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Another Day

You won’t find it here, look another way
You won’t find it here so try another day
  – Dream Theater, Another Day

Acordei na cama vazia. Vazia para mim. Lá estavam os lençóis, colchão, travesseiros, eu mesmo. Ela onde estava? Janela aberta, porta aberta, banheiro aberto, vazio. Ela havia saído do quarto. Sua falta me despertou. Sentei-me na cama e descobri-me, atento, com medo de ela ter ido embora. Acho que não iria. Barulho no andar de baixo. Ela desceu, estava lá. Mais barulho, neste andar e no de baixo. Havia mais gente, devíamos estar sozinhos. Uma mão que eu não vi segurou-me firme o coração e apertou tentando pará-lo. Não conseguiu. Desesperado, angustiado, escapei dela e corri. Atirei-me para fora do quarto. Barulhos esparsos de vários lados. Não era só um. Desci correndo a escada para a sala.

A lareira ainda estava acesa. As taças de vinho de ontem à noite, sobre a mesa de centro. O edredon jogado no chão. A música que ouvíamos ainda não acabou. Não nos preocupamos em apagar, muito menos arrumar, quando o calor de nos deitarmos chegou. A escada que desci agora, nem me lembro de tê-la subido ontem. Na minha cabeça, parece que chegamos lá carregados, transferidos. Começamos nos beijando ali na poltrona, numa pausa na conversa, ainda embaixo do edredon, sentados de frente um pro outro, aquele nosso beijo lento que nunca acaba de repente. Eu prestava tanta atenção, só ao rosto dela, que não via mais nada. Quando o calor chegou, se andamos, se a carreguei, se subimos a escada, se fizemos mais algo ali, ou só na cama, não vi. Com os olhos abertos via só seu rosto. Quando os fechei, vi só seus olhos, também fechados. O resto, só sentimos, só um ao outro. E ao acordar, também este medo senti.

Ao lado da escada, encontrei-a. Não perguntei se havia saído da cama antes ou depois deles chegarem, se os viu, por que se levantou. Era irrelevante. O importante era o que faríamos, se ela ficaria bem, se viria comigo, se sairíamos dali, se chegaríamos em algum lugar. Aquele chalé havia sido nosso refúgio. Agora, violado, não podíamos fugir para fora. Havíamos de nos proteger mais, para dentro. Ainda não perguntei nada, ela viria se quisesse. Corri a ela que me pôs as mãos nos ombros, como se fosse me abraçar. Os olhos eram de desespero e alívio.

Olhei para baixo da escada. Nessas situações, há de se esconder embaixo da escada. é um lugar óbvio. Em todos os filmes é assim, mas funciona. Não podemos arriscar. A escada tem só um vão embaixo, não é daquelas com armário. A luz da janela chega ali, a cortina está aberta e temos receio de ir lá fechá-la. Esperamos ou não? Os olhos se acostumam. Há uma porta no fundo do vão de debaixo da escada. Para onde vai a porta? Abrimos, fugiremos por ali. Será isso uma fuga ou uma prisão mais fechada?

Chegamos ao campo, um cenário noturno pintado apenas em preto e azul-marinho, poucos tons, que eu já conhecia. O bosque, ali à frente, em preto, contorno simples, poucos detalhes. O céu, era o fundo azul-marinho. Tudo parecia uma colagem de criança feita para a escola. Encomendada para a professora. Não era colagem, era real, mas eu já o conhecia, já o havia recortado ou visto recortado. Corremos para ele. Lá dentro, cercados pelas árvores negras, elas pareciam bem espaçadas. O céu, ao fundo, parecia proteger-nos também, como nosso edredon da noite anterior. Não havia sol ou lua no céu, e nem olhamos para cima, mas um calor, que não pode ser da noite fria e escura, nos envolvia. Caminhamos, com muito cuidado, devagar. O chão, as raízes, tudo era preto como as árvores. Não havia como andar sem ter cuidado. Não havia como continuar correndo.

Sentimos bafo, uma respiração gelada atrás de nós. Por dentro, gelamos os dois. Não dava para ver ninguém, mas eles chegavam. As árvores não tinham detalhes suficientes, galhos, para subirmos numa. Estávamos cansados de fugir, só queríamos paz. Por entre elas, quanto correríamos até chegar à segurança? Essa segurança existe?

Uma árvores baixa se inclinava em direção a outra. Lembravam a escada com o vão embaixo. Nos olhamos. Esse olhar, mesmo antes de vê-lo, já o conhecíamos. Peguei sua mão, faltava isso ainda. Foi a primeira vez que peguei-a. Sorri-lhe a apreensão e tudo mais.  O sorriso lhe apontava o vão por baixo da árvore inclinada. Ela deu um passo, ficou a meu lado. Nos abaixamos juntos e entramos no vão. Nele sumiu o azul-marinho, era só o preto. Não tinhamos corpos. Nem olhos. Esses filmes em que os olhos são nítidos no escuro mentem. Se não há luz, não se vê nada, nem os olhos. Não víamos nada, tínhamos ali só nossa consciência, era nossa, uma só, de nós dois, e o sentir as mão dadas se segurando apertadas.

Saímos do outro lado do vão. Já não éramos nós dois. Para quem nos olhasse, éramos uma árvore, como as outras talvez.

Temi que um deles quisesse madeira ou uma fruta e, sem saber sermos nós, tentasse pegar um pedaço dela. Eu não deixaria. Não sei como. Alguns medos são maiores que outros. Eu não deixaria lhe fazerem mal. De algum jeito não deixaria. Mesmo árvore plantada, não deixaria.

Ficamos quietos, esperando que passassem, ou que acabasse a noite. Alguma cor haveria quando a noite terminasse. Ficamos quietos, esperando e imaginando que cores seriam.

 

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