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Do Fundo do Baú

Subo um caminho pelas árvores, curto, uns 200 metros, talvez menos. Dali dava pra ver algumas trilhas bem estreitas, que eu não peguei porque iam para uma beirada com árvores e eu quero mesmo é ir para a parte de pedra, aberta, de onde se pode ver longe.

Em alguns pedaços de subida, pequena subida, o caminho de terra está moldado formando degraus, fica fácil subir. Não leva quinze minutos, tomando cuidado e olhando as plantas. Gostaria de ver uma onça por ali, havia de ser bonita. Sempre procuro, nunca encontro. Já ouvi rugido de onça. Escuta-se de longe. Dizem que alcança mais de quatro quilômetros. Acho que é assim que elas delimitam território. Aqui mesmo, já ouvi, mas muito longe.

Acaba o chão de terra, cheio de árvores, chega o primeiro pedaço de pedra, é como um terraço. Mais ou menos do tamanho de um terraço de um sobrado. Cercado, por um lado por uma pequena parede, de terra, com mais plantas. O acesso é feito, vindo de baixo, pelo caminho que eu subi e, seguindo mais para o alto, por outro caminho de terra, com mais árvores, essas menores, que eu já vou subir. Percebe-se que é um pedaço da pedra que aparece no meio do caminho de terra que eu subo. A beirada tem um parapeito de tubos para que as pessoas não cheguem perto da parte mais inclinada. Deve ser fácil escorregar depois dali. A queda, enorme. Estamos a mais de dois mil metros de altitude. Daqui até o vale devem ser mais de trezentos de altura. A vista mais no alto é aberta. Daqui ainda é meio estreita. Vêem-se ombros próximos da montanha que atrapalham a vista do vale é do resto da serra. Por entre eles, eu enxergo outra montanha, uns dez ou vinte quilômetros do ouro lado. É bonita. No alto dela, há um jardim bonito. Eu o conheço. Estive lá brincando já. É um jardim grande, aberto, com muita grama na parte alta, cheio de esculturas. Nas bordas, mais baixas, é cercado por árvores do bosque da montanha. Tem uma construção, um auditório, eu o conheço também, mas nunca entrei. Se eu tivesse zoom, tiraria uma foto bacana. A que tirei, de longe, vai precisar de legenda, porque não se distingue o jardim, longe.

Eu ouço um barulho, um grito ou gemido alto, um arfar muito alto. É um gemido alto de êxtase, violento, emocionado, expontâneo. Veio do ombro da montanha, onde acabam as filhas que eu não quis pegar. Alguém as pegou é chegou lá. Eu olho, há alguém, de moletom, pendurado numa corda bamba. Uma fita vermelha dessas que se prende em árvores para jogar o equilíbrio. Mas ali não estava presa em duas árvores sobre o chão do parque. Eu não via suas pontas, escondidas pela montanha e as árvores, na vista estreita. Via que ela se estendia sob o vale. O pedaço que eu via, uns dez metros de fita. Não dava pra saber sua extensão toda, onde começava nem onde terminava. O equilibrista, parece que caiu, desequilibrado, ficou pendurado por cordas de segurança. Engraçado que não dava para ver seu rosto, ter idéia da idade, da cor, mas via-se que estava cansado, o esforço para se equilibrar deve ser muito, a decepção de não conseguir também. Ficou pendurado sobre uma queda de centenas de metros. Olhou para frente, depois para a corda, fez um malabarismo — ele era magro, mas tinha que ser forte para fazer aquele malabarismo pendurado na corda — e se por novamente em pé na corda. Tentou de novo. Vi tentar mais duas vezes. Acho que não andou mais que dois metros. Tive inveja dele ali, andando numa corda no céu. Segui a subida quando ele começou a tentar mais uma vez.

Este outro trecho de subida de chão de terra logo se abre numa bifurcação em torno de algumas árvores. À esquerda, um caminho entre mato alto, queria ver o que está lá, do outro lado da montanha, mas não quero entrar no mato. À direita, mato mais baixo, mas a copa das árvores incomoda e é próximo à beirada. Vou pela esquerda, com pressa, são uns vinte metros. Quero chegar logo à pedra.

A pedra não é bem lisa, parece pedra de pia ou de amolar. Tem uns musgos. Isso aí molhado deve ser perigoso. Esse chão é muito rugoso, ondulado, não é confortável para andar, ainda mais a quando se está procurando a vista, sem olhar onde pisa. A vista, quanto mais se sobe, mais bonita é.

Em pé, exploro, de um lado ao outro, chego perto da beirada, procuro a melhor vista. Todas são bonitas. Procuro o lugar de onde vejo mais vistas e me sento um pouco. Tiro as fotos de praxe. Fico acho que meia hora, pensando na vida. Consigo ver de novo o equilibrista e um pedaço maior de sua corda, uns vinte metros. Ainda assim, não é ela toda. Dá pra ver quase todo o vale, com uma cidade no meio, e a serra deste lado da montanha. Ao fundo, as montanhas longe, na ponta mais distante do vale. Entendo então a expressão “mar de montanhas”. São ondas em tons de verde, lindas. Queria levar isto para minha janela. Este pedaço de pedra para ser meu terraço.

Para a maioria das pessoas que vem aqui, isto é uma parte pequena, apressada do passeio. Aprendi a aproveitar. Não preciso correr para ver tudo e voltar pra casa com fotos de tudo, sem ter visto nada, mais cansado e estressado do que saí. Se não conseguir seguir o roteiro todo de uma vez, volto depois, noutro feriado, noutras férias. Vim aproveitar.

Depois de uma meia hora, resolvo subir mais, até a ponta. A pedra, para subir até la, já se inclina muito. Aqui não tem mais o beiral de tubos. Eu olho e vejo um terceiro trecho de terra, com uma árvore no meio. Dando a volta nela, o caminho é plano e seguro. Vou por la.

A árvore, faz as vezes de portão de castelo. Passando por ela, a terra acaba é a pedra da montanha estreita. Dá para ver os dois lados, os dois vales, os dois braços de serra atravessando os vales, o mar de montanhas, muito mais amplo, a montanha seguinte a esta, mais alta, de pedra também, íngreme, mas com muita vegetação no alto.

Eu não sei quanto tempo levei pra ver tudo. A natureza é como as pessoas. O gostoso é o tempo que dedicado a elas e deixá-las saber o que vemos de bom e o quanto gostamos delas. A gente não pode guardar pra si essas coisas. Não faz sentido isto ser tão bonito e não saber do brilho nos meus olhos quando estou aqui. Não faz sentido meus olhos não brilharem quando estou aqui. E não faz sentido eu não ficar aqui tempo suficiente para que cada curva de montanha saiba disso. O brilho no olho de quem vê a beleza, e não é só a beleza da vista, não é mais de quem olha, é da vista, e ela tem o direito de ficar com ele.

Agora sim, me sento, não muito perto da beirada. Quero me sentir no centro, onde vejo melhor. Rezo, de olhos abertos. Depois de olhos fechados. Descanso um pouco. Pego no bornal o pão, que ontem passei na igreja para benzer, o garrafa térmica e uma fruta. Abro a garrafa térmica, tem chá, ainda está bem quente. Quente demais para beber. Não faz mal, não tenho pressa. Quero ver o sol se por, devagarinho.

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