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Oitava Série

Minha escola, como todas as escolas públicas, não era nenhum modelo de organização. Improvisos e coisas mal-feitas, ou simplesmente abandonadas, por todo lado.

Na oitava série, minha classe ficou numa sala separada das outras. Na verdade, nem era uma sala. Era a antiga cozinha da escola, que foi adaptada para servir de refeitório para os professores e, depois, improvisada como nossa sala de aula.

Não era um lugar ruim. Fomos para lá depois de muita reclamação. Uma pequena rebelião vitoriosa dos alunos da 8ªA contra o império da má administração escolar.

A princípio, haviam-nos colocados numa saleta apertada entre duas outras salas de aula de verdade. Escondida atrás de um pilar e ao lado da mesa do inspetor de alunos. Mesa que servia a ele também de banca. Era bicheiro dos professores. Essa saleta, tinha sido usada antes como escritório do Centro Cívico. Era pequena, pouco ventilada, quatro vitrôs bem estreitos junto ao forro, a lousa era uma parede pintada de verde escuro, as cadeiras e mesas eram do pré, as normais não caberiam.

Por algum motivo burocrático, a escola, naquele ano, teve mais classes do que salas. Classes e salas são coisas diferentes. Classes são alunos, salas são recintos. O pretexto para nós sermos os improvisados foi a nossa ser a classe menos numerosa da escola. Éramos quinze alunos, as outras classes tinham entre trinta e cinqüenta.

Isso é, ou era, muito comum em escolas de periferia. Na primeira série, cada escola tinha umas três classes em cada período, cada uma como mais de cinqüenta alunos. Com o tempo, os piores alunos vão sendo retirados da escola pelos pais e postos para trabalhar. Na quinta série, alguns, mais violentos e revoltosos, dados como casos perdidos, são enviados para colégios militares. É a esperança dos pais de endireitá-los antes que caiam no crime. E parece-me que funciona. Entre bons alunos e os comportados, há também algumas baixas, a maioria entre os meninos. Alguns perdem o pai, morto, preso ou fugido, ou passam por outra dificuldade, e têm que assumir o sustento da família. Tive um colega de amigo de muito talento que passou por isso ao perder o pai, policial quando tínhamos uns doze anos. Parou de estudar, voltou, parou, voltou. Nunca conseguiu explorar todo seu potencial. Outros procuram um colégio técnico em metalurgia. Essa é uma profissão perigosa, insalubre, mas muito cobiçada pela molecada. Tem adicional de insalubridade, horário fixo, registro, estabilidade, pois exige qualificação, e, o principal, aposentadoria precoce, entre os quarenta e quarenta e cinco anos de idade. Quem consegue, com catorze, quinze anos, recebe mais do que seus amigos office-boys. Normalmente, mais que os pais. Se tiverem juízo conseguem, junto com os pais, pagar aluguel na cidade. Em alguns bairros, viver é mais perigoso e insalubre que entrar num forno enquanto ele derrete metal a oitocentos graus centigrados.

Foi assim que minha classe, que tinha quarenta e cinco alunos da segunda série, chegou na oitava com apenas quinze. Meninos, éramos só dois. Os outros ficaram pelo caminho.

Na manhã da revolta, tumultuamos tanto a escola, o corredor do prédio térreo onde ficavam as salas de aula, que, na manhã seguinte, o direito desceu de sua sala e veio ouvir nossas exclamações. Descer é modo de falar. A escola toda era térrea. Ele defendeu a posição da escola, posição dele, e ficou sem jeito quando sugerimos trocar de sala com ele. A sala dele, para ele sozinho, era maior. O diretor tinha má fama entre os alunos. Nunca tive reclamação. Mas era severo, de poucos sorrisos. Nessa reunião, foi uma das poucas vezes em que o vi perder o rebolado. Disse que não via o que fazer e nos pediu paciência, procuraria um jeito de atender tais e tais reivindicações, eram justas, e melhorar as condições na saleta.

Na semana seguinte, logo na segunda-feira, ao chegarmos à escola, ganhamos a outra sala. Essa sim. Era a maior da escola. Ficava no prédio da direção, não no das salas de aula. Tinha, no fundo, uma porta para dentro do prédio, para um corredor pequeno que levava a outro maior, que levava ao saguão. Outra porta para o quintal, diretamente para o quintal, muito longe dos outros alunos, professores, funcionários, inspetor. Dava para matar aula à vontade, namorar nos intervalos, cantar, jogar capoeira, fumar. De discriminados e zoados, passamos a privilegiados e invejados.

Acho que honramos esse privilégio. Com tudo que fazíamos essas coisas, proibidas aos outros, não me lembro de alguma vez termos aprontado algo que nos levasse a repreensão. Sentíamo-nos completamente à vontade ali, como se fosse uma escola separada, reservada, só nossa.

E alguns professores também aproveitavam. Procuravam aproveitar com criatividade e gosto as aulas dos exilados. Ali podiam falar alto, falar mal dos outros alunos e professores, sem medo de serem ouvidos. Podiam tomar sol ou fumar à porta durante a aula.

Tínhamos aula de história sentados no chão do lado de fora, tomando sol. A professora, com café na mão, gritava um palavrão para recobrar a atenção quando nos dispersávamos. Xingava alto as personagens históricas. Dizia, todavia, para não escrevermos isso nas provas. O diretor não gostaria.

Eu não gostava das aulas de português, de aula de gramática. O assunto me interessa muito. Mas, apesar do assunto e das professoras, tanto no primeiro quanto no segundo grau, tentava fugir delas. Não sei se ainda são assim. No meu tempo, eram comuns exercícios repetitivos de escrever frases longas várias vezes com vários sujeitos e objetos e advérbios e adjuntos etc diferentes. Páginas e páginas repetitivas para treinar concordância. Eu escrevo muito devagar. Sempre escrevi devagar, sobretudo à mão. Morria de ódio desses exercícios. Eu era um ótimo aluno, não tinha muitas dúvidas sobre a concordância – isso foi naquela época, estudava, hoje descuidei disso, e até gosto mais de escrever – mas sempre era o ultimo a terminar, muito depois dos outros, com os dedos, a mão, o pulso, o cotovelo e o ombro doloridos de tanto escrever. o pescoço doendo da posição. Os olhos doendo de cansados.

Tentava fugir, apesar da professora. A nossa professora de português não tinha com ser uma chata. Era uma morena bonita, nova. Devia ter entre vinte e vinte-e-quatro anos. Os alunos, de catorze a dezesseis. Eu era o mais novo da classe, catorze. Ela fazia faculdade ainda, não sei como podia dar aula. Aliás, acho que não podia, mas a deixavam mesmo assim. Era cobiçada por todos os dois meninos da sala. Naquela época, mulher não podia ser magricela, como as da moda de hoje, ninguém gostava de mulher magricela, e ela não era. Mas também não podia ser gorda, e ela também não era. Usavam-se jeans justos, ainda sem lycra, só o tecido de brim, mas achávamos demais. E ela também usava. Ou, então, vestidos. Não muito justos, nem era moda usar vestido, pelo contrários, vestido era coisa de crente. Mas ela usava vestidos femininos bem diferentes dos de nossas mãe e dos das colegas crentes, e eles marcavam o contorno da professora e da lingerie.

Ela dava as explanações da aula, sob os olhos atentos das meninas, e mais atentos ainda do menino, eu. Meu colega precisava disfarçar. Ele ficava com uma menina da sala. Depois de falar e rabiscar no quadro, nos mandava fazer os exercícios da página tal. Não importa a página, o enunciado era sempre longo, e o trabalho braçal dezena de vezes mais longo. Mal começávamos, ela pedia licença. De dentro da bolsa, pegava uma frasqueira, hoje se diz necessaire, e saia. Voltava uns minutos antes do fim da aula, para a correção, oral. Se houvesse justiça na escola, ela deveria passar as respostas por escrito, na lousa, para experimentar, nos braços, as mesmas câimbras que seus alunos tinham.

Nas primeiras vezes, saia e voltava pela porta que dava para o prédio da direção. Lá havia a sala e professores, seus armários, banheiros limpos – os das crianças nunca eram lavados. Devia ir ao banheiro. Mas demorava, muito. Devia ir à secretaria. Era nova na escola, devia está resolvendo algum assunto burocrático. Voltava para a classe, estranha. Com uma expressão estranha. Eu notava, meus colegas diziam que não. Olhos arregalados, respirando rápido, cara de assustada. Que devia ser? Por uns dias, fantasiei que ela fazia no banheiro o que adolescentes fazem no banheiro.

Depois de algumas semanas, saiu algumas vezes pela porta dos fundos da classe, para o prédio, e voltou pela da frente, do quintal. Fez assim umas três vezes. Depois começou a sair e voltar sempre pelo quintal.

Comentei com meu colega. Ele achou graça de eu ficar curioso com isso. Ele mesmo não ficou. Tinha mais com que se preocupar. Já que a professora saía para o quintal, ele e a candidata a namorada aproveitavam para se fechar no closet ao lado de nossa sala, antes da esquina da biblioteca. Era um pequeno depósito de materiais antigos de educação física: bolas esquisitas, alteres, umas coisas que pareciam bambolês, e colchonetes… A professora demorava mesmo… A aula de português tinha quase três horas, duas vezes por semana. Ela passava ao menos uma fora da classe.

As meninas também não pareceram se importar. Também deram risada de minha curiosidade, quando comentei da respiração alterada da professora ao voltar pra sala. Que será que ela fazia? Já essas risadas eram maliciosas. Que fofoqueiro eu! Não ligavam para a professora, era mulher, como elas. Preferiam conversar sobre onde dançariam no fim de semana. Agora, acho que riam de minha inocência. Acho que só eu fazia a lição trabalhosa da aula de português.

Numa aula, após a professora sair da sala, de meu colega e sua amiga irem para o closet e das primeiras meninas começarem a se juntar em grupos puxando conversa, fingi que ia ao banheiro e saí da sala. A professora tinha ido pela porta do quintal, eu fui pela do prédio. Eu sempre andava por dentro do prédio era um atrevimento meu, diziam os outros alunos. Também diziam que eu ainda ia me meter em encrenca por causa disso. Mas eu sempre usava aquela porta, nunca me falaram nada. Era uma porta. Dava para um corredor, que passava por salas dentro de um prédio. Eu chegava mais rápido no pátio, na porta da escola, nos banheiros, sem chuva nem frio. Os outros davam a volta por fora, pelo quintal. Nunca lhes disseram que deviam fazer assim. Tinham medo de quebrar a regra que não existia. Quando temos medos irracionais, criamos regras que não existem, e as respeitamos cegamente. Pra mim, era melhor que eles tivessem mesmo medo. Se também usassem o caminho pelo prédio, logo aprontariam uma bagunça e, aí sim, e com toda a razão, a regra da proibição passaria a existir.

A porta do banheiro das professoras estava aberta, vazio. O dos professores também. Ninguém pelo saguão. Voltei até a porta do closet. Lá ela não estaria. Não estava na biblioteca. Porta do laboratório fechada. Olhei pelo pequeno visor de vidro da porta, laboratório vazio. Copa vazia. Na sala dos professores, nenhum era ela. Sala do vice-diretor vazia e a do diretor também. Na cozinha nova, só as duas merendeiras lavando louça. Secretaria.. não, também não estava lá. Sai do prédio da direção pela porta que dá pro pátio. Dá. Ainda hoje a porta dá para o pátio. A escola ainda existe. A porta e o pátio também. A porta ainda dá para o pátio e para o saguão do prédio da direção. No pátio, ela também não estava. Fui pela direita, direção da caixa-d’água, dos banheiros dos alunos e do prédio das salas, era por essa direção que ela voltava, devia vir de lá. Eu, curioso, e ela devia apenas estar de conversa-fiada com outras professoras, noutra sala de aula. Ou, como alguns professores faziam, dava aula em duas classes ao mesmo tempo, para sair mais cedo ou entrar mais tarde. Tinha estado excitado em desvendar um mistério. Fiquei frustrado, iam rir de mim. Se eu contasse. Mas não contaria, seria uma história muito sem graça.

Voltando para a classe, pelo quintal, passei pela torre da caixa-d’água. Olhei para as classes do primário. Não foi coincidência. Havia de olhar para algum lado. Era para lá ou para o banheiro. Olhei para lá, em direção ao prédio das salas de aula, por entre a edícula, que eu nunca soube para quê servia, e a torre da caixa-d’água. Vi um pedacinho de coisa azul marinho onde só devia ter mato.

No prédio das classes, há algo que deve ter sido projetado para ser uma saleta, armário, ou guarita. Era fundo como uma classe, mas estreito. Parecia aquela classe onde nos puseram no começo do ano, antes da rebelião. Mas a porta que era só a abertura, sem batentes nem a porta propriamente dita, dava para fora do prédio. Não havia porta para o das outras classes. Também não tinha teto. Junto às paredes, havia uma espécie de calçada de cimento, estreita. No meio, só o chão, de terra, mais baixa que a calçada de cimento. Muito mato. O vão de terra era como um canteiro de mato alto, alto mesmo, metro e meio de altura, por aí. Ninguém entrava lá, não servia para nada. Quando eu era pequeno, o mato não era alto, as meninas usavam aquilo ali de prisão. Brincávamos de elas nos capturarem. A regra era elas não precisarem seguir regra nenhuma e poderem fazer o que quisessem com o prisioneiro até que ele fosse salvo. O prisioneiro tinha os direitos de ficar calado, de não tentar fugir, de ser educado e de obedecer. Se quebrasse alguma regra, apanhava dos outros. Agora, penso bem, não me lembro de alguma vez ter sido feito prisioneiro. E eu, bobo, me orgulhava de não me deixar pegarem…

A entrada dessa prisão ficava meio escondida pela torre da caixa d’água. Não era visível do pátio. Bom esconderijo, as meninas souberam bem escolher o lugar.

O vestido da professora era azul-marinho. Fui até a porta e olhei. Ela fumava, no canto, onde era mais difícil vê-la de fora. Eu só tinha reparado no pedaço azul do punho do vestido porque já havia saído da sala pensando nele.

Ela me percebeu, mas não me olhou. Chamei pelo nome, com ponto de interrogação no final, como se perguntasse se estava tudo bem. Ela não respondeu. Tinha um braço cruzado à frente do peito, mão embaixo do sovaco. O outro, esticado, segurava o cigarro. Tremia as pernas, muito, como quando queremos nos aquecer. Não estava frio. Ela tinha pressa ou vergonha de ser encontrada. Fui a seu lado para também não ser visto de fora. Ela ali, fora da classe, não era professora, era uma mulher bonita, mas comum e simpática, mulher bonita não costuma ser simpática com homem feio. Era também mais velha que eu, mas eu já a conhecida e me sentia em liberdade de poder falar-lhe. Falaria se tivesse palavras. Senti-me um moleque intrometido. E era. Em segundos, ela ficou à vontade e acalmou as pernas.

Com o cigarro, apontou-me, no meio do mato, um dente-de-leão. O cigarro não era industrializado. Por mais bobo que eu fosse, percebi o que era. “Eu gosto de soprar isso.” A voz estava relaxada. Falou sem cerimonia. Quando estamos à vontade, não importa se o que dizemos é só uma bobagem. O rosto deu um certo pequeno sorriso. Ser pega fazendo o errado acabou com o medo de ser pega.

Eu disse para assoprar. O tom da minha voz também teve pontuação, foi convidativo, de quem pergunta “Por que, não?” E incita: “Se você quer, faz.” Ela passou o cigarro para a outra mais, a que estava do meu lado. Mo ofereceu então enquanto se abaixava um pouco para pegar o dente-de-leão. “Não gosto.” Não tinha como saber se não gostava, nunca tinha experimentado. Agora, acho que não vinha isso ao caso, acho que ela ofereceu apenas para que eu pegasse. “Segura”. Segurei. Ela pegou a flor esquisita. Pôs perto do nariz, o bastante para não ficar vesga ao olhar. Olhou dois segundos, com cara de criança, e soprou. As sementes não se soltaram todas. Ela jogou fora a flor, no meio do mato.

Só então olhou para mim a primeira vez. Foi para minha mão abaixada, que segurava o cigarro. Mas girou o corpo em minha direção. Com a mão na direção da minha, reclamou-o de volta, sem palavras. Encheu a boca com muita fumaça devagar, estufando com o peito o vestido azul marinho. Levantou o rosto para cima. Segurou a fumaça muito tempo, depois soltou-a, deixou escapar da boca aos pouquinhos. Jogou o cigarro no meio do mato, de sopetão, com cara de quem se diverte em saber que faz arte.

Abaixou-se, pegou a necessaire, ela estava no chão e se levantou. Não olhou meu rosto. Pôs-me a mão no pescoço, logo abaixo da orelha. Beijou-me um beijo que me pareceu demoradíssimo e que sei que não passou de uns cinco segundos. Apertou a boca de encontro à minha com força, mas também devagar. Pareceu-me um beijo terno. Deitava um pouco o rosto para meu nariz não atrapalhar. Logo ao desencostarmos as bocas, antes de me soltar o pescoço, lambeu meu lábio, gostoso, como se quisesse sentir algum sabor.

Ela já estava entre eu e a porta. Saiu, foi passar a correção da lição.

Eu cheguei daí uns cinco minutos, pela porta de dentro do prédio, a mesma por onde saí. Queria passar despercebido. Desconcertado, não queria que ninguém soubesse, ainda não quero. Ninguém soube, mas não passei despercebido. Meu colega e sua amiga me zoaram por meses, pelo motivo errado. Eu tinha cheiro de maconha na mão e na boca.

 

 

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