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Ponto de Ônibus

Ontem à noite, dirigindo de volta pra casa, vi um casal bonito, em um ponto de ônibus.
Não achei um ou outro bonito. De beleza de homem, não entendo, mesmo que entendesse, não diria. Não fica bem a homem, dizer que outro é bonito. Ela não era bonita, muito magra. Talvez eu é quem seja muito exigente.
Mas não havia como não achar bonito. Não devia haver nada entre eles ainda. Talvez fosse a primeira vez que se viam, talvez a ultima. Mas algo havia ali. Não eram figurantes um ao outro.
Alguma coisa falaram, provavelmente do tempo, sobre a chuva. Ou sobre a demora dos ônibus. Não era uma conversa. Um disse uma frase. Muito depois, o outro disse mais uma.

Havia só os dois no ponto. Dos quatro assentos vermelhos de metal, ela estava no segundo. Ele na barra azul, a que serve de suporte aos bancos. Os bancos não têm pés, são soldados, pelo encosto, a essa barra, que se estende até as laterais do ponto. A barra parece, assim, um poleiro. Ele está sentado nela, empoleirado, um assento vazio entre os dois.

Esperavam o ônibus e perdiam tempo. Estava claro para quem, como eu, ficasse vinte segundos parado naquele semáforo.

Nem se olhavam, tímidos os dois. Ela olhava a guia, ou a sarjeta, ou nada disso. Precisava de seus olhos para saber. Ele olhava os próprios pés. Via os tênis vermelhos, os cadarços. Os pés estavam dentro.

A gente usa a metáfora de olhar nos olhos sem pensar no que significa. Já a usei tantas vezes! E nem gosto dela. Olhar nos olhos pra mim não pode ser metáfora de outra coisa. Olhar nos olhos é bonito. É a maior das entregas. Muito maior que tirar a roupa, seja no escuro ou no claro, e deixar o corpo falar. Olhar nos olhos não fala nada mas diz: “Estou aqui, você sabe que olhar nos olhos é quase impossível, mas os teus eu olho, e gosto, e vejo que você olha os meus também.” Sorriam ambos. encabulados. Mas, vacilo, não se olhavam. Não viam os próprios sorrisos, coincidentes, nos rostos um do outro. Juntos, sofriam separados a timidez.

Mais cedo ou mais tarde, passaria um ônibus. Se não pegassem o mesmo, talvez lamentassem depois. Perderiam o bonde, o ônibus, da história.

Já na garagem do prédio, tive vontade de voltar lá e juntar-lhes as mãos.

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