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Vazio

Chegou do trabalho. O apartamento vazio. Vazio é modo de falar, havia os móveis, mas nenhum barulho, nenhum movimento, além dos dela. Esse vazio a deprimia ultimamente, logo que, ainda do lado de fora, colocava a chave na fechadura. Nem precisava pegar a maçaneta e abrir a porta. Saber o nada que havia lá dentro já lhe pintava o mundo todo de azul e cinza. Ela que odiava azul! O apartamento era todo descorado em papel de parede de tons de madeira clara, piso de madeira mais escura, móveis pretos, estofados vermelhos, algum detalhe branco, vasos pretos altos com plantas em dois cantos, próximos à janela, para tomarem sol. Não havia azul, nem amarelo. Amarelo por coincidência, nunca notou se gostava ou não. Apenas não achou onde amarelo ficasse bem. Tudo nessa cor lhe parecia feio. Talvez não gostasse. Já azul e cinza, era consciente, não gostava de jeito nenhum, em nenhum tom. Ao decorar o apartamento, sabia disso, nada de azul ou cinza. Lhe deprimiam, lembravam algo que ela queria esquecer.

Assim que entrou, antes mesmo, passando pela porta, já queria sair. O primeiro impulso foi de largar a mochila pesada do notebook e sair. Mas achou que precisava de uma bolsa. Mulher pode trabalhar sem bolsa. Mas à noite, passeando, fica esquisita. Estar sem bolsa, não parece coisa de mulher, não parece feminino. Pegaria uma bolsa, a bolsa, tinha uma só que costumava usar, e outra, velha, demodè, de reserva. Tinha de passar algumas coisas da mochila para ela. O resto, coisas que carrega quando sai, para o caso de algo rolar, já estavam lá, sempre estão.

As roupas do trabalho não são muito femininas. Discretas demais. Ela não gosta de se passar por indecente, ou mesmo chamar atenção, especialmente para seu corpo. Não se sente segura com ele, mesmo quando se sabe desejada. Na adolescência, odiáva-o, tinha vergonha. Hoje não sente vergonha. Mesmo assim, não se sente à vontade. Vestida, depois de várias tentativas, de pôr e tirar algumas peças, sempre acaba achando algo com que se ache atraente. Porém, se mais pele do que devia estar coberta aparece, sente-se ansiosa, com medo de que reparem em algum defeito que ela nem sabe se tem. Não usa de decotes, nada curto ou justo. Mesmo assim, as roupas do trabalho, terninho e calça pretos, a camisa branca, sapatos baixos, lembram-lhe roupa de homem. Não quer sair assim. Vai se trocar, por uma roupa mais de menina.

Mas precisa tomar banho. Pensar em trocar de roupa lembrou-lhe que está suada, nem se percebe. Aliás, vai sair à noite, não pode ir sem tomar banho e se perfumar, escovar os dentes, por uma roupa cheirosa, maquiagem discreta. Além que se aproxime pode sentir o cheiro da transpiração do dia ou de sabe-se lá que cheiro mais o corpo arruma pelo dia.

Entra no banho, não muito quente. Não sabe porque a maioria das mulheres gosta de banho tão quente. O dela é um pouco mais quente que seu corpo. Não é só morno. Isso é quente, mas não é estúpido. Não faz sentido sair do banho vermelha e suando do calor do chuveiro.

Debaixo da água, a tentação de se tocar é grande. Imagina coisas. Mãos, boca, braços, um peito. Não gosta de ser penetrada, gosta todavia dos braços e mãos que a envolvem para isso e da boca que a beija. Mas para ela, se perguntarem, diria que prefere isso tudo sentada no colo, sem penetração. Não precisa dela, não lhe dá prazer e, depois de gozarem assim, os homens parecem perder o interesse pelo resto, o resto que é o que ela gosta. Mas do que gosta mesmo é de uma boca em si. Aceitaria de bom agrado um homem impotente que usasse bem a boca. Um que gostasse disso como ela. A maioria não gosta, finge gostar e faz por obrigação. São os mesmos que lhe cobram as coisas que ela não gosta. Toca-se com uma mão, imagina lábios e língua lentos mas famintos, como ela gosta. Uma boca assim é difícil de encontrar. Involuntariamente, fecha os olhos e faz com a própria boca como gostaria que a boca imaginária, sua mão fizesse. Percebe e não se importa, a brincadeira é boa. Pega o cotovelo com a outra mão e aperta os braços de encontro ao próprio corpo. Abraça a própria barriga assim. Pensa que não precisa disso agora, vai sair ainda. Não precisa sair excitada, não precisa gozar antes. Se a noite fracassar toda, pode ver isso depois. Termina o banho.

Tinha fome mas não ia comer nada. Comer na rua é mais caro, a comida nem sempre agrada. Mas comer algo num café é sempre algo a mais a se fazer. Sai sem planos, hoje é um dia chato, começo de semana. Comer algo pode ser parte do plano. Comer distrai. Que não seja muito, que seja num lugar mais agradável que o apartamento. Ainda assim, não tinha plano. Precisava de mais para fazer, para não vagar simplesmente.

A roupa foi fácil de escolher, não era de arriscar. Pegou um conjunto, jeans, camiseta básica rosa. Não faz frio, gosta de usar roupa de frio. Tênis e acessórios combinando. Esses são mais difíceis de escolher. Deveriam ser só detalhes. Mas o importante são os detalhes. O perfume, sempre o mesmo. Ela adora. Cheira o braço com ele, gostaria de cheirar o próprio pescoço. Tem certeza de que, quem chegar assim perto, e senti-lo em sua pele, ele mais o cheiro o toque da pele, a achará irresistível. Se cheirando, ela se acha.

Saiu. Continuava sem planos, além de matar a fome. As lojas, galerias, shopping, não ajudavam. No queria comprar nada. Andou. Vagou. Acabou vagando. Passou por uns três ou quatro lugares onde achou que podia comer algo. Mas tinha que aproveitar para arrumar algo para fazer, antes que tudo fechasse de vez. Andou.

Andou. Não encontrou nada. Andou, andou. Se cansou de andar e desistiu, já era muito tarde, comércio fechando. Pensou num dos lugares que viu, um café com cara de ponto de encontro, quis voltar e comer lá. No mínimo descansaria, teria algo para comer e gente para olhar. Andou, de volta ao café, andou.

Chegou lá, gostou do lugar mais do que imaginou quando passou. Iluminação fraca, agradável, paredes e descoração em madeira escura, madeiras diferentes, runcionários de preto com avental vermelho, mit. agente sentada conversando, muita gente sozinha, sem barulho, conversavam baixinho e algo na decoração abafava o som. Gostou e entrou.

O garçom perguntou se queria uma mesa, se esperava mais alguém, se tinha companhia, se preferia o balcão, um sofá, uma poltrona. Perguntou muito, sorrindo solicito. Ela simpatizou com ele. Aceitou uma mesa pequena, para dois, iria comer algo, seria mais confortável.

Olhou em torno. Achou curioso, não havia casais. Reparou nos grupos. As interações. Pediu um milk shake de café e uma fatia de bolo de fubá. Achou curioso, segundo o cardápio, o bolo ter queijo na receita. Continuou olhando todos. A cada um, grupo a grupo, mesa a mesa. Compreendeu então que o lugar era GLS, achou engraçado. Não tinha preconceitos, não era sua praia, mas não tinha preconceito, não se sentia incomodada. Era para ela um lugar como qualquer outro. Apenas se decepcionou, não encontraria nenhum homem com quem rolasse algo. Ainda assim poderia encontrar uma boa conversa, fazer um amigo.

Três garotas, duas num sofá, outra numa poltrona, conversavam e uma lhe olhou, depois voltou a conversar com as outras. Isso lhe incomodou. Parece que ela, intrusa, incomodava as três ou, ao menos, àquela que olhou. Invejou-as, eram bonitas, pareciam ter corpos bonitos.

Esperava, não tinha pressa. A mesma menina a olhou de novo. Se incomodou. Perguntou pelo banheiro. O garçom indicou, após o balcão, no fundo, ao lado da geladeira. Levantou-se e foi para o banheiro. A menina foi atrás. Ficou com medo. Quando chegaram ao banheiro, era individual, a menina a ficou olhando como se quisesse algo. Ela, desconcertada, não pensou em algo, entrou, apressada e atrapalhada, correu trancar a porta. Sentou-se na privada chorando, de calça, nem se lembrou de olhar se estava limpa. Demorou. Ninguém bateu à porta, mas ouvia barulho de fora que na sua imaginação eram de impaciência de todos no café. Era como se todos a esperassem pedindo satisfação de porque saiu de casa hoje à noite. Quis se acalmar. Pensando em porquê tinha saído, foi se acalmando aos poucos.

Percebeu que o vazio que sentia não era de um sexo de homem ou de mulher. Era de algo mais profundo e duradouro que qualquer sexo. Podia ser preenchido por qualquer um que lhe quisesse fazer feliz. Perdeu de vez seu preconceito. Abriu a porta ainda com lágrimas escorridas na bochecha.

A menina estava lá ainda, esperando encostada à parede. Talvez ela nem tivesse demorado. Já não tinha mais a cara de quem espera algo. Mas olhou-a, olharam-se, e quando os olhos se cruzaram, a cara voltou. Avançou e beijou-a, gostoso, como gosta, como quer. Demoraram mais no beijo que no banheiro. Ao desgrudarem os lábios, a menina virou-lhe as costas e entrou no banheiro sorrindo, nenhuma palavra, mais nenhum olhar ou expressão.

Ela percebeu que o vazio ainda estava lá, que ele também não tinha sexo nem preconceito. Era só vazio.

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