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Prêmio

Não era nenhum concurso. Era uma redação normal, daquelas que fazíamos uma vez por semana. A professora disse que as notas da redação valeriam um prêmio.

Eu gostava de escrever, de ser elogiado pela professora. Escrevia o que queria sem me preocupar com a nota. Lembro de ter escrito coisas de que gostei, e de tirar zero por desagradar a professora.

As notas, queria-as suficientes, mais que suficientes. Mas não me preocupava se no final do ano meu boletim diria A ou C. Chegava no ponto em que tinha nota para passar, nem fazia mais as provas. Olhando meu boletim, dava a impressão de passar por pouco.

Lembro da sexta série. Em setembro, eu já tinha notas para passar, a professora, maldita seja, para mostrar poder, me deixou de recuperação. Não gostou do tema de minha última redação do ano. Escrito algo de ruim sobre o Partido de fé dela… Teimoso, fiz outra redação sobe o mesmo tema e o conselho da escola a fez me aprovar. Eu não ligava para notas, mas procurava não precisar ligar para elas. Os outros professores reconheciam isso e não a deixaram continuar a demonstração de prepotência.

De prêmios e de me expor também não gostava. Mas aquilo que a professora propôs não era uma competição por prêmios. Nem era mais a sexta série. Acho que era a sétima. A professora era já outra. Aquilo era para mim uma competição pela admiração da professora que eu estimava muito. Em todas as aulas de redação, ela perdia uns cinco ou dez minutos sentada ao meu lado. Puxava uma cadeira e lia o que eu estava escrevendo. Corrigia a gramática a pronto. Às vezes, eu não queria lhe aceder às correções. Porque, às vezes, o correto não é o melhor. Ela dizia que teria que me baixar a nota por isso, mas que gostava que eu fizesse a meu jeito. Eu me sentia artista. Era um respeito que não podia haver nas aulas de outros professores.

A redação, dessa vez, redigi-a com muito mais cuidado que o habitual. Quando percebi que ela não viria à minha mesa, como eu já havia me acostumado, li, reli, apaguei e refiz vários pedaços, várias vezes. Espremi a letra, criei novas linhas, para que coubessem as idéias que me vinham atrasadas. Passei à limpo, e o limpo ficou sujo porque também o corrigia.

Deve ter dado uma página e meia. Na época, eu não escrevia coisas longas. Preguiça de escrever à mão. Escrevo devagar, aperto muito o lápis, dói-me logo a mão e o pulso. Essa página e meia era uma das maiores que eu já tinha escrito. Ficou grande de tanto revisitá-la.

Ao fim da aula, a professora não passou nas mesas como sempre, recolhendo as redações, lendo a minha — a minha mesa era a primeira, junto à porta — enquanto andava recolhendo as dos outros.

Levamos nossas folhas para uma pilha em sua mesa. Uma pilha comum, impessoal. Senti-me tratado igual aos outros, isso não feriu meu orgulho, mas fez falta a distinção. Percebi que a professora queria rir do suspense, quando deixei a minha folha na pilha. Intrigado, voltei à minha mesa e tagarelei até a próxima aula, o próximo professor.

Na aula seguinte, ela trouxe as redações corrigidas. Entregou algumas, chamando os alunos pelos nome, sem citar notas, deviam ser as mais baixas, e eram, pelos alunos que as receberam sabíamos que eram. Eles não ligavam. Se divertiam em tirar notas baixas. Como a maior parte da escola, achavam divertido tirar notas baixas e mesmo assim serem aprovados. Não se pode reprovar um aluno, afeta a avaliação da escola.

Quando sobravam poucas a serem devolvidas, passou a entregá-las anunciando a nota: oito, oito e meio, nove. Tirei um nove. Acho que o único nove da sala. Não ouve nove e meio, mas três meninas tiraram dez. As três foram perfiladas à frente da classe, ganharam palmas e chocolate. Aplaudi muito, orgulho levemente decepcionado, mas grato por não ser eu ali à frente. Ri delas envergonhadas.

A bagunça se instalou, a professora não ligou. Deixou a barulheira e o falatório tomarem conta da sala. Aproveitou para chamar-me à sua mesa. Recebi um papel enrolado cheirando a álcool. Impossível não reconhecer o cheiro do papel mimeografado. Era uma oração. Enrolada. Dentro havia também um bombom grampeado, ouro branco, ela sabia que eu gosto, e algumas linhas a caneta vermelha. Alunos só usavam azul e preta, professores usavam vermelha, era a regra da época. As linhas escritas pela professora me davam parabéns por ter entregue a redação de que ela mais gostou e recomendavam que continuasse assim.

Ninguém notou essa pequena cerimônia, discreta. Notaram sim o abraço que lhe dei e o beijo que recebi no rosto, e esse depois me valeu várias gozações.

São coisas assim simples que fazem uma pessoa ser especial e deixar tanta saudade na vida de alguém.

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