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Olha de Que Somos Feitos!

Consegui falar com meu amigo. Estava preocupado. Fiquei mais.

Ele estava feliz, e eu também feliz por ele, conseguiu um novo emprego, um cargo executivo numa empresa próxima à minha. Um novo emprego com uns degraus a mais. Coisa para se comemorar. Comprei um presente e chamei-o para conhecer o café do posto de gasolina, tomar café da manhã, e depois um happy-hour para começar a primeira semana com estilo. Ele é um irmão mais velho com defeito, cuida da minha vida e me ensina coisas erradas.

No dia de seu início, liguei-lhe. Ele furou comigo no café da manhã. Tentei o dia todo e não consegui falar-lhe, não atendeu o telefone. Furou o happy também. Devia estar enrolado com o emprego novo, a empresa, apresentações, burocracia, o caminho complicado para chegar ali, trânsito. No dia seguinte tentei de novo, nenhum contato também. Telefone ali, praticamente zona rural, pega mal, pode ser por isso, o dele devia estar fora de área. Além do mais, me lembro, ele nunca teve telefone próprio, sempre usou apenas o corporativo, podia estar sem telefone. Comecei a tentar com mais intervalo.

Depois de uma semana, veio uma resposta, alguns palavrões seguidos de “Não passei no exame médico pra admissão.” Já estava preocupado, fiquei mais. Ele não é gente que tome cuidado com a saúde. Seus hábitos alimentares são excêntricos, come só carne e queijo, nada mais. Eu chamo suas refeições de X-Carne. Cinco anos mais velho que eu, minha altura, quase o dobro do meu peso. Eu vivo lhe avisando para maneirar se quiser ver sua filha adulta. O teimoso nunca escuta.

Tentando comovê-lo, lembrei-me de uma vez em que assistimos uma colega nossa, no trabalho, desmaiar e ser carregada pelos bombeiros. No caminho por onde a levaram, ficou um rastro fedido de vômito e tudo mais que pode ser expelido pelo corpo. A menina bonita, branca, jogada, pendurada, imóvel, largada e pesada como se fosse uma boneca de pano. Sabíamos que estava viva, mas não pudemos deixar de nos impressionar. Meu amigo, impressionado, transtornado, com cara de pena e preocupação, só conseguiu me falar umas três vezes seguidas a mesma frase: “Olha só de que merda somos feitos!” Em sua simplicidade de menino que já viveu com dificuldade, referia-se à fragilidade do corpo.

A lembrança do episódio não o moveu. Perguntei do tratamento, do médico que um colega nosso lhe indicou e que ele me pediu para acompanhar-lhe na primeira consulta. Disse-me que não voltou ao médico. Ele lhe pediu uma bateria de exames. Entre eles, hemograma. Mais que medo de morrer, gosta de carne, e odeia agulhas.

 

 

 

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