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A Azul

As outras crianças estavam fazendo algazarra junto a uma parede de vidro, na verdade, um quebra-vento de vidro que foi colocado entre duas colunas para que os porteiros não tomassem chuva.

Isolado, fui procurar qual era a brincadeira, talvez participar. Queria brincar também. Não era brincadeira. Uma borboleta, uma grande, bonita, de asas azuis, se batia de encontro ao vidro sem conseguir sair para o jardim. Voava de baixo para cima, arrastada de encontro ao vidro, achando que o vazaria.

As crianças, cercavam a bichinha, um menino cutucava com um graveto, quando conseguia, voltava correndo, com medo do que tinha feito. Alguns discutiam do como pega-la, conserva-la num pote ou dentro de um livro.

Achei-a muito bonita. Mas, mesmo que não fosse, não gostava de vê-los importunando-a. Fui o estraga-festa. Tinha medo de tocá-la, acho que todos que a cutucavam também tinham. Tinha medo de machucá-la. Mas também não queria que se machucasse. Fiquei frente a ele e esperei que pousasse. Pousou no chão, junto ao vidro, asas juntos, acho que cansada. Tentei pegá-la pelas asas, entre dois dedos. Vi isso algumas vezes na televisão. Parece ser o modo certo, para não machucar. Ela fugiu antes que eu encostasse, acho que consegui na terceira vez que tentei. Ela já devia estar muito cansada. Acho que por isso consegui. Não queria apertar as asas. Não sabia se poderia machucar. Era tentador tentar guardá-la em algum lugar, para mim. Entendi as outras crianças que falavam em guardá-la.

Eu não podia. Olhando sua beleza, dei a volta no vidro e fui ao jardim. Não sabia direito como fazer. Encostei-a a uma planta, acho que era uma espada-de-são-jorge. Abri os dedos, a outra mão ficou embaixo, para se ela caísse.

Não caiu, pôs os pãezinhos na planta. Ficou. Não sei se perdeu o medo de mim ou se estava só cansada. Demorou bem pouquinho. Fiquei junto para se as crianças viessem importuná-la.

Quando viu por bem. Bateu asas e voou, por cima do muro, levando seu azul. Não a vi mais. Não vi mais nenhuma igual que pudesse confundir com ela.

Talvez tenha sido pega por uma pomba, por pardais, um sabiá. Sabiás gostam muito de borboletas. Talvez tenha se mudado para outra vizinhança ou esteja trancada em um toca.

Não é da minha conta. Por isso a levei ao jardim. Ela tem o direito de ser bonita e feliz do jeito que quiser.

4 comentários em “A Azul”

    1. Pretensão minha achar que a salvei. Talvez ela estivesse segura com as outras crianças, soubesse se defender. Talvez não. Tentei tratá-la com o carinho que achei que merecia, não pedi licença para isso, é verdade. Não sei se fiz certo ou errado. Ela pode ter voado de mim porque atrapalhei, ou voado por si porque ajudei. Acredito que fiz certo, porque tentei fazer certo. Não sei onde ela está enquanto escrevo isso, mas, onde estiver, está também meu carinho.

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