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A Louca do Trapiche

Y su cuerpo se enraizó en el muelle.
Sola en el olvido, sola con su espíritu, sola con su amor el mar.
Sola en el muelle de San Blás.
Maná, El Muelle de San Blás

Não sou de passar férias na praia, gosto de praia para passear. Passar o dia, o fim-de-semana. Carnaval na praia, de jeito nenhum.

Mas uma vez, numa viagem de férias, me programei para passar pousa duas noites numa praia no sul do país e aproveitá-la no dia entre elas. Após o café, desci para a areia e, logo de cara, gostei bastante daquela praia. O entorno é urbanizado tem asfalto, calçadas, hotéis, café, restaurante, banca de jornal, os serviços básicos. Sou da cidade, pausas para o café, passar a manhã de folga lendo o jornal do dia, sinal de celular para enviar fotos da folga para os amigos, isso é muito importante para mim. A areia e a água eram muito limpas, a água ia bem rasa numa faixa que até razoavelmente bem dentro do mar. Dava pra andar bem pra dentro dele sem precisar nadar. Odeio nadar. Praia é para ficar de bobeira.

Pela areia, muitas crianças, digo crianças, mas eram adolescentes, brincando. Namorico, futebol, corda bamba esticada entre troncos de árvores. Cachorros também fuçando troncos de árvores. Lugares freqüentados por turistas têm muitos cachorros, porque turistas deixam lixo, e é lixo com resto de comida.

Mais pra frente da praia, trapiches e barcos, alguns particulares, poucos de pescadores, e duas ou três escunas para passeios de turistas. Nessa hora, já sol nascido e dia estabelecido, ainda não havia muitos pescadores por ali, estavam pelo mar trabalhando. Pescador acorda cedo, nove, dez horas da manhã, já é dia longe, praticamente hora do almoço.

Mas a maioria das pessoas que estavam na praia era mesmo de aposentados, passeando, curiosamente em casal quase todos. Deve ser uma terra de casamentos felizes, sorri. Alguns turistas, a época do ano era relativamente fria para turismo e os adolescentes.

E um grupo de adolescentes lá pra frente da praia, passando pelos trapiches, fazia muita algazarra, eu ouvia. Faziam galhofa de uma velha, parecia mendiga, que estava sentada na ponta de um dos trapiches, embaixo de um guarda sol junto de algumas tralhas. Não dava pra ouvir o que era, eu estava longe deles, mas como gritavam alto pra ela e riam também alto entre si, percebia-se que não eram nada respeitosos. Mordi-me, fui ao trapiche dela, revoltado, ver se precisava de algo.

Os adolescentes atravessaram a rua e foram por uma travessa. Não iriam mais incomodá-la, não agora.

Passando por um carrinho, no caminho, peguei um cachorro-quente e uma coca, iria fingir que eram para mim, mas oferecer a ela. Chegando ao trapiche, ele pareceu-me longo, como se fosse mais longo do que o que eu andei para alcançá-lo.

Faltando poucos passos para chegar nela, eu olhava o horizonte como ela: “Vó, eles estavam mexendo com a senhora?”, mania de chamar de vó às senhoras de idade.

Ela demorou dar mostra de ter-me percebido. Quando deu, foi um pequeno movimento do rosto, acho que para me enxergar de rabo-de-olho. Os olhos mesmo continuavam para o horizonte.

Ela chorava. “Deixa estar filho, não ligo.” Essa voz não tinha emoção. Prova de que ela não ligava mesmo.

“Mas a senhora esta chorando…”

Ela, sem mexer a cabela, enxugou as que haviam escorrido, com o babado do vestido bege florido. A boca sorriu breve com os olhos ainda chorando, agora sem escorrer. Olhos muito tristes.

“Eles não têm como me ofender, são como esses pássaros barulhentos que têm por aqui. Seu barulho não significa nada, se eles não significam nada para você. Mas te deixam louco se você lhes der atenção. Deixa estar, quem lhes daria atenção se já não fosse louco?”

“A senhora está bem?”

“Tanto quanto posso filho, eu já sou velha, passo bem como pode uma velha. Você veio aqui perder tempo comigo?”

“Vou pro Sul, estou passando o dia aqui na praia pra descansar, olhar o mar. A senhora olha também. Daqui a vista é melhor?”

“Não sei, filho, nem vejo o mar, há tanto tempo estou aqui olhando que mal me lembro como é o mar.”

Por curioso e louco que fosse o que ela disse, não me espantei. A gente não se espanta quando fala com mendigo. Espera mesmo que digam o que ninguém mais teria coragem de dizer. Esse é seu direito. Seria louca ela? Como aqui no trapiche não via o mar que estava por todos os lados?

“A senhora aceita?”

Ela agora se virou. Os olhos cheios de água não escorriam. Se diria que o choro parecia estatico, empedrado, eterno, no seu rosto acinzentado de costume de ser queimado ao sol. Com as mãos, ofereci-lhe o sanduíche e a coca. Ela pegou quieta. Mas, logo que já estava com o rosto apontado de novo para o horizonte, antes de começar a morder:

“Tem gente que se ofende de aceitar comida da mão dos outros, eu não. Muito agradecida, filho.” O tom de voz, embora didático, era de agradecimento mesmo. Nos poucos segundos ou frações de segundos em que ela olhou para mim, seu olhar era como o da avó que recebe do neto o café da tarde, na soleira da porta, enquanto cose. Achei meigo. Já o olhar para o horizonte, era vicioso. “A gente vive como pode e ajuda quem pode. Por que não se deixar ajudar, né, filho?”

Estava quase sob um guarda-sol velho, grosso, uma vareta quebrada pendia boba. A sua direita, duas caixas de madeira estavam na sombra do guarda-sol, dessas de hortaliça que a gente pega no lixo da feira, uma sobre a outra, desalinhadas. Umas coisas dentro. Parecia haver um cobertor, uma caneca, uma livro sem capa, com letras miúdas, me representou uma biblia já bem manuseada. Distraí os olhos, não queria xeretar. Voltei o rosto para ela, sorrindo divertido, mas tentando que ela não percebesse que já a tomava por louca:

“Que que a senhora olha aqui então?”

“Não olho, espero. Estou esperando meu marido. Fico aqui. Espero ele voltar.”

Parecia o tom de voz de quem conta uma mentira. Sem emoção, resignado. Tom de quem conta uma mentira só pra se ver livre da pergunta.

“Onde ele está?”

“Ele saiu pro mar, trabalhar. Diz que a pesca aqui, pra cá das ilhas não está boa mais. Ele foi pra além. É muito longe, mas já volta.”

Devia ser longe mesmo, eu não via ilha nenhuma. Nem lembro de nenhuma ilha famosa por ali.

“Faz tempo que ele saiu?”

“Algumas semanas, eu acho. Depois de alguns dias esperando em casa, comecei a ficar impaciente, essas pescarias não costumam demorar mais de um dia, mas ele avisou que ia pescar bem longe. Não agüento esperar em casa, vim esperar aqui.”

Não entendo de pesca.

“Algumas semanas? É normal isso?”

“Ele jurou que volta e eu jurei esperar. Estou aqui esperando, ele já deve estar chegando.”

Agora fiquei impressionado. A falta de emoção já transparecia a mentira mesmo. Não a mentira de quem quer enganar ao outro, mas a de quem engana a si, a de quem quer enganar tanto a fé quanto o sofrimento.

“A senhora devia esperar em casa, não?”

“Minha casa, trouxe para cá.” Apontou com a orelha para as caixas. “Ele pode chegar a qualquer momento. Vai ficar feliz de ver que não arredo pé daqui, esperando.” Sorriu. Sorriu como quem já imagina a cena. A mentira já tinha virado verdade, ela se convencera. A voz estava rouca.

“O vento do mar é frio. A senhora está com vestido de verão. Por que não se cobre, põe um agasalho?”

“Não, não. Ele pode passar ao largo sem me reconhecer. Ir para outro trapiche. Aí perde a graça, estou velha demais para correr para o outro trapiche atrás dele. Ele se lembra que eu estava assim, quando chegar, virá para cá. Ele já chega”

Ela me deixava sem palavras, olhei o horizonte de lado a lado, devagar, procurando as tais ilhas e um pescador velho que chegasse num barquinho com uma montanha de peixes. Eu precisava arrumar ajuda para ela ou ficava louco igual.

“O pior, filho, não são os meninos. Têm uns que vêm aqui como você. Não me chamam louca, não xingam. Conversam, me oferecem lanche, e tentam me levar pra internar.”

“Já não sou louca.”

Tive vergonha de meu pensamento, eu a julgando. Ela já não era louca, disse. Tinha consciência de que ele não voltaria? Ou estava eu enganado? Ele voltaria? E se não voltasse? Que bem faria a ela estar trancada em casa, num hospital, num abrigo, sofrendo e chorando mais ainda do que aqui? Por não poder estar aqui. Por terem lhe negado seu sonho de negação.

“Os pescadores e os comerciantes não deixam me levarem, eles conhecem meu marido. E sabem que estou melhor aqui sozinha.”

“Bom, fica com D’us, vó, bom dia.”

“Amén, filho, boa tarde.” me corrigiu, já eram mais de onze horas.

Eu fui embora.

Daí a alguns anos, noutra viagem para o Sul, parei um começo de noite para pousar nessa praia de novo, curioso, lembrando da conversa com a velha.

Antes de procurar pouso, fui até o trapiche. Estava desativado um cordão de plástico amarelo e preto queria impedir o acesso.

Mas, na luz ruim, ofuscada pelo pôr-do-sol ao fundo, ela estava lá na ponta do trapiche. Parei o carro, passei pelo cordão e fui andando pelo trapiche. Estava muito estragado tábuas soltas, algumas faltando, outras podres, tinha que ter muito cuidado. Parecia muito mais comprido do que me lembrava. Um cachorro dormia no meio do caminho. Ele acordou, tive medo, mas fui ignorado. Seria dela o cachorro? Amigo dela talvez.

De longe ela parecia muito suja, esfarrapada, mas quando cheguei perto vi que não. Era um montinho de terra, embaixo do mesmo guarda sol já todo quebrado sem a lona. As caixas estavam quebradas e tinham só com algumas poucas porcarias. Presos ao monte de terra, galhos, teias de aranhas, escorpiões, ramos de plantas, como que enraizadas naquele montinho de terra e entulho, desciam pela borda do trapiche e mergulhavam no mar.

 

3 thoughts on “A Louca do Trapiche”

  1. O tempo me parece relativo para quem espera e para quem caminha com um lanche e uma coca na mão…. Mas ainda assim esse tempo existe…

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