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Pirilampos

Eu poucas vezes vi pirilampos. Talvez tenha visto mais alguma, mas me lembro só de duas.

A primeira, na casa de meu avô. Ele tinha um quintal grande com muitas plantas, árvores e mato. Não sei porque estávamos brincando ali à noite. Não era nosso costume, devia haver alguma festa. Brincávamos de pegar. Eu atravessava um pequeno caminho no meio das plantas, e parei por causa de um brilho verde, a luz deles é verde, que me representou alguma coisa presa numa teia de aranha. Foi o bastante para meu irmão me pegar. Apelei, a teia havia me atrapalhado. Não adiantou, perdi a causa, e ele me disse para olhar bem. Não havia teia. Mostrei o brilho parado no ar. Ele olhou e reconheceu um vaga-lume. Explicou-me direito: era um pirilampo, aquele que falavam no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Curiosos, a brincadeira acabou até a avó chamar. Eu devia ser bem pequeno, era pequeno quando ela morreu.

A segunda foi na casa da outra avó. Num domingo, depois do jantar. Sempre comíamos frango no jantar do domingo na avó. Meu pai matava dois frangos pela manhã e os preparava à tarde. Saia para a missa e mãe os olhava no fogo até ele voltar. Quando chegava, eram um banquete. Frango de criação é grande, não parece com esse pequenininhos congelados. As asinhas eram de minha avó, ela adorava, eram a única carne que comia a semana toda. Num domingo, enquanto a mãe e a avó lavavam a louca, brincávamos de pegar. Deve haver alguma coisa ente pirilampos e brincar de pegar. Eu corri para as roseiras atrás de minha irmã e, entre nós dois, vi uns pontinhos. Achamos que fossem varejeiras refletindo alguma luz. De novo meu irmão fez a identificação. Eram dois pirilampos voando. Corremos para pedir a câmera para a mãe e chamar a avó. Quando voltamos, eles já tinham sumido.

Eu juro que, com tantas pombas e pardais por aí, não entendo esses bichinhos. Eles gastam energia ficando luminosos, mais fáceis de serem encontrados. Veja a mariposa, por exemplo, fica quietinha, parecida com a casca da árvore, para não ser encontrada. Eles não, são fáceis de achar. Das duas vezes, só me lembro deles pela luz verde. Lembro de onde eu estava, o que fazia, mas não me lembro dos bichinhos mais do que a luz.

Olhei agora na enciclopédia e vi a foto de um. Se parece com uma lombriga cascuda. Um pedacinho de galho de eucalipto. Feio, feio, feio, muito feio. Com a luz verde na barriga. Parece que engoliu um luminoso de boate. Tão feio! Talvez a luz seja isso. Um enfeite que ele sabe que lhe faz mal. Mas prefere esse mal a não ter esperança de trazer nada bonito em si.

4 comentários em “Pirilampos”

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