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Interlúdio

Ele sai do banho, enrolado na toalha, não sei porquê. Logo que chega junto a cama, desenrola a toalha da cintura, a joga no meio da cama e se senta de frente pra ela, tudo aparecendo.

Ela está na frente da pia, já terminando de secar o cabelo. Olha fixa para o espelho, como se isso ajudasse a secar. Os olhos bem arregalados, segura uma piranha, aquelas de prender cabelo, com os dentes.

Eles se encontraram de sem planejar, na hora do almoço. Ele visitou um cliente perto do escritório dela, ligou perguntando se ela podia, e passou para encontrá-la. Faziam isso algumas vezes. Quando era assim, não almoçavam, mas o encontro lhes alimentava o espírito. Voltavam ao trabalho leves, relaxados. Sentiam-se queridos.

Ele, apressado, já está colocando os sapatos quando ela termina de arrumar o cabelo e o prende com a piranha.

“Deixa-me te ajudar com o vestido.”

“Não precisa.”

“Eu faço gosto.”

Via-se que fazia mesmo. Ajudava-a a abotoar as costas do vestido como se estivesse embalando o tesouro mais frágil e precioso. E devia estar. Olhava, não para os botões, para as costas dela. Seguia com os olhos a linha da cervical que logo cobriria com o vestido. Aquelas costas que ele gostava de alisar quando ela se deitava de bruços em seu colo.

Quando termina de abotoar, um suspiro diferente, estranho. Ela, ainda de costas, nem desconfia, senta-se na cama para calçar os sapatos.

Ele já está pronto, levanta-se e vai ao balcão vizinho à porta.

“Acho que temos que terminar.” Sua voz mostra tristeza, mas é de quem já se decidiu, não quer magoar, tampouco dar esperança.

Ela fica chocada. Estava já calçada quando a ficha caiu. Só conseguiu falar engasgada um “mas…” Ele socorre explicando.

“Eu gosto muito de você…”

Pega algo em cima do balcão. E termina de falar, com a voz já visivelmente embargada:

“… muito mais do que devia, desculpa.”

E sai, arrumando na mão o que pegou do balcão.

4 comentários em “Interlúdio”

      1. No relato você diz que a moça de choca com a fala só moço:
        Ela fica chocada. Estava já calçada quando a ficha caiu. Só conseguiu falar engasgada um “mas…” Ele socorre explicando.

        “Eu gosto muito de você…”

        Pega algo em cima do balcão. E termina de falar, com a voz já visivelmente embargada:

        “… muito mais do que devia, desculpa.”

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        1. Ah! A sinceridade da personagem… rs Desculpa
          Tem situações que são chocosas por natureza. Esse instante para ela, por exemplo. Assim como o antes e o depois para ele.
          É uma situação que não tem como deixar indiferença a quem assiste e arrependimento a quem participa.

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