O homem me fez sinal para parar: “Moço, não dá. Cada vez que o senhor tenta, a roda cava o buraco um pouco mais fundo. Não vai sair assim. Vai ter de puxar.”

Imagine-se assim, no meio do mato, encalhado numa poça funda, sem sinal de celular para chamar o guincho, sem saber explicar como o guincho possa chegar ali, sem querer explicar como fez a besteira de encalhar no buraco. Eu devo ter feito uma cara bem desconcertada. o homem ajudou: “Descansa a cabeça, vem cá almoçar com gente. O patrão já chega pro almoço, o carro dele é grande, ele reboca.”

A essa altura, a molecada que tinha voltado da escola, brincava já de tentar empurrar meu carro. Os homens passaram direto. As mulheres olham em roda, de longe: “Ixe, como foi isso? Como vai fazer isso agora?” O homem me pôs-me a mão no ombro, apontou a casa comprida: “A gente já resolve. Vamos lá almoçar.” Agradeci a oferta, a atenção, e fui com ele. Conversamos sobre de onde vinha, como cheguei ali. Ofereceu-me pinga. Vi uns pedaços de limão junto à garrafa. Pedi um para chupar enquanto bebia a pinga. Eu sei, não devia beber e dirigir, mas não achava que ia sair dali tão cedo.

O patrão, um japonês simpático que eu já havia visto na cidade, é dono de um restaurante simples perto da matriz, ele chegou. Seu carro era pouco maior que o meu, mas era do tipo que usam no interior, em fazendas, mais adequado ao terreno. Almoçamos arroz, feijão, farofa de banana, truta criada ali mesmo no sítio. As duas casas não eram uma vila. Aquilo ali era um sítio onde ele criava trutas. O lago que eu vi na entrada não era lago, era um dos tanques de peixes. Havia ao menos meia dúzia, grandes, lado a lado, e outros, disse ele, mais à frente depois das árvores. Disse ter dado sorte, a família chegou ali quando a cidade era pequena. O terreno do sítio, mal localizado para morar, saiu muito barato. Quando começou a moda de comida japonesa, percebeu que o clima dali era bom para criar trutas, a criação é barata. Passou a fornecer para os restaurantes japoneses que abriram na região.

Demos uma volta pelo sítio, tomamos café. Ofereceu-me fumo caseiro. Recusei, não fumo. Chamou uma mulher, não me lembro o nome, pediu para me trazer licor. “Você precisa experimentar, minha mulher é quem faz. Você disse que não gosta de açúcar, ela também não.” Pediu para me trazer também a mariola, que ela pegasse a do forno, mole e morna ainda. Agradeci muito tanta gentileza. Agradeci mais ainda a mariola, deliciosa. Dizem que a banana dali é a melhor do mundo. A mariola, não experimentei todas do mundo, mas aquela com certeza é a melhor. O licor de café caiu bem, amargo gostoso. Lembrei-me da subida da estrada na volta e pedi mais café.

Conversamos mais até que o empregado veio avisar que já tinham tirado a água. O japonês me chamou em direção a meu carro. A água, percebi, era a do buraco. Os empregados a tiraram com uma bomba. Dava para ver direito agora. A roda direita não tocava o chão. Perguntei se o japonês conseguiria puxar. Ele respondeu que, se puxasse, iria estragar toda a frente do meu carro, que o jeito era empurrar. Apareceram outros funcionários com umas tiras velhas de pneu de caminhão. Forçaram embaixo das rodas, calçando-as. Cobriram parte do buraco com uma prancha de madeira, para as rodas de trás não caírem lá. um mundo de gente sentou em meu para-choque traseiro. Veio mais outro mundo de cada lado, e todos empurraram enquanto eu dei partida, estercei o carro para a direita, para sair do buraco com as rodas da frente e tentar que as de trás não entrassem. Acelerei e engrenei devagar. Tive impressão de subir uma parede. O carro, quando saiu, parecia que estava empinando, de chifra, como uma moto. Aplausos, e o povo já começou a me dar ciao. Desci, despedi-me, agradeci tudo. Perguntei pelo caminho. O japonês respondeu que só havia aquele por onde eu vim.

Agradeci de novo e me despedi de novo, e voltei para a estrada. Para voltar, subi em primeira marcha, devagar, velocidade constante, sem mexer o pé no acelerador a subida toda, nem para mais, nem para menos. Demorou, mas consegui subir tudo, sem muitas derrapadas.

Demorou mais de meia hora, encontrei o asfalto de novo.

 

4 thoughts on “Buraco”

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