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Rosto

Ele nunca antes havia deixado ninguém por a mão no seu rosto. A avô punha. Morou dez anos com ela. Não era opção, mas também era diferente. ela, quando não tinha boa coisa para contar, em vez de falar, pegava-lhe seu rosto entre as mãos, tentava apertar com força, nunca conseguia. As mãos tremiam, ela fazia cara de choro e esperava que ele entendesse o que acontecia. Foi assim quando o avô e o irmão morreram, foi assim também quando ela percebeu que não viveria o suficiente para vê-lo terminar a faculdade.

Ele é muito tímido. A avó ele deixava fazer, porque era tímido demais para decepciona-la. Não deixou mais ninguém, nunca mais. Não sabia porque. Incomodava. Talvez sentir-se na mão de outra pessoa, à sua mercê, entregue ou dominado. Talvez lhe parecesse isso e, por isso, lhe incomodasse.

Houve duas exceções, duas vezes só. Um primo, homossexual não assumido. Ele sabia. O primo por duas vezes se emocionou. Uma de alegria, casamento da sobrinha. Outra de tristeza, funeral da irmã. Nas duas, chorando, segurou-lhe o rosto, deu-lhe três tapas firmes na bochecha, um beijo na bochecha estapeada e agradeceu pela companhia. Ele não se incomodou com isso. Não se sentiu mal, era só um demonstração de amizade e de satisfação. Quando o primo morreu, chorou. Gostava de ter-lhe feito companhia uma última vez e retribuir-lhe, rindo os dois, ao menos um dos tapas no rosto.

É algo estranho. Não tinha vergonha de pedir colo, de se mostrar frágil, de chorar. Mas, mesmo nos momentos de maior intimidade, nunca deixou uma mulher fazer-lhe carinho no rosto. Desviava-o, olhava para o lado, para cima, fingia procurar algo no chão.

Uma noite, antes de dormir, com a nuca enterrada no travesseiro, olhando o teto, pensando nas coisas que lhe tiravam o sono, chorou. Abraçou o travessei como se fosse o colo da mãe. Engoliu o choro, totalmente em silêncio. Esse lhe doeu até sair, em silêncio pelos olhos. Pela boca não sairia nada.

Tentou pensar em algo bom, que o acalmasse. Conseguiu. Logo se lembrou de alguém. Pensou em abraçar-lhe, mas não queria se mexer. Uma das bochechas estava virada para cima, desencostada do travesseiro. Imaginou uma mão cobrindo-a. Quando notou que isso não lhe incomodaria, quis sentir um afago, a mão inteira aberta, alisando-lhe o rosto. O coração se apertou. Queria participar, retribuir o carinho imaginário. É difícil imaginar o que fazer numa situação inédita. Achou que a abraçaria, com os rostos colados, tentando sorrir. Mas não sabia se assim ela conseguiria continuar com a mão em seu rosto.

5 comentários em “Rosto”

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