Uncategorized

Forte Apache

De pequeno, eu gostava muito de ler. Com quatro anos, meu irmão me ensinou. Ele tinha oito. A madrinha me comprou uma cartilha, igual à que ela usou na escola, todo mundo, no século passado, usou a mesma, e um caderno. E o irmão me ensinou, igual ela o ensinou quando ele tinha minha idade. Eu aprendi rápido. Acabei a cartilha em dois ou três meses no máximo. Ler não é difícil. Se incentivada, a criança aprende cedo e rápido.

Ter aprendido a ler cedo foi a chave do meu sucesso na escola. Logo que aprendi, meu troféu foi o acesso à enciclopédia da estante, aos livros da madrinha, aos gibis do meu irmão, ele colecionava Tio Patinhas, e, o principal, meus próprios gibis do Mickey e do Pato Donald e revistas de palavras cruzadas.

Um pouco depois de fazer quatro anos, meu irmão caçula nasceu. Havia ainda a Tata, tinha idade entre eu e o Zezinho. Quando o menor nasceu, minha madrinha começou a me buscar em casa toda quarta-feira de manhã para visitar meus avós. Era um roteiro bem estrito, com os horários bem certos.

Ela chegava em casa às oito. Conversava com minha mãe na cozinha, não me deixavam ouvir. A mãe devia falar do pai, vivia infernizando a vida dele. Às nove, a madrinha me levava. Pegávamos o ônibus na curva da estrada. Eu morava na estrada, em frente ao cemitério, meus pais ainda moram lá. O ponto de ônibus, fica a um quarteirão, num canteiro oval de uns vinte metros quadrados, que o pessoal ali chama de praça. Até lhe deram nome de praça, com o nome do português dono da padaria.

Em quinze minutos estávamos na cidade. O ponto em que descíamos era privilegiado. Tinha a maior banca de jornal e o melhor cachorro quente da cidade. A madrinha sempre me perguntava qual eu queria ganhar: o cachorro quente ou o gibi. Eu sempre preferia o gibi. Sabia que ganharia o cachorro quente de qualquer jeito. E ganhava, o cachorro quente, o gibi, numa semana Pato Donald, noutra Zé Carioca, e uma revista de palavras cruzadas. O Mickey me esperava na casa da avó.

Meu cachorro quente sempre terminava antes de passarmos pelo hospital. E no hospital havia uma sorveteria. Era hora de ganhar o Cornetto que a madrinha gostava mas, não sei porque, não podia tomar. Na esquina seguinte, em frente ao colégio das freiras, ela ainda queria que eu comesse uma coxinha. Com o sorvetão ainda na mão, não dava. Ela pedia meia dúzia para viagem, e uma empadinha também.

Passávamos a outra escola, a estadual, onde estudavam meus irmãos mais velhos e, depois, eu e o caçula. Mais um quarteirão, estávamos na avó. A empadinha eu comia ali, na mesa da cozinha, fazendo as palavras cruzadas, enquanto a avó me contava as histórias de Trás-os-Montes e preparava o almoço. Quarta-feira era o dia do peixeiro passar. No almoço, havia sempre rissoles e sardinhas, para agradar o neto que já não era mais o mais novo.

O avô ficava na varanda fumando e ouvindo rádio, conversando com a madrinha que levava roupa. Vinham para a cozinha ao meio dia em ponto. Era também a hora em que meus irmãos chegavam da escola. Almoçávamos enquanto o avô tentava nos provar que entendia mais de futebol que qualquer outro, que seu time era o melhor e que só os eletrodomésticos da Phillips eram bons. Ele trabalhou uns trinta anos lá. Sua televisão, enorme, de madeira, tinha o número de série quatro. Ele a ganhou porque era o funcionário mais antigo da Phillips quando ela começou a fabricar televisores no Brasil.

Depois do almoço, o pai vinha nos buscar para levar pra casa. Ele tinha dois trabalhos. Motorista, da madrugada até a hora do almoço, e vendeiro, do meio da tarde até o fim da novela. Nos levava pra casa no intervalo, no caminho entre os dois.

Eu chegava em casa, sempre decepcionava a mãe. Ela queria um beijo, um abraço. Eu corria com meus gibis novos para o nosso quarto de bagunça, onde ficavam a televisão, os brinquedos e dois bancos velhos de Kombi. Era a solução da mãe para não quebrarmos a casa toda brincando. Num dos cantos, eu tinha uma caixa muito grande de papelão. Não me lembro do que era, deve ter vindo da venda do pai. Era tão grande que eu comecei a empilhar meus gibis encostados às paredes dela e, mesmo quando todas as paredes já estavam completamente cobertas por eles, no meio ainda havia espaço suficiente para eu me sentar com as pernas cruzadas, lendo. Era uma trincheira, um forte, o meu forte apache. Ali, eu lia meus gibis novos, antes de empilhá-los, lia alguns antigos, enquanto os irmãos faziam lição e viam televisão.

Quando começava a escurecer, a mãe brigava comigo, para eu não ler no escuro. Eu fechava a caixa, fechava aquelas abas de papelão que funcionam entrelaçadas para fechar a caixa, e ficava ali, quieto, imaginando meu faz-de-conta, das histórias em que participaria e que escreveria quando fizesse meu próprio gibi.

4 comentários em “Forte Apache”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s