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Anedota do Martelo

Eu me lembro da anedota do martelo. Um professor no cursinho nos contou. Ele falava sobre ansiedade e sobre o futuro e sobre o que achamos que precisamos para o futuro. Contou de sua própria experiência pessoal, bem sucedida, embora tenha dado certo do modo totalmente diferente do que achávamos que tinha que ser.

Ele passou no vestibular de Engenharia Química, o mais concorrido da época, muitos de nós sonhavam com ele. Cursou até o final, formou-se no tempo mínimo. E nunca trabalhou com isso. Durante a faculdade conseguiu um emprego numa creche e, encantado com ele, nunca mais quis trabalhar com engenharia, muito menos com química. Depois de alguns anos, montou sua própria creche, que cresceu e virou uma pequena escola. Bem sucedido, independente, ele então sabia que não teria sido o fim-do-mundo passar no vestibular, nunca precisou daquela faculdade que lhe tomou cinco anos. Muitos de nós achavam que seria. Ele nos recomendava não sofrer por antecipação diante da dificuldade. Contou também a anedota do martelo.

O sujeito está fazendo um conserto em casa e percebe que precisa de um martelo, e não tem o martelo. Ele vai à casa do vizinho pedir um empestado, e no caminho começa a pensar: “ele não vai ter um”, depois: “ele vai ter, mas não vai emprestar”, depois: “ele vai emprestar, mas vai querer cobrar”. E assim foi pelo caminho até que o vizinho lhe abriu a porta e ele já, antes de perguntar pelo martelo, mandou-o enfiá-lo tripas adentro.

Isso nos ilustra sofrer por antecipação. Mas a cara de surpresa do vizinho — e vamos supor, um momento, que houvesse um histórico de má vizinhança que justifique a antecipação de que ele negaria ou se aproveitaria da situação — essa cara de surpresa ilustra também um sofrimento por postergação. Depois de tantas vezes o vizinho ter recusado ajuda ou tentado se aproveitar da situação e condição de seu par que nosso sujeito, tendo ficado quieto em todas, agora resolveu reagir por todas de uma só vez, deixando seu vizinho pasmo, sem entender porque uma reação tão violenta a um evento insuspeito como simplesmente abrir a porta.

É por isso que se entende que o casa tenha brigado por um motivo bobo, que nenhum dos dois nem se lembra mais qual foi, mas que levou um deles a gritar por dois, três, cinco ou dez minutos frases completamente desconectadas do contexto do motivo da briga:

“Você nunca me respeitou…”
“E aquele lance com a minha mãe…”
“Parece que você pensa que nossa vida é só sua…”
“Eu ainda não engoli aquela história do…”
“Me fala de um vez em que você não tenha me…”

O rosto dela é claro de surpresa, o dele de revolta. As frases não tem nada a ver com o mote da briga de agora. Mas tem tudo a ver com ela. Não brigam pela besteira que aconteceu agora. Brigam pelas mágoas acumuladas. Nenhum dos dois percebe. Mas o desabafo ignorante dele denúncia. São anos de problemas pendentes esperando uma fagulha, como se fossem pólvora.

Por isso que ele, quando quis pedir desculpas pelos gritos, não achou nada que fosse certo falar, apenas deitou a seu lado. E por isso também que, quando ela tentou lhe tocar o rosto procurando ele-não-sabe-o-quê, ele se levantou e foi embora com os olhos molhados.

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