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Passarinhos

Meu avó era passarinheiro. Criava canários. Portugueses gostam de canários. É o pássaro da terra. Embora meu avô não gostasse que lhe lembrassem que ele era português. Perdeu os pais pequeno. Assassinados. Foi criado então, na fazenda que herdou, pelo tio, também português, irmão do pai. Esse tio o punha para trabalhar com os jornaleiros — é assim que chamavam os bóias-frias — pequeno ainda, oito anos. Não o deixava dormir em casa, na própria casa, dizia que era para que ele não tivesse intimidade com as primas. Dormiam com os cavalos, ele e o irmão gêmeo. Foram dezoito irmão, em várias levas de gêmeos. Só os dois vingaram. As primas eram mais velhas. Gostava delas. Lembrava delas com carinho. Com uma delas, especialmente boa, criou algum laço. Ela, com pena, lhes levava comida furtada da casa, a comida que o tio lhe racionava e muitas vezes negava. Quando teve uma neta, exigiu que lhe dessem o nome dessa prima. Fugiu de casa ainda pequeno, quando descobriu, já desconfiava, que foi o tio quem matou seus pais. Anos mais tarde foi convidado pelo governo de Portugal a assistir à execução do tio, preso por esse e outros crimes, e a reclamar sua herança. Recusou. Deixou o passado para o passado. Em sua cabeça, não era mais o rico menino português que alternava as estações do ano entre Portugal e o Brasil. Tinha outra vida, de gente simples, de que gostava. Português era o tio que não prestava.

Aproveitou a altura anormal e falsificou documentos para se passar por adulto. Conseguiu. Trabalhou de coveiro. Conheceu seu futuro sogro, também português, seu chefe e amigo. Aos doze, fingindo ter dezoito, conseguiu carteira de motorista e um emprego de ascensorista no Mappim. Os elevadores de então usavam motores de carro e eram postos em funcionamento pelos mesmos pedais, marchas e embreagens. Aos treze, casou com a filha do amigo, ela tinha quinze, também era portuguesa. Do tempo de fazenda — o pai teve duas, uma em São Paulo, no Campo Limpo, outra em Portugal, em Espinho — guardou o gosto pelas árvores, pelos cavalos e pelos pássaros. Casado, morando na modesta casa do sogro, nunca mais teve um cavalo, mas o quintal era cheio de árvores. E junto a elas construiu o viveiro que, a partir de um casal, populou inteiro.

Teve também dois papagaios. Um pequeno, meigo, subia nele enquanto fumava e lhe esfregava o rosto no rosto, como pedindo carinho. Não falava muito. Mas o avô gostava mesmo do outro, grande, bonito, falador. Ensinou-o gritos de guerra de seu time de futebol. Do clube onde foi boxeador na juventude. Esse papagaio era ruim, mau. Ninguém se atrevia a mexer nele, só meu avô. Ainda assim, o velho tinha marcas fundas no peito, pareciam talhadas a faca. Eram como aqueles que fizeram no Rambo no primeiro filme. A culpa era desse papagaio. De uma vez em que ele lhe atacou para tentar fugir do banho. Fosse outro bicho, meu avô simplesmente o colocaria dentro de um saco com um tijolo e atiraria no córrego. Fazia isso com os bichos que não prestam. Com o papagaio não fez. Magoado, perdoou com o coração o que o juízo condenava.

Ele tinha também um sabiá. Pegou-o com arapuca quando ainda morava no Itaim, na casa que o sogro lhes deixou, no tempo em que o Itaim era zona rural.

Quando eu era pequeno, já não havia mais os papagaios, só os canários e o sabiá. Tratava deles cedo na manhã o avô. Dos canários era rápido. Água para beber, água para banho, vacinas na água, pão velho, alpiste, ovos cozidos e jiló.

O sabiá era tratado na filigrana. Com cuidado, levava tempo. Bolo de fubá envelhecido, seco, aveia, farinha de milho, larvas de bicho da seda que o avô criava numa lata na garagem.

Chegávamos à grade do viveiro com um pedaço de pão e os canários se atiravam brigando para ver quem pegava mais. Nem precisava do pão. Se chegasse o dedo perto da grade, eles já vinham brigando, se batendo com as asas, e procurando com o bico algo que pegassem do dedo.

Já o sabiá, ficava sozinho numa gaiola, pendurada alta. Só o avô alcançava. Ele tinha um metro e noventa e quatro. Mesmo em cima de uma cadeira, as crianças não alcançavam. Tinham de buscar a escada. Aproveitávamos para também pegar um pouco de aveia, umas minhocas do chão. Não compensava. Mesmo do alto da escada, com a guloseima que fosse lhe oferecida, o sabiá ficava quieto, de bico fechado. Não que fosse arredio. Nem se dava ao trabalho de se mover para sair de perto, fugir da criança. Nem ficava imóvel. Continuava sua vida, o que estivesse fazendo, ignorando completamente a comida e quem lha oferecia. Nunca aceitou nada de outra mão que não fosse a de meu avô.

Quando ele morreu, quinze dias depois, morreu também o sabiá, triste, magro. A comida que a avó e a madrinha lhe serviram, intocada.

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