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Zona

Zona. Odeio zona. Não, não é pelo lugar, nem pelas mulheres que trabalham lá. Muito pelo contrário. O problema são os homens que freqüentam. Não sei como alguém pode sujeitar sua auto-estima a pagar por sexo. É deprimente imagina se tornar um.

Nós passávamos por uma famosa no interior, meu amigo achou que me faria bem. “Você anda com essa cara de bosta. Precisa relaxar.” Como se relaxar emendasse minha cara. Na verdade, eu o conheço já há tempo suficiente, ele é um tipo raríssimo que não vai zona pagar por sexo. Ele paga sim. Mas vai para se divertir, beber, conversar com as garotas. Relaxar, como ele diz. Tem amizade com várias. Conversa com elas como irmão mais velho, dá conselho, explica como resolver problemas de banco, de mecânico, de saúde.

A gente passeava no carro, com os vidros fechados pra não se expor. O cara conhecia bem ali, figurinha carimbada, mas não era em qualquer rua que podia deixar o vidro aberto. “Aqui, as ruas se organizam pelo tipo da mina. Têm os quarteirões da bonitas, das feias, das velhas, das craqueiras, dos travestis. Você não pode abrir o vidro onde não for a tua praia. Pode ser perigoso ou, no mínimo dar esperança pra alguém que, se você não quiser, vai chamar o motoqueiro pra te pegar.” Realmente, cada rua tinha um motoqueiro pra cima e pra baixo. Cada um é dono do seu pedaço e faz a segurança ali.

Num cruzamento que chegava a um trecho de rua bem mais iluminado, ele abriu os vidros, o do meu lado também. “Aqui é que é o babado bom!” A cara série de quem até então explicava, agora estava iluminada com um sorriso de criança quando termina a lição e corre pra brincar na rua.

As outras ruas que passamos tinham gente que eu não imagino como possa viver de vender o corpo. Feias, feios, gente mal-cuidada com cara de doente. Isso que havia dado o ensejo para a explicação sobre a distribuição da população da zona.

O trecho iluminado depois do cruzamento era realmente diferente. As garotas ali tinham aparência normal, de gente próxima, com quem trabalhamos, estudamos, vizinhas. Passariam despercebidas em qualquer lugar. Nem todas eram bonitas, é claro. Algumas eram fenomenais, outras mais sem graça, Ali se parecia mais com a idéia que eu faço de uma zona. Percebia-se a segmentação pelos quarteirões. Em alguns, garagens de sobrados, com quebra-sol, serviam de bares onde as meninas faziam sinal para os pedestres entarem. Noutros, casas de classe média tinham a aparência de restaurantes, com hostress e estacionamento ao lado. Havia também alguns imóveis com cara de balada, sem meninas à vista por perto, apenas os seguranças. “São os privês. Os seguranças não deixam as meninas da rua chegar perto. Aí só entra com convite.”

A área bem iluminada devia ter uns oito, talvez dez quarteirões, levávamos muito tempo para passar por cada um. Atrapalhamos o trânsito. A cada grupo de garotas, meu colega parava, ou era parado. As garotas dos grupos seguintes já faziam festa quando reconheciam o carro dele.

E ele parava, cumprimentava uma por uma. Conhecia todas pelo nome, pedia pra apresentarem as recém-admitidas. Pedia update das conversas anteriores, follow up. Algumas ele beijava no rosto, parecia ser ele quem limitava a liberdade que cada uma podia ter. De vez em quanto uma perguntava “Rola hoje?” (rola de rolar, não a gíria pro órgão sexual). Ele era evasivo, me oferecia: “Hoje eu vim especialmente para trazer meu amigo para vocês.” Parecia ser o único modo de ela notarem que havia alguém com ele. “Então é com você que vai rolar?” Eu morri de vergonha na primeira. “Não, a gente veio só pra beber. Não vai rolar nada hoje, não.” Meu colega não podia perder a oportunidade de me fazer ridículo. “Ele não pode, ele está apaixonado.”

A vontade de mandá-lo às favas só não podia ser maior do que a admiração nas caras das garotas quando ele dizia isso. Invariavelmente, faziam cara embevecida, apaixonada mesmo, eu diria. Como se subitamente se apaixonassem por mim, por me suporem apaixonado por alguém. As mulheres que trabalham nisso parecem gostar disso. Vivem num mundo de transações, não de relacionamento. Talvez não acreditem, mas gostam de histórias de amor. São mulheres que vivem ouvindo cantadas, se acham muito,cobram por isso. Se são recusadas, gostam de acreditar que tenha sido por uma verdadeira história de amor.

Era um alivio o pequeno trecho entre um grupo e outro. Nesses segundos nenhuma garota ficava debruçada nas nossas janelas ouvindo ele tentar me animar. “Apaixonado?”

Ele ria. “Seu porra, a mina dando o maior mole e você mal olha pra ela.” Ele parecia ter dificuldade pra ver algumas coisas. “Mano, como assim? Você disse que a puta me deu mole!”

Ele se deu conta e riu muito. Me diverti com o ridículo. O riso parece ter acabado com o freio dele.

“Bicho, vou pegar pesado agora”

“Como assim?”

Ele chegou o carro junto de uma garota que parecia esperá-lo já, deu beijinho no rosto. “Meu amigo aqui está precisando desestressar. Você vai dar tudo pra ele, tá?” Minha cara deve ter sido impagável, eles riu muito. Também não deve ter sido a primeira vez que ele zoou alguém assim. E não ia fazer nada com ela, mas me diverti com a brincadeira dos dois.

Os outros carros passavam pelas meninas, quando paravam e abriam o vidro, chamavam uma, a conversa parecia séria.

Meu amigo passeava de vidro aberto como se fosse um garoto no pátio da escola. E elas gostavam disso, E o tratavam do mesmo jeito. Conversavam conosco com a mão sobre o braço, debruçadas no carro, mostravam as novas tatuagens.

O sujeito é mesmo muito bacana. Eu tenho inveja disso. A gente percebe o clima que ele gera. Não só ali.

Ele é do meu naipe. Aliás é pior ainda, mais gordo, pra lá de relaxado. Acho que mais feio e isso não é fácil. Eu sei o quanto sou feio. As pessoas parecem ter uma necessidade cruel de me fazer brincadeira com isso.

“Bicho, vamos tomar uma cerveja pra relaxar.”

Eu não gosto de cerveja, mas não vou ser o estraga-festa. Paramos quase em frente a uma casa que parecia um café dos jardins. Mesinhas no deck do quintal. Pegamos uma mesa dentro casa. Ser visto bebendo no deck do puteiro é difícil de explicar.

Ele é casado. Se separou uma vez, por alguns meses, depois voltou. Diz que foi depois de voltar com a mulher que começou a ir ali para espairecer quando está muito danado.

“São as únicas mulheres em quem se pode confiar. Não que aqui não tenha tranqueira, tem também aos montes, mas você logo vê quem são. As outras, ou te vêem como cliente ou como amigo, sabem que não rola nada. Então não precisar fazer média, cena. aprontar joguinho. E elas precisam de amigo. Por que amizade de mulher já é rara e de homem, na zona, é mais ainda. Elas não dependem de homem delas pra nada aqui. Nem pra dar. Só o que é difícil pra elas é achar alguém que as trate com respeito e dê atenção.”

E ele fazia isso mesmo. Era dali as meninas que ligavam pra ele no almoço pra jogar conversa fora, contar da faculdade, da operação do pai, perguntar se ele tinha chegado bem em casa, se a família estava bem. Pediam conselho. O conselho agora era para mim.

“Cara, tem mulher nessa história.”

“Não, não tem.” Eu estava quase indignado. Minha meia-verdade até que era convincente.

“Seu porra, você está mentindo.” Ele me xinga assim quando acha que eu estou mentindo.

“Não estou.” Já não foi uma meia-verdade tão convincente.

“Cara, está cheio de mulheres maravilhosas aqui e você nem considera. É claro que tem mulher nessa história.”

“Mano, não tem mulher nenhuma, os problemas são os de sempre. Você já sabe deles.”

“Já sei. Mas pra você ficar com essa cara algo tem. Bicho, você do nada faz cara de choro.”

“Ah, mano, é que às vezes você já está meio chatedo, aí acontece alguma coisa, de repente até uma coisa boa, que te deixa, ainda por cima, pensativo.”

“Acontece o quê? Mulher?”

“Não, caramba!”

“Homem?”

“Filho-da-puta, claro que não.”

Rimos.

“Se não tem mulher nessa história, tem um monte aqui, pode escolher.”

Mais risadas. A minha já é de quem está de saco cheio de enrolar.

“Mano, você me conhece, você sabe que o problema não é esse. Se fosse isso, eu aceitava o convite. A gente já falou antes, você sabe que pra mim não funciona assim. Não é bem isso.”

Ele me atirou uma bolinha de guardanapos que estava amassando na mão.

“Então fala o que é, sua bicha! Fica aí com coisa de que não é mulher, mas agora já diz que não funciona assim, não é bem isso. Vai desembucha.”

“Sei lá, eu não sei explicar. O problema não é pegar. É sei lá, poder rolar algo legal com alguém, ficar bem, me dar bem, ter carinho…”

Me interrompeu: “Quer um abraço?”

Rimos, acho que ele não sabia direito o que falar, ficamos conversando algumas besteiras. Lembrei da história e da conversa. Ele notou vontade de chorar. Ficou danado:

“Vai se foder, você é o maior veado que eu conheço. Fica com esse papo de rolar algo legal, de se dar bem, carinho. Mano, quer carinho? Chupa! Todo mundo é teu amigo, você é amigo de todo mundo, tirando de quem te odeia kkkkkkk. Você é o maior legal, gente fina, gente boa. Todo mundo te respeita e é legal com você também. Vai se foder, maluco!”

Ficou me olhando, deve ser alguma técnica. Fiquei envergonhado, me achando infantil mesmo.

“Mano, você sabe que não é disso que eu estou falando. É diferente…”

Me interrompeu de novo: “O quê que é diferente?”

Ele fica me olhando esperando o efeito do interrogatório e eu pensando no que dizer.

“Sabe aquelas coisas que eu escrevo?”

Riu: “Não, você sabe que eu não leio.”

Ri também: “Ainda bem que você não sabe ler… kkkkk”

E logo, sério, encabulado: “Mas você sabe que o que tem lá… aquelas coisas que eu escrevo… elas são meio… como eu queria que fosse a minha vida.” Ficou difícil, mas segurei o choro. “E têm umas coisas. Por exemplo, você pergunta se é mulher. Nem tem como ser mulher. Eu faço amigas, converso, trato bem, como faço com os amigos homens também. Mas, se acontece de uma amiga… de eu achar que me dou muito bem e a gente tem alguma afinidade, que ela gostou de algo em mim. Nem é questão de ter mulher. É antes disso. É conhecer, passear, chamar pro cinema, ficar conversando de madrugada na padaria até amanhecer pra voltar pra casa, fazer essas coisas que são legais de fazer pra conhecer a mulher, antes de os amigos poderem achar que tem mulher na história. Conhecer os defeitos, ver se vale a pena. Poder ligar pra visitar de madrugada quando estou triste, em vez de te ligar e você me trazer aqui, é ficar sentado no sofá com a cabeça no colo dela, chorando enquanto ela me faz carinho. Que que eu posso oferecer? Que relacionamento? Não tem mulher na história porque eu nem o direito de tentar tenho.”

Acho que a resposta dele quis dizer que ele entendeu: “Bicha!”

Depois de um tempo sem jeito por causa das minhas lágrimas, passou a mão pelo meu ombro, apertou para me chacoalhar.

“Ah, vai se foder!”, reclamei tirando o ombro.

“Eu sabia, sua bicha!”

E depois de uma bicada no copo: “Cara, eu tenho muita inveja de você ser assim.”

Limpando o rosto, mando se foder de novo.

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